A cena cultural paulistana ganha destaque com uma série de **exposições de arte em São Paulo** que prometem instigar o público. Quatro mostras simultâneas, apresentadas em dois espaços da renomada Galeria Almeida & Dale, na Rua Fradique Coutinho, zona oeste da capital, oferecem um panorama diversificado da produção artística contemporânea. As exibições mergulham em temas como a complexa relação entre matéria e tempo, a intimidade e o erotismo, a trajetória da pintura e a memória, propondo múltiplas perspectivas sobre a arte atual.
As exposições em cartaz são “Quarto de Máscaras”, de Maya Weishof; “O Parado das Coisas”, de Felipe Cohen; “A Tragédia e o Escárnio”, de Victor Arruda; e “Two Big Footers”, uma colaboração entre Atsushi Kaga e Tarsila do Amaral. Cada uma delas articula abordagens distintas, mas que se conectam na exploração profunda de conceitos fundamentais para a arte e para a compreensão humana.
Exposições de Arte em SP Unem Tarsila, Nudez e Natureza
Em “O Parado das Coisas”, o artista Felipe Cohen se dedica a investigar paisagens reduzidas à sua essência primordial. Montanhas, nuvens, horizontes e cachoeiras são reconfigurados em relevos, esculturas e objetos que instigam uma reflexão sobre o contraste entre o que se move e o que permanece estático. A escultura “Cachoeira”, confeccionada em pedra e madeira, exemplifica essa busca. Cohen explica que o cerne da exposição reside na impossibilidade de representar o movimento por meio de mídias tradicionalmente duradouras, como a pintura e a escultura. Ele observa que a cachoeira sintetiza essa problemática, pois a água atua como um escultor natural, moldando as pedras por onde flui. O título da mostra é inspirado em uma passagem de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, transformando “parado” em substantivo, evidenciando a tentativa de fazer a matéria inerte evocar aquilo que não está imóvel.
Já “Quarto de Máscaras”, de Maya Weishof, tem como ponto de partida o próprio ambiente do ateliê da artista. Uma das obras inaugurais desse conjunto, por exemplo, retrata uma mulher de costas diante de uma tela incompleta, enquanto um homem aponta uma câmera em direção ao observador. Dessa cena, emergem questionamentos sobre o artista como figura central, o corpo dentro do espaço de criação e os limites entre o que é privado e o que se torna público. Weishof descreve sua motivação: “Eu comecei a pensar no artista como sujeito, no corpo dentro do ateliê”. A exposição, então, transporta essa situação para uma atmosfera que remete a um palco, com cortinas, interiores e personagens que parecem encenar uma peça teatral.
O erotismo surge como um dos eixos dessa investigação. No entanto, a artista ressalta que sua compreensão do erótico transcende a mera representação de corpos desnudos. “A pintura, para mim, também é um ato erótico”, afirma ela, distinguindo esse interesse de uma representação de caráter pornográfico. Para Weishof, o erotismo está intrinsecamente ligado à própria experiência de observar e produzir imagens. Suas pinturas são concebidas como enigmas visuais, onde a alteração de uma imagem pode redefinir o significado de outra. A artista utiliza técnicas de desenho, recorte e reaproveitamento de fragmentos de obras anteriores, criando cenários onde a perspectiva é intencionalmente instável. “Eu queria que lembrasse sonhos”, ela explica, almejando uma atmosfera que desobedeça às convenções do espaço cartesiano, evocando a sensação de irrealidade que acompanha os sonhos.
Em um espaço adjacente, a exposição “Two Big Footers” propõe um diálogo inesperado entre a obra de Tarsila do Amaral e o artista japonês Atsushi Kaga. A origem da mostra foi uma coincidência: Kaga, convidado para uma individual na galeria, descobriu a arte de Tarsila durante uma visita a museus paulistanos, ficando profundamente impressionado. Ao saber que a própria Almeida & Dale possuía obras da pintora brasileira, ele propôs a colaboração. A exposição reúne telas de Tarsila produzidas entre 1923 e 1970, ao lado de pinturas inéditas de Kaga, concebidas a partir desse encontro. O artista japonês identificou uma afinidade na posição de ambos os criadores, que, vindos de culturas não europeias, confrontavam a tradição pictórica ocidental. Kaga questiona: “Nós não somos da Europa, então como podemos jogar esse jogo?”. Ele admira em Tarsila a capacidade de integrar suas experiências pessoais à pintura, uma estratégia que ecoa sua própria trajetória. Criado em Tóquio, em meio a videogames e mangás, e posteriormente educado na Irlanda, Kaga confessou ter, por um tempo, ocultado essas referências, considerando-as menos relevantes em face da cultura artística europeia. O contato com Tarsila o fez reavaliar essa postura.
Kaga descreve seu processo criativo através do conceito da antropofagia: “É pegar qualquer coisa que você quiser, comer e digerir, e então transformar em algo seu”. Dessa forma, cores e formas de Tarsila são mescladas a personagens, paisagens e elementos da cultura japonesa e da cultura pop. O resultado são pinturas que podem evocar simultaneamente uma paisagem brasileira e um universo de videogame, ilustrando a riqueza dessa fusão cultural.
Finalizando o quarteto de mostras, “A Tragédia e o Escárnio”, de Victor Arruda, abrange trabalhos produzidos ao longo de quatro décadas, revelando uma obra onde lembranças pessoais, sexualidade, humor e a morte coexistem sem se submeter a uma única narrativa. Arruda, aos 80 anos, descreve seu método como um “labirinto”, um “jogo de quebra-cabeças” e um “jogo de memórias”, em que personagens de uma pintura podem ressurgir em outra, alterando o sentido do que ainda estava em formação. Essa liberdade na recombinação de imagens também se manifesta na própria linguagem de suas pinturas, que incorporam uma dimensão gráfica, grotesca e desbocada. O artista define sua trajetória como uma “aventura muito grosseira, muito crua” e “muito indecente”. Seu traço pode assumir uma aparência intencionalmente rudimentar, próxima do desenho, da escrita, da caricatura e até de imagens populares, como as encontradas em portas de banheiros.
Ao comentar algumas de suas obras, Arruda expressa orgulho de ter criado “pinturas horrorosas” para abordar temas que considerava complexos demais para serem representados de maneira convencional. O grotesco, nesse contexto, não é apenas um assunto, mas uma estratégia para aproximar humor, violência e crítica social. “Eu gosto enormemente quando as pessoas riem do meu trabalho”, afirma. “Gosto especialmente quando elas riem debochando.” Para ele, o riso não diminui a seriedade das imagens; pelo contrário, é parte da forma como elas conseguem impactar o espectador. As exposições estão abertas de segunda a sexta, das 10h às 19h, e aos sábados, das 11h às 16h, com entrada gratuita. Para mais informações, acesse o site oficial da Galeria Almeida & Dale.
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As quatro exposições na Galeria Almeida & Dale oferecem uma oportunidade única de imersão na **arte contemporânea** brasileira e internacional, com temáticas que provocam e convidam à reflexão. Da natureza meditativa de Felipe Cohen à antropofagia cultural de Atsushi Kaga e Tarsila, passando pela profundidade íntima de Maya Weishof e o humor ácido de Victor Arruda, o público encontra uma rica tapeçaria de ideias e expressões. Continue explorando as tendências e análises do universo cultural e artístico em nossa seção de Cidades.
Crédito da imagem: Maya Weishof/Almeida & Dale







