O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP), decidiu na última quinta-feira, dia 15, retirar da pauta de votações a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. A medida, que já havia passado por um rito célere de tramitação, surpreendeu os parlamentares e o público, levantando questionamentos sobre o futuro da proposta legislativa que visa reestruturar o combate ao crime no Brasil.
O texto, de autoria do Poder Executivo, havia avançado significativamente no Congresso Nacional. Após sua aprovação na Câmara dos Deputados, a matéria seguiu para o Senado, onde obteve sinal verde da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) sem sofrer alterações. Com um calendário especial de tramitação acolhido pelos senadores em votação simbólica na noite de quarta-feira, 14, a PEC estava pronta para ser votada em plenário em dois turnos, dispensando a necessidade de sessões deliberativas prévias.
Davi Alcolumbre retira PEC da Segurança Pública da pauta do Senado
A justificativa apresentada pelo próprio Alcolumbre para o adiamento da votação da PEC da Segurança Pública foi a necessidade de evitar uma “discussão açodada” da matéria. O senador expressou o desejo de propiciar um ambiente mais adequado para que os parlamentares pudessem chegar a um consenso sobre as diversas emendas que haviam sido apresentadas à proposta. Essa decisão visa garantir um debate mais aprofundado e menos precipitado sobre um tema de tamanha relevância nacional.
Em sua fala, o presidente do Senado esclareceu que a retirada da PEC da pauta atendeu a solicitações de colegas que consideraram o momento da inclusão do requerimento de calendário especial inoportuno. Ele mencionou especificamente ter colocado a votação “no meio da comemoração” da aprovação de outra PEC, a qual extingue a escala 6×1 de trabalho para algumas categorias. A medida, segundo Alcolumbre, foi tomada para evitar pedidos de verificação de quórum ou procedimentos que pudessem gerar atritos e comprometer a fluidez da sessão.
Um dos pontos cruciais que motivaram a interrupção da tramitação da PEC da Segurança Pública reside na falta de consenso em torno de algumas das emendas apresentadas. Entre as cinco propostas de alteração, duas delas tratam diretamente da redução da maioridade penal, um tema que historicamente gera intensos debates e polariza opiniões entre os senadores, a sociedade civil e os especialistas em direito.
A emenda de número 84, de autoria do senador Rogerio Marinho (PL-RN), propõe uma alteração substancial na legislação vigente. O texto do parlamentar sugere que a idade de responsabilização penal seja reduzida para 16 anos como regra geral. Contudo, em casos específicos de crimes considerados hediondos, tortura, tráfico de drogas, terrorismo e participação em organizações criminosas, a proposta estabelece que a maioridade penal possa ser reduzida para 14 anos, ampliando significativamente o rol de crimes sujeitos a essa medida mais rigorosa.
Por outro lado, a emenda de número 87, apresentada pelo senador Camilo Santana (PT-CE), adota uma abordagem distinta para a questão. Enquanto mantém a regra geral de 18 anos para a maioridade penal, a proposta prevê a redução para 16 anos nos casos de crimes hediondos, buscando uma aplicação mais restrita da medida. No entanto, mesmo essa iniciativa, vinda de um parlamentar da base governista, não tem angariado amplo apoio no governo. A redução da maioridade penal é um tópico de grande controvérsia, enfrentando forte oposição de organizações da sociedade civil que atuam na defesa dos direitos de crianças e adolescentes, as quais alertam para os riscos sociais e jurídicos de tal alteração.
O presidente do Senado reforçou que a decisão de retirar a PEC da Segurança Pública da pauta não foi motivada por qualquer pedido ou intervenção do governo federal. Essa declaração visou garantir a percepção de autonomia do Poder Legislativo em suas deliberações, afastando especulações sobre pressões externas na condução da agenda do Senado.
Detalhes da PEC da Segurança Pública e suas Mudanças Estruturais
A PEC da Segurança Pública, elaborada pelo Poder Executivo, visa estabelecer penas mais severas e regimes de prisão mais restritos, especialmente direcionados aos chefes de facções criminosas e milícias. Além disso, a proposta busca instituir um novo pacto federativo, promovendo uma cooperação mais estreita entre a União, os estados e os municípios no combate ao crime organizado em todo o território nacional. Para entender melhor como propostas como essa tramitam, é útil conhecer o processo legislativo no Senado Federal.
Esta proposta tem sido uma das prioridades máximas do atual governo para a área da segurança pública. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, inclusive, havia feito a promessa de criar um Ministério da Segurança Pública, condicionado à aprovação desta PEC, ressaltando a importância estratégica que a matéria possui para a agenda governamental de segurança.
É importante destacar que o texto-base da proposta já havia sido aprovado no início de setembro, um indicativo do estágio avançado de sua tramitação. Contudo, a análise de três destaques, que continham sugestões de modificações pontuais, ainda estava pendente e seria realizada justamente na sessão em que a PEC foi retirada da pauta, adiando a conclusão de sua formatação final.
Entre as principais medidas propostas pela PEC da Segurança Pública está a constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP). Essa alteração tem como objetivo modificar o Artigo 144 da Carta Magna, que trata da segurança pública, para integrar e coordenar de forma mais eficiente as ações das diversas instituições que compõem o sistema de segurança do país.
A proposta detalha que a segurança pública deverá ser exercida sob um regime de cooperação federativa, o que implica uma atuação conjunta e articulada entre União, estados e municípios. Além disso, prevê uma abordagem integrada e descentralizada das diferentes instituições que trabalham com o tema, como as polícias federal, estaduais e municipais, visando otimizar a prevenção, persecução e execução penal.

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O Artigo 144-A, inserido no texto da PEC, é categórico ao definir essa nova estrutura: “Os órgãos de segurança pública articular-se-ão em regime de cooperação federativa, por meio do Sistema Único de Segurança Pública, destinado a assegurar a eficiência da prevenção, da persecução e da execução penal.” Essa redação sublinha o compromisso com a criação de um sistema coeso e eficaz para o enfrentamento da criminalidade.
Combate a Facções e Milícias: Novas Previsões e Mecanismos
Um dos pilares da PEC da Segurança Pública é o endurecimento das medidas contra os líderes de facções e milícias. A proposta estabelece penas mais duras e regimes especiais de prisão para esses criminosos, incluindo a detenção em unidades de segurança máxima e a restrição ou, em alguns casos, a vedação da progressão de penas, com o objetivo de mantê-los sob custódia por períodos mais prolongados e em condições de maior isolamento.
Adicionalmente, a PEC prevê a implementação de medidas patrimoniais robustas contra o produto do crime, visando confiscar bens e recursos oriundos de atividades ilícitas e, assim, descapitalizar as organizações criminosas. A proposta também contempla a responsabilização de pessoas jurídicas que, de alguma forma, se envolvam com esquemas ilegais, e a criação de mecanismos de proteção a denunciantes e seus familiares, incentivando a colaboração com as autoridades e fortalecendo as investigações.
Novas Atribuições, Polícias e Financiamento da Segurança Pública
Outra importante novidade que a PEC busca introduzir é a possibilidade de criação de polícias municipais de natureza civil. Essas novas forças de segurança estariam submetidas ao controle externo do Ministério Público e teriam a atribuição de realizar policiamento ostensivo e comunitário dentro dos limites de suas respectivas cidades. Essa medida visa fortalecer a segurança local, complementando a atuação das polícias estaduais.
A proposta também contempla a ampliação das atribuições da Polícia Rodoviária Federal (PRF), conferindo-lhe um papel ainda mais estratégico no policiamento de rodovias e no combate a crimes transfronteiriços. Além disso, um dos objetivos da PEC é aumentar a vinculação de recursos do orçamento público para a área da segurança, garantindo maior estabilidade financeira e capacidade de investimento para o setor.
No que diz respeito ao financiamento, a PEC da Segurança Pública estabelece que 50% dos recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) e do Fundo Penitenciário Nacional (Funpen) serão repassados pela União diretamente para os estados e municípios. É importante notar que essa distribuição não inclui as despesas de custeio e investimento da polícia penitenciária nacional, que são custeadas pelo Funpen, garantindo que os repasses se concentrem nas ações das esferas locais e estaduais.
As regras de financiamento apresentadas na PEC têm como objetivo primordial fortalecer tanto o FNSP quanto o Funpen. Elas buscam criar vinculações e blindagens orçamentárias que assegurem a perenidade das ações policiais e das políticas de segurança. Essas medidas são projetadas para aumentar a previsibilidade financeira, um elemento crucial para o planejamento e a execução de políticas de segurança pública de longo prazo, conforme explicitado pelo relator da matéria.
Ainda no âmbito financeiro, a proposta prevê que 10% do superávit financeiro anual do Fundo Social, que é ligado à exploração do pré-sal, sejam destinados especificamente aos fundos da segurança. Esse aporte significativo de recursos visa reforçar o financiamento contínuo das políticas nacionais de segurança pública e de execução penal, conferindo maior capacidade de investimento e modernização ao setor em todas as esferas.
Por fim, a PEC da Segurança Pública também contempla a criação do Sistema de Políticas Penais, que seria responsável pela gestão e coordenação do sistema prisional brasileiro, buscando aprimorar sua eficiência e humanização. Autoriza, ainda, que União, estados e municípios atuem conjuntamente na legislação sobre segurança pública, organização de polícias, guardas municipais e sistema socioeducativo, promovendo uma abordagem mais colaborativa e integrada em todas as esferas federativas.
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A retirada da PEC da Segurança Pública da pauta do Senado por Davi Alcolumbre, embora tenha adiado sua votação, ressalta a importância e a complexidade da matéria, especialmente em relação a temas sensíveis como a redução da maioridade penal e as novas estratégias de combate ao crime organizado. As discussões certamente continuarão, buscando um equilíbrio que atenda às demandas sociais por segurança e que se alinhe aos princípios constitucionais. Para mais análises aprofundadas sobre política e os trâmites legislativos no Brasil, continue acompanhando as notícias em nossa editoria de Política.
Crédito da imagem: Lula Marques/Agência Brasil.







