A Secretária Municipal de Assistência Social de São Paulo, Eliana Gomes, promoveu um jantar na noite de quinta-feira (17) onde anunciou um reajuste de 5,5% nos repasses destinados a entidades sociais que dependem da Prefeitura. O evento, contudo, ocorreu em um ambiente notavelmente cercado por cartazes de campanha eleitoral da primeira-dama da cidade, Regina Nunes (MDB), e do ex-secretário de Habitação Sidney Cruz (MDB), gerando questionamentos sobre a natureza da reunião.
A iniciativa da secretária Eliana Gomes convocou gestores de diversas entidades, em um momento crucial para o setor. As organizações sociais, há tempos, reivindicam um aumento em seus repasses, tendo inclusive realizado um protesto em agosto do ano anterior, que resultou no fechamento parcial do Viaduto do Chá, em frente à prefeitura. A expectativa por um reajuste havia crescido significativamente após a publicação de um decreto, na terça-feira (15), que realocou recursos de outras pastas para a assistência social, indicando a iminência de um anúncio.
Secretária anuncia reajuste em jantar com campanha eleitoral
O convite oficial enviado pela secretária às gestoras descrevia o encontro como “um encontro para dialogar sobre os desafios e as perspectivas da assistência social em nossa cidade”, sem qualquer menção a pautas de cunho eleitoral. No entanto, a escolha do local para o anúncio já havia despertado estranheza em uma das convidadas, que compartilhou suas percepções com a Folha de S. Paulo. A reunião foi realizada na Pizzaria Moraes, um estabelecimento tradicional fundado em 1933, situado no bairro do Bexiga, conhecido por sua história na capital paulista.
Ao adentrar o salão da pizzaria, as convidadas depararam-se com uma realidade distinta da apresentada no convite. Fotos obtidas pela reportagem revelam a ampla exposição de propaganda eleitoral. Cartazes e um telão exibiam imagens da campanha de Regina Nunes, que busca uma cadeira como deputada estadual, e de Sidney Cruz, que concorre a deputado federal. Ambos os políticos formam uma “dobradinha” nas eleições, reforçando a parceria política. As peças de campanha estavam estrategicamente posicionadas ao lado de um palco, deixando poucas dúvidas sobre o caráter da reunião, conforme relatos de uma das presentes.
Durante o evento, Eliana Gomes oficializou o índice de reajuste e prometeu que a medida será publicada no Diário Oficial na próxima segunda-feira (21). Após o jantar, a secretária gravou um vídeo e o divulgou em suas redes sociais, atribuindo o mérito da decisão ao prefeito Ricardo Nunes. Em sua fala, ela declarou: “A gestão Ricardo Nunes investe em pessoas. Como consequência, será publicada a portaria de reajuste de 5,5%”.
Reações e Contradições
A presença de Sidney Cruz, vereador licenciado e apontado como um dos possíveis nomes para suceder Ricardo Nunes na prefeitura nas eleições de 2028, adicionou outra camada de complexidade ao evento. Questionado pela reportagem, Cruz afirmou não ter conhecimento do jantar: “Fiquei sabendo por você sobre esse evento. Portanto, não tenho conhecimento”, declarou, distanciando-se do episódio.
Este incidente surge em um momento delicado para a administração municipal. O prefeito Ricardo Nunes e a primeira-dama Regina Nunes já são alvo de uma investigação por improbidade administrativa. O caso, previamente revelado pela Folha de S. Paulo, envolve um produtor de vídeos que atuava para Regina Nunes enquanto recebia remuneração por um cargo na Secretaria Municipal de Direitos Humanos, levantando preocupações sobre o uso indevido de recursos e estruturas públicas para interesses privados ou eleitorais. Para aprofundar a compreensão sobre casos semelhantes envolvendo a administração pública, pode-se consultar reportagens sobre contratos de saúde e assistência social na prefeitura de SP.

Imagem: valor.globo.com
Em nota oficial, a Prefeitura de São Paulo informou inicialmente que o jantar havia sido custeado pessoalmente pela secretária Eliana Gomes, ressaltando que nenhum recurso público foi utilizado. De acordo com o Portal da Transparência, a secretária recebe um salário mensal de R$ 34,7 mil. A Justiça Eleitoral, até a quinta-feira (17), não registrava nenhuma doação de Eliana Gomes às campanhas de Regina Nunes ou de Sidney Cruz.
No entanto, a versão sobre o custeio do jantar sofreu uma alteração. Em uma nova resposta à reportagem, via pedido à Secretaria Executiva de Comunicação, a prefeitura retificou a informação: “Diferentemente do informado anteriormente, os custos relacionados ao encontro foram pagos pelos próprios convidados”. Essa nova declaração, porém, foi contestada pelas testemunhas ouvidas, que negaram ter efetuado qualquer pagamento. Um atendente da Pizzaria Moraes, contatado por telefone, mencionou que havia comandas individuais para as mesas na ocasião, mas não soube fornecer detalhes sobre os pagamentos efetuados.
Diante dos questionamentos sobre o evento, a equipe do prefeito Ricardo Nunes se manifestou por meio de uma nota, buscando desvincular a medida do reajuste de qualquer conotação político-eleitoral. “A medida não tem qualquer condicionamento com apoio ou manifestação político-eleitoral. A prefeitura não orienta, autoriza ou compactua com qualquer tipo de convocação de pessoas ligadas à administração pública para participação em atividades de natureza político-eleitoral”, afirmou o comunicado.
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O episódio levanta sérias discussões sobre a transparência e a ética na gestão pública, especialmente em período pré-eleitoral, onde a linha entre ações administrativas e propaganda política pode se tornar tênue. A notícia do reajuste, tão aguardada pelas entidades, fica ofuscada pelas circunstâncias de seu anúncio, exigindo atenção contínua das autoridades e da sociedade civil. Para acompanhar as últimas novidades e análises sobre os desdobramentos políticos na capital, continue explorando nossa editoria de Política.
Crédito da imagem: Folha de S. Paulo






