Nos contornos frequentemente imprevisíveis da política externa americana, poucas ações do então presidente Donald Trump surpreenderam completamente. Embora momentos de sucesso aparente contra programas nucleares, mesmo que efêmeros, tenham pontuado seu mandato, eles se misturaram a devaneios como a intenção de adquirir a Groenlândia. No entanto, a perspectiva iminente de uma ação militar dos EUA na Venezuela, com um leque de opções coercitivas, arrasta a Casa Branca para um tipo de envolvimento externo que o próprio governo Trump afirmava rechaçar. Essa postura confronta diretamente as lições extraídas de duas décadas de esforços militares republicanos norte-americanos, além de décadas de experiência regional prévia.
A administração Trump tem sido marcada por uma ambiguidade notável em relação aos seus objetivos na Venezuela. A falta de clareza sobre o que exatamente se pretendia alcançar e o tempo estimado para tais conquistas, questões que um governo normalmente abordaria publicamente e com cautela antes de qualquer intervenção armada, permaneceu envolta em incertezas. As variáveis em jogo, segundo analistas, não parecem promisórias para os Estados Unidos.
Análise: Ação Militar dos EUA na Venezuela e Seus Limites
O objetivo mais restrito de uma operação militar seria a interrupção do tráfico de drogas. Contudo, essa meta é notoriamente complexa de ser atingida por meio de ataques isolados e pontuais. Em primeiro lugar, a Venezuela não configura o epicentro do narcotráfico. A rota principal se origina na vizinha Colômbia e tem seu término na fronteira dos EUA com o México. A Venezuela desempenha um papel de facilitadora, permitindo o uso de seu território para a decolagem de aeronaves que transportam cocaína colombiana para o norte e abrigando depósitos e laboratórios de processamento que operam em um ambiente de maior impunidade do que na Colômbia. Contudo, no cenário mais pessimista, a Venezuela representa apenas uma fração – aproximadamente um décimo – do problema global, e não sua essência.
Em segundo lugar, o narcotráfico é um negócio extraordinariamente lucrativo, o que torna praticamente impossível detê-lo apenas com ações militares. Os incentivos econômicos são demasiadamente poderosos. Considere as aeronaves que partem da Venezuela em direção ao norte. A atividade dessas aeronaves se intensificou durante o primeiro mandato de Trump, utilizando cerca de 50 pistas clandestinas na região de Zulia, na Venezuela, para transportar suas cargas até a América Central e, de lá, prosseguir, conforme informações de autoridades colombianas. Cada aeronave realiza apenas uma viagem e, como observado na costa da Moskitia, em Honduras, no ano de 2019, é simplesmente abandonada na mata após a entrega da carga.
O lucro gerado por uma única carga pode ascender a dezenas de milhões de dólares, enquanto o custo do avião é de aproximadamente US$ 150 mil. Por essa razão, a aeronave é descartada em vez de reutilizada, o que diminui o risco de captura. Essa é a mentalidade prevalente no tráfico: os intermediários não poupam esforços por sua parcela de milhões de dólares em troca de algumas semanas de trabalho arriscado. Além disso, a abundância do produto impede maiores preocupações. Um oficial relatou, na época, que esses pequenos aviões, ao temerem serem interceptados no mar, simplesmente jogavam a carga overboard e pagavam a pescadores locais US$ 150 mil para resgatar a cocaína.
Desde então, os traficantes evoluíram, passando a empregar barcos e até mesmo submersíveis não tripulados, guiados por antenas de internet via satélite Starlink, para evadir a detecção e captura. Uma campanha de bombardeios promovida pelos EUA poderia, no máximo, desorganizar esse tipo de esquema de lucros extraordinários. No entanto, é inviável erradicar o negócio sem eliminar a própria demanda que o alimenta dentro dos Estados Unidos. Adicionalmente, há a questão dos custos para os Estados Unidos. Há uma década, o Pentágono manifestava preocupação com a ideia de usar uma ogiva dispendiosa para eliminar militantes jihadistas.
É flagrantemente ineficiente lançar um míssil avaliado em um milhão de dólares para incinerar cocaína bruta, ainda tão próxima de sua origem que está longe de atingir o valor final que alcançaria nas ruas americanas. A Colômbia, de acordo com a ONU, encontra-se atualmente próxima de um recorde histórico na produção de cocaína, o que significa que não há escassez do produto a ser traficado. A Folha de S.Paulo, por exemplo, noticiou dados da ONU sobre a produção recorde de cocaína na Colômbia, um fator crucial na dinâmica do tráfico global. A administração Trump poderia, no máximo, atrasar, dificultar ou perturbar o tráfico de drogas na região. Contudo, a Venezuela não é sua fonte principal, e sempre haverá jovens em situação de vulnerabilidade e desfavorecidos – na própria Venezuela, Colômbia, Equador ou Bolívia – dispostos a ocupar qualquer lacuna deixada pelos ataques de drones dos EUA.
E se o objetivo for a mudança de regime?
Chocar e aterrorizar o frágil e economicamente debilitado regime autoritário de Nicolás Maduro a ponto de forçá-lo a fugir? Uma série de ataques aéreos de precisão poderia desmantelar ativos cruciais das forças armadas venezuelanas – suas pistas de pouso, defesas aéreas, jatos de ataque Su-30 e tanques russos T-72. Todavia, a discussão pública sobre uma possível ação militar já concede a Maduro tempo considerável para deslocar seus equipamentos mais valiosos, incluindo sua hierarquia política e até mesmo sua própria pessoa.
A potência militar tecnologicamente mais avançada da história ainda possui suas limitações. Pode ter sido capaz de eliminar o líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, com um míssil equipado com lâminas giratórias em uma varanda em Cabul, em 2022. Contudo, essa mesma potência não conseguiu evitar sua humilhante retirada da mesma cidade um ano antes, diante de uma força talibã muito inferior. A política externa dos EUA exige o apoio popular das nações sobre as quais é imposta, e isso raramente é conquistado com o lançamento de mísseis a 9.000 metros de altitude.
No Iraque, até mesmo os argumentos distorcidos e falsos empregados para derrubar o tirano Saddam Hussein esbarraram em um povo iraquiano que, em sua maioria, rejeitou a ocupação sob a mira de um rifle M4. Muitos sérvios manifestaram ressentimento em relação aos bombardeios da Otan em 1999, mesmo que a fonte de seus sofrimentos, Slobodan Milosevic, tenha sido deposto um ano depois. A iminente ação dos EUA na Venezuela está repleta de tantos paralelos históricos porque os Estados Unidos já tentaram abordagens semelhantes inúmeras vezes antes.
De fato, a única iniciativa que os EUA poderiam tentar fomentar – uma revolta popular para instalar um governo mais favorável – já foi tentada por Trump anteriormente. Em 2019, uma breve insurreição tentou iniciar uma espécie de golpe militar que parecia ter como propósito substituir Maduro. O movimento fracassou completamente, e recorda-se a chegada a Caracas em meio a uma calma surpreendente. A conspiração mal conseguiu abalar Maduro. E isso ocorreu após meses de intensa pressão dos Estados Unidos e da Colômbia, período em que Juan Guaidó – um líder reformista relativamente popular que havia vencido eleições recentes – apresentou ao país um governo alternativo, reconhecido internacionalmente e preparado para assumir.
Trump já havia tentado desestabilizar Caracas a ponto de derrubar Maduro, mas sem sucesso. Independentemente do destino de Maduro, qualquer nova tentativa de mudança de regime precisa assegurar que o governo subsequente esteja alinhado aos interesses dos EUA, e que não resulte na ascensão de um subordinado ainda mais hostil. E quanto à antiga falácia preferida da política militar dos EUA: a invasão terrestre? Lançar milhares de jovens americanos em uma nação costeira revoltada com 30 milhões de habitantes – o dobro do tamanho da Califórnia – contraria completamente a obsessão de Trump por Prêmios Nobel por encerrar guerras e reduzir a presença global dos Estados Unidos.
Essa abordagem seria logisticamente suicida, considerando os meros 15 mil soldados americanos atualmente posicionados na região. Além disso, reacenderia o amargo eco da Baía dos Porcos, quando os EUA tentaram derrubar um ditador de esquerda similar em Cuba, em uma operação desastrosa que se tornou sinônimo dos danos causados pelos excessos da CIA nas Américas. É desafiador avaliar os objetivos da administração Trump, visto que ela tem sido deliberadamente opaca em relação a eles. No entanto, em qualquer ponto desse espectro, o governo encontrará um adversário extremamente motivado a se adaptar e persistir – ou opções de mudança de regime que já fracassaram nos últimos 25 anos, ou até mesmo durante o seu primeiro mandato.
Talvez a esperança de Trump fosse que o barulho e o alarde – caso esse não fosse o próprio objetivo da operação – fossem suficientes para que Maduro aceitasse um acordo para fugir com vida. Contudo, os próprios funcionários de Trump se deparam com uma contradição inerente à sua política. Se Maduro é, de fato, o grande chefe do tráfico e o narco-terrorista que alegam que ele é, então suas decisões sobre fugir são certamente complicadas por esse papel, e não facilitadas, correto? É plausível que existam pessoas poderosas e violentas que necessitam que ele permaneça no poder. Independentemente da decisão secreta de Trump em sua política, ele poderia, em breve, descobrir que é difícil recolher as armas sem usá-las – e talvez ainda mais difícil saber o que fazer com elas depois de disparadas.
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Esta análise aprofundada destaca os complexos desafios e as limitadas perspectivas de sucesso para uma intervenção militar dos EUA na Venezuela, tanto no combate ao narcotráfico quanto na tentativa de mudança de regime. As lições históricas e a resiliência dos atores envolvidos sugerem que soluções simplistas raramente produzem os resultados desejados em cenários geopolíticos tão intrincados. Para continuar acompanhando nossas análises sobre geopolítica e política internacional, explore mais conteúdos em nossa editoria de Política.
Crédito da imagem: CNN Brasil







