O inverno muda o comportamento da fauna brasileira de diversas maneiras, impactando desde pequenos pássaros migratórios até grandes felinos. A chegada da estação fria, embora sem a neve típica de climas temperados, provoca alterações significativas nas rotinas de milhares de espécies por todo o país, influenciando seus padrões de alimentação, reprodução e deslocamento.
Anualmente, com a aproximação do outono e a consequente queda das temperaturas, diversas espécies iniciam jornadas longas e complexas. Um exemplo notável é o bem-te-vi-rajado (Myiodynastes maculatus), um pássaro de cerca de 20 centímetros, que migra das regiões Sul e Sudeste do Brasil, fugindo do frio, para as florestas amazônicas, onde o clima tropical é mais acolhedor.
Essas transformações no dia a dia dos animais são estudadas por especialistas. Roberto Fusco, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, ressalta que em regiões tropicais e subtropicais, as principais modificações se dão no movimento e na dieta dos animais, que adaptam seu consumo alimentar à disponibilidade sazonal dos recursos. As adaptações da fauna brasileira no inverno são um fenômeno complexo e vital para a sobrevivência das espécies.
Inverno Muda Comportamento da Fauna Brasileira
No universo das aves, apenas cerca de 10% das espécies no Brasil realizam migrações de curta distância, um número relativamente baixo em comparação com outras partes do globo, conforme aponta o ornitólogo Marco Aurélio Pizo, professor da Unesp de Rio Claro, em São Paulo. Algumas aves se deslocam do sul do continente em direção ao Sudeste brasileiro, mas a maioria segue um padrão de movimentação similar ao do bem-te-vi-rajado.
Pizo explica que “várias espécies saem do Sudeste em direção ao Norte e só retornam no final de agosto”. Entre elas, destacam-se o suiriri, o gavião-sovi e a tesourinha. Esta última, por exemplo, alcança o norte da América do Sul, passando o inverno em Roraima e na Venezuela, para então retornar a partir de agosto, ocupando o Sudeste e o Sul do Brasil, chegando até o Uruguai e a Argentina.
O período de temperaturas mais baixas também induz alterações comportamentais na fauna. As aves, por exemplo, reduzem a frequência de seus cantos, o que impacta diretamente a época reprodutiva, geralmente evitada durante os meses mais frios. Essas mudanças no comportamento animal são estratégias de adaptação ao ambiente.
Já os mamíferos tendem a concentrar suas atividades nos horários de temperaturas mais elevadas. Na Mata Atlântica, animais com hábitos diurnos, como a cutia (Dasyprocta azarae), a irara (Eira barbara) e o gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi), aproveitam as tardes para procurar alimento. Espécies de hábitos noturnos, como a jaguatirica (Leopardus pardalis), passam a caçar mais cedo, no início da noite.
Além das variações de temperatura, os diferentes regimes de precipitação influenciam o comportamento dos animais. Em biomas como o Pantanal e a Amazônia, as estações se dividem entre seca e chuva, impactando diretamente a disponibilidade de alimentos.
Roberto Fusco, que também coordena o Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar, menciona um estudo recente sobre a onça-pintada na Amazônia. “Na época de cheia, o bicho fica quatro meses nas copas das árvores alimentando-se de animais arborícolas e peixes. Na estação seca, volta para o solo”, relata. No Pantanal, durante a seca, os animais se concentram em áreas onde ainda há água. Essa concentração de presas atrai a onça-pintada, que se alimenta nesses locais e expande sua área de caça para acompanhar a disponibilidade de recursos.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
A escassez de alimentos no inverno, seja pelo frio ou pela seca, é um dos principais fatores que impulsionam as migrações, que não se restringem a grandes distâncias. Existem também as migrações altitudinais, onde o deslocamento ocorre verticalmente: de áreas mais elevadas para as mais baixas, e vice-versa. Este tipo de migração também é uma forma da fauna brasileira no inverno se adaptar.
Marion Silva, gerente de conservação da biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, exemplifica com a anta: “ela tem uma sazonalidade clara de distribuição ao longo do ano: em momentos [mais quentes] ela está na região alta e montanhosa, e em momentos [mais frios] ela desce para se alimentar numa região de altitude menor”. O mesmo fenômeno é observado em algumas espécies de aves, como os beija-flores.
Os especialistas destacam a necessidade de maior investimento em pesquisa científica para compreender a fundo os fatores que desencadeiam as alterações de comportamento e as trajetórias das migrações sazonais da fauna brasileira. Pizo avalia que “são poucas as espécies que foram de fato estudadas a fundo sobre as motivações para migração. Muitas delas a gente não conhece a rota migratória porque isso demanda um trabalho bastante intenso”.
Essa lacuna de conhecimento pode comprometer a preservação das espécies, uma vez que a definição de áreas protegidas e corredores ecológicos – regiões de vegetação nativa que conectam fragmentos de florestas e outros ecossistemas – depende diretamente dessas informações sobre o uso do território pelas diferentes espécies. Em um contexto mais amplo, a crise climática global, impulsionada pelas emissões de gases de efeito estufa, agrava essas mudanças, alterando padrões históricos de temperatura e a intensidade de fenômenos meteorológicos. É fundamental, portanto, a conservação de ecossistemas para a adaptação da fauna, conforme destacado por organizações como o WWF Brasil, que monitora os impactos ambientais em diversas frentes.
“Estudos feitos em outros países já mostram que as aves têm saído para migração e chegado aos seus locais de destino cada vez mais cedo ao longo dos anos”, exemplifica o ornitólogo, alertando para os efeitos das mudanças climáticas. Marion Silva resume a importância da conservação: “Quanto mais natureza conservada nós temos, mais elástico será esse ambiente para as espécies se adaptarem às mudanças climáticas. E quanto menos ambientes naturais, mais conflitos, extinções e escassez de recursos”. Compreender como o inverno muda o comportamento da fauna brasileira é crucial para estratégias de conservação.
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Em suma, o inverno e as variações sazonais impõem desafios e promovem adaptações notáveis na fauna brasileira, desde a migração de aves até as mudanças nas estratégias de caça de mamíferos. Aprofundar o conhecimento sobre essas dinâmicas é essencial para a conservação e para mitigar os impactos das alterações climáticas. Para se aprofundar em mais análises e notícias relevantes, convidamos você a explorar o vasto conteúdo de Hora de Começar na editoria de Análises e continuar acompanhando as últimas novidades.
Crédito da imagem: Marlene Bergamo – 18.ago.25/Folhapress







