Com a proximidade do primeiro turno das eleições, a menos de uma semana para o pleito, a corrida presidencial entre o atual presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) apresenta um cenário de incerteza, sem um favorito definido. Diante dessa conjuntura, que o mercado financeiro classifica como “binária”, a principal orientação de especialistas é clara: não transformar a carteira de investimentos eleição em uma aposta meramente política. A recomendação unânime converge para uma abordagem estratégica que prioriza a manutenção da renda fixa como pilar central, uma exposição equilibrada à Bolsa de Valores e aos títulos prefixados, a alocação de parte do patrimônio em dólar como medida de proteção e a realização de novos aportes de forma gradual.
Um levantamento detalhado conduzido pelo UBS, que analisou anos eleitorais anteriores, revelou que não houve um aumento consistente na volatilidade da Bolsa, do câmbio ou da renda fixa durante esses períodos. Contudo, os especialistas ressaltam que a dinâmica que se altera é a intensidade das reações do mercado. Cada nova pesquisa de intenção de voto tem o potencial de influenciar as expectativas sobre a futura política fiscal do país, podendo desencadear movimentos bruscos e significativos nos ativos em questão de poucos dias. É nesse contexto de sensibilidade acentuada que a cautela se torna imperativa. Para entender melhor os mecanismos da política monetária e fiscal brasileira, que impactam diretamente o cenário de investimentos, é fundamental consultar fontes oficiais como o Banco Central do Brasil.
Investimentos Eleição: Estratégias para o Mercado Financeiro
A Tivio Capital, por exemplo, antecipa uma oscilação relevante no dia imediatamente posterior à votação, independentemente do vencedor. A expectativa do mercado é por sinais concretos e imediatos de ajuste nas contas públicas, o que pode gerar fortes reações. Assim, o conselho primordial é evitar tomar decisões financeiras impulsionadas pelo calor das notícias e pesquisas eleitorais. André Leite, CIO da TAG Investimentos, sintetiza a postura ideal: “A única coisa que você precisa evitar agora é fazer grandes apostas.” Essa premissa reforça a importância de uma análise fria e racional, distante de impulsos especulativos que podem ser prejudiciais à saúde financeira do investidor.
Para aqueles que dispõem de capital para novas aplicações, a resposta dos analistas não é extrema, situando-se em um meio-termo: nem tudo de uma vez, nem tudo depois. Pedro Carneiro, gestor da Asset1, sugere uma estratégia de entrada parcelada, dividindo os aportes em três etapas até o mês de novembro. Essa abordagem, conforme apontado pela Franklin Templeton, já é uma prática adotada por uma parcela significativa do mercado, buscando diluir o risco e capturar diferentes momentos de preço ao longo do período de incerteza eleitoral. A fragmentação dos investimentos permite uma maior flexibilidade e adaptação às mudanças de cenário que podem ocorrer.
No que tange aos investidores que já possuem posições em ações, a recomendação de Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, é evitar grandes movimentações neste momento. O ideal é aguardar a definição do resultado das urnas para, então, proceder ao rebalanceamento da carteira de forma mais assertiva. Para aqueles que ainda não entraram no universo da Bolsa de Valores, é um período considerado oportuno para começar a montar uma posição, desde que o horizonte de investimento seja de, no mínimo, cinco anos. Essa perspectiva de longo prazo é crucial para mitigar os impactos de eventuais volatilidades de curto prazo e permitir que o investimento amadureça.
A renda fixa, por sua vez, emerge como um porto seguro enquanto o desfecho eleitoral permanece indefinido. O grupo dos títulos pós-fixados, que inclui instrumentos como o Tesouro Selic e os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) atrelados ao CDI, mantém-se como a opção mais estável. Jeff Patzlaff, planejador financeiro, descreve o “carrego do pós-fixado” como a “melhor poltrona de espera”, sugerindo a segurança e a previsibilidade de rendimento que esses papéis oferecem em um ambiente de taxas de juros elevadas e incerteza política.
Paralelamente, o Tesouro IPCA+ desponta como uma das principais recomendações para o mês em curso. O UBS categoriza os títulos atrelados à inflação como “muito atrativos” e os considera uma “peça central das carteiras de longo prazo”. Luis Stuhlberger, renomado gestor do fundo Verde, expressa preferência por esses títulos em detrimento dos prefixados. A orientação mais frequente, no entanto, é evitar os vencimentos mais longos, que são naturalmente mais suscetíveis a oscilações. A Ghia Multi Family Office, por exemplo, foca em um prazo médio em torno de seis anos e identifica nos ETFs que replicam o índice IMA-B uma maneira prática para o investidor seguir essa estratégia de forma diversificada e eficiente, acessando uma cesta de títulos indexados à inflação.
Os títulos prefixados, por sua vez, conquistaram um espaço relevante com o início do ciclo de cortes da taxa Selic, mas devem ser incorporados em doses mais controladas. Um estudo da XP Investimentos indica que, historicamente, esses títulos superam o CDI na maioria das vezes, mas por uma margem geralmente pequena. As vitórias mais expressivas ocorreram quando o investidor conseguiu travar taxas de juros elevadas antes que o mercado precificasse os cortes. O cuidado principal, aplicável a ambos os tipos de título (IPCA+ e prefixados), reside na marcação a mercado. Quem eventualmente precisar vender antes do vencimento fica exposto a ela, e uma elevação inesperada das taxas de juros pode resultar em perdas de alguns pontos percentuais em papéis com vencimento em cinco anos. Por essa razão, o estudo da XP considera títulos mantidos até o vencimento, e os especialistas aconselham aplicar em prefixados e IPCA+ apenas o capital que se pode manter investido até a data de expiração.
Em busca de uma alocação mais específica para a renda fixa, três especialistas consultados pelo InfoMoney no início do mês propuseram divisões distintas, adaptadas a diferentes perfis de investidor:
- **Perfil Mais Conservador (Jeff Patzlaff):** A estrutura ideal seria composta por 70% em Tesouro Selic, 20% em títulos IPCA+ e os restantes 10% em prefixados, priorizando a segurança e a liquidez.
- **Perfil Equilibrado (Leonardo Mendes, da Manchester):** Sugere uma distribuição de 30% em pós-fixados, 40% em IPCA+ e 30% em prefixados, sendo que metade destes últimos deve ter vencimento em até dois anos, equilibrando segurança com potencial de rendimento.
- **Perfil Mais Exposto a Juros (Robson Casagrande, da GT Capital):** Recomenda 25% em Tesouro Selic, 45% em IPCA+ com vencimentos entre 2029 e 2032 e 30% em prefixados com vencimentos entre 2029 e 2031, estes últimos comprados em duas ou três etapas para otimizar o custo de entrada.
No segmento de crédito privado, a palavra de ordem é “seletividade”. Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), que adquirem recebíveis de empresas, atraíram um volume tão grande de investidores que as taxas de retorno sofreram uma redução. Atualmente, algumas cotas seniores oferecem rendimentos próximos a CDI+2%, um patamar que gestores consideram baixo frente ao risco de inadimplência inerente a esses instrumentos. Robson Casagrande, da GT Capital, expressa preocupação com a deterioração das cotas subordinadas, que são as primeiras a absorver eventuais perdas em caso de problemas. Leandro Turaça, sócio-gestor da Ouro Preto Investimentos, enfatiza que “a taxa importa, mas a estrutura que protege essa taxa importa mais”. Antes de investir, é fundamental compreender a origem do crédito, o grau de pulverização da carteira e o histórico de perdas do fundo, a fim de avaliar o risco real envolvido.
No universo das ações brasileiras, há um consenso de que os ativos estão com preços atrativos, negociando com desconto tanto em relação ao seu próprio histórico quanto a pares da América Latina. Bancos estrangeiros de peso, como o JPMorgan, enxergam um potencial de alta significativo caso o cenário fiscal do Brasil demonstre melhorias. A leitura predominante é de uma “assimetria”, onde o potencial de ganho supera o de perda, especialmente considerando que o investidor estrangeiro ainda possui uma baixa exposição ao país e que parte do cenário de reeleição já estaria precificada. Contudo, a recomendação geral é para não exceder na dose. A XP Investimentos mantém uma posição abaixo do neutro para ações brasileiras e sugere que, mesmo para o perfil moderado, a fatia da carteira alocada em Bolsa deve ser pequena, sem que isso implique a saída completa do mercado.

Imagem: infomoney.com.br
Ao selecionar os papéis, a preferência recai sobre as “blue chips”, as ações de maior liquidez e volume negociado, e sobre empresas que demonstram solidez de caixa e são boas pagadoras de dividendos. Setores como energia, saneamento, commodities e bancos são frequentemente citados como opções mais resilientes. A Kinea sugere uma divisão da carteira em duas frentes: uma com empresas que conseguem gerar caixa consistente em qualquer cenário econômico e outra com setores que tendem a se beneficiar mais em um ambiente de queda de juros. Para as estatais, que são os ativos mais expostos aos resultados das urnas, Pedro Carneiro, da Asset1, aconselha limitar a fatia a cerca de 10% da carteira total de ações, mitigando o risco político concentrado.
Bancos e casas de análise, em meio à indefinição da disputa, elaboraram carteiras específicas para cada um dos possíveis resultados eleitorais:
- **Cenário de Vitória de Lula:** Considerada uma continuidade com juros elevados por um período mais longo, a preferência se volta para exportadoras e empresas de perfil mais defensivo. Nomes como Suzano (SUZB3), WEG (WEGE3), Embraer (EMBJ3) e seguradoras são frequentemente indicados, por serem menos impactados por flutuações domésticas.
- **Cenário de Vitória de Flávio Bolsonaro:** Associada pelo mercado a um ajuste fiscal mais célere, este cenário favorece empresas ligadas à economia doméstica e mais sensíveis a movimentos de juros. Cyrela (CYRE3), B3 (B3SA3) e XP (XPBR31) ganham destaque. O setor financeiro, por sua vez, apresenta resiliência em ambos os cenários, com o BTG Pactual (BPAC11) figurando em carteiras desenhadas para qualquer um dos desfechos.
Para aqueles que buscam proteção através de ações de dividendos, a cautela é fundamental. Um estudo da XP demonstra que essas ações não exibem valorização em períodos de juros altos. A vantagem percebida reside no fato de que elas tendem a cair menos que as empresas que distribuem poucos proventos, mas a verdade é que reagem aos juros tanto quanto, ou até mais, que o restante do mercado de ações. No caso específico das estatais, especialistas alertam que o dividend yield passado, quando analisado isoladamente, pode ser enganoso, pois pode refletir pagamentos extraordinários ou uma forte desvalorização do preço da ação. A orientação é focar na perspectiva de crescimento dos proventos e na solidez financeira da empresa, além de montar posição de forma fracionada para diluir riscos.
A alta das taxas de juros nos Estados Unidos tornou a renda fixa americana mais atrativa, porém, não o suficiente para superar o rendimento do CDI no Brasil. De acordo com os cálculos de Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, com o dólar estável, um título de 10 anos do Tesouro americano rende significativamente menos que a renda fixa brasileira após a dedução de impostos e custos de câmbio. Para que houvesse um empate, a moeda americana precisaria valorizar-se cerca de 10% em 12 meses, um cenário incerto. Dessa forma, a dolarização faz mais sentido como uma estratégia de proteção contra um cenário doméstico adverso do que como uma busca pura por rentabilidade superior. Trevisan argumenta que “o investidor não se protege do cenário médio, se protege do cenário ruim”, sugerindo uma alocação de 15% a 20% do patrimônio em dólar para investidores de perfil moderado. Outras casas vão além: a TAG recomenda um mínimo de 30% no exterior, Stuhlberger fala em 30% a 50%, e o UBS equipara a diversificação internacional à atratividade dos títulos IPCA+.
Para valores menores, a sugestão prática é abrir uma conta em uma corretora no exterior e investir em ETFs (Exchange Traded Funds) de títulos americanos, ou, alternativamente, recorrer a BDRs de ETFs negociados na B3. O consenso entre os especialistas é evitar produtos com proteção cambial, que anulariam justamente o efeito da valorização do dólar como medida protetiva. Os títulos americanos atrelados à inflação, conhecidos como TIPS (Treasury Inflation-Protected Securities), que oferecem o maior juro real em quase 18 anos, entram como um complemento valioso, mas não como um substituto do Tesouro IPCA+. Nenhum dos especialistas consultados recomenda a troca de um pelo outro exclusivamente em função do período eleitoral.
Entre os movimentos que os especialistas desaconselham veementemente neste momento pré-eleitoral, destacam-se os seguintes:
- Investir em fundos multimercados, que receberam a pior recomendação do UBS para o período.
- Vender títulos IPCA+ com o único objetivo de dolarizar a carteira devido à eleição.
- Adquirir produtos de investimento no exterior que ofereçam proteção cambial, desvirtuando o propósito de hedge.
- Escolher FIDCs unicamente com base na taxa de retorno, sem avaliar a estrutura de risco.
- Selecionar ações apenas pelo dividend yield passado, sem considerar a sustentabilidade dos proventos e a saúde da empresa.
- Concentrar a carteira de investimentos em um único cenário eleitoral, ignorando a possibilidade de outros desfechos.
Após a votação, o que verdadeiramente pautará os preços dos ativos não será tanto o nome do vencedor, mas sim os primeiros passos e as sinalizações concretas do eleito. Um levantamento do Goldman Sachs, que analisou eleições anteriores, mostra que o câmbio, por exemplo, reagiu mais a desdobramentos tangíveis, como a escolha de ministros-chave e o progresso de reformas, do que ao resultado do pleito em si. Na mesma linha, a Tivio Capital avalia que o investidor estrangeiro demonstra maior preocupação com um sinal claro de ajuste fiscal logo após a eleição do que com a identidade do presidente eleito. Para aqueles que preferem adotar uma postura de espera antes de realizar movimentações mais significativas, Jeff Patzlaff sugere que “vale mais entrar pagando um pouco mais caro depois de conhecido o novo comando da economia do que tentar adivinhar o resultado agora.” Um eventual segundo turno está agendado para 25 de outubro, caso nenhum candidato alcance a maioria absoluta dos votos válidos no primeiro turno.
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Em suma, a semana que antecede as eleições exige dos investidores uma abordagem pautada pela prudência e pela diversificação. Em vez de se deixar levar pela volatilidade do cenário político, a estratégia mais inteligente reside em consolidar a renda fixa como base, gerenciar a exposição à Bolsa de forma consciente, utilizar o dólar como ferramenta de proteção e realizar aportes escalonados. Manter-se informado e seguir as recomendações de especialistas é crucial para navegar com segurança. Continue acompanhando nossas análises na editoria de Economia para insights valiosos sobre o impacto das decisões políticas no mercado financeiro e as melhores estratégias para proteger e fazer seu patrimônio crescer. Acesse mais conteúdos em Hora de Começar – Economia.
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