rss featured 28651 1793168910

Anistia Internacional denuncia Milei à ONU por ataques à imprensa

Internacional

Anistia Internacional denuncia Milei à ONU por ataques à imprensa, marcando um ponto crítico na relação entre o presidente argentino e o jornalismo. A organização humanitária confirmou que levará o presidente Javier Milei perante a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em resposta a manifestações de hostilidade direcionadas a profissionais da mídia.

As recentes declarações do chefe de Estado argentino, proferidas na última semana, envolveram ataques verbais severos a repórteres que publicaram investigações desfavoráveis. Milei chegou a sugerir que os jornalistas deveriam ser “queimados na fogueira”, gerando profunda preocupação entre defensores da liberdade de expressão.

A iniciativa da Anistia Internacional visa alertar as instâncias globais sobre a gravidade da situação. A entidade, reconhecida mundialmente pela defesa dos direitos humanos e presente em mais de 150 nações, incluindo o Brasil, considera as atitudes presidenciais uma ameaça direta à integridade dos jornalistas e ao funcionamento da democracia.

Anistia Internacional denuncia Milei à ONU por ataques à imprensa

As hostilidades por parte de Milei intensificaram-se após a Justiça argentina arquivar, na última sexta-feira (23), o processo conhecido como “criptogate”, datado de fevereiro de 2025. O caso investigava a suposta participação do presidente e de sua irmã, Karina Milei, em um esquema de irregularidades na criação da criptomoeda $Libra. O juiz federal Marcelo Martínez De Giorgi, no entanto, decidiu que não foram encontrados indícios de delitos, apesar de Milei ter utilizado suas redes sociais para promover o ativo virtual.

“Queimar na Fogueira”: A Escalada da Violência Verbal

O presidente argentino não poupou críticas e insultos a diversos jornalistas, mencionando nominalmente Hugo Alconada Mon, Carlos Pagni, Paulino Rodrígues, Natalia Volosin e Luis Novaresio. Em um discurso, Milei os desqualificou, chamando-os de “empacotados, corruptos, mercenários da mentira e fabricantes seriais de operações”, complementando com a expressão de que “os que têm que queimar na fogueira são os filhos da p*.”

Em sua rede social X, o mandatário alegou ter sido alvo de uma “tremenda operação política e midiática” com o objetivo de prejudicar sua presidência e fomentar uma “conspiração golpista”. Na mesma publicação, ele classificou os profissionais da imprensa como “subornados e mercenários da mentira”.

Para a Anistia Internacional, as “declarações violentas” do presidente aprofundam o assédio à imprensa, colocando em risco aqueles que informam e deteriorando as garantias necessárias para o debate democrático. A organização expressou “profunda preocupação com a escalada de hostilidade” e assegurou que levará os fatos a fóruns internacionais, como parte de seu trabalho de monitoramento e denúncia da crescente deterioração da liberdade de expressão na Argentina. A Anistia Internacional, organização dedicada à defesa dos direitos humanos globalmente, sublinha a importância fundamental de uma imprensa livre para a sociedade. Mais informações sobre o trabalho da entidade em prol da liberdade de expressão podem ser encontradas em seu portal oficial: Liberdade de Expressão – Anistia Internacional.

A referência a “queimar na fogueira” é vista pela Anistia Internacional como uma evocação de “violência extrema”, constituindo uma “escalada grave e inadmissível na hostilidade presidencial contra a imprensa”. A entidade ressalta que tais ataques não se limitam a questionar a cobertura jornalística, mas sim individualizam e estigmatizam os jornalistas.

Mariela Belski, diretora-executiva da ONG na Argentina, enfatizou que, ao apontar publicamente jornalistas e utilizar “imagens de violência” para se referir àqueles que criticam sua gestão, o presidente “contribui para gerar um clima de intimidação que pode abrir caminho para novas agressões”. Ela reiterou que o cargo presidencial exige “responsabilidade reforçada” para garantir que a imprensa possa investigar e informar com liberdade e segurança, pois o assédio por parte do poder “deteriora as condições do debate democrático e afeta o direito de toda a sociedade de estar informada”.

Histórico de Hostilidade e Impactos na Liberdade de Imprensa

Para fundamentar a denúncia de “deterioração contínua das condições para o exercício do jornalismo” no país, a Anistia Internacional cita dados do Monitoramento da Liberdade de Expressão do Fórum de Jornalismo Argentino. O levantamento revelou 278 casos de ataques contra jornalistas em 2025, um aumento de 55% em relação a 2024, e o maior número desde o início dos registros em 2008. O presidente Javier Milei foi identificado como o principal agressor individual, responsável por 119 desses episódios. O estudo também contabilizou 139 casos de discursos estigmatizantes, 20 ações judiciais contra jornalistas e 28 restrições ao acesso à informação.

Anistia Internacional denuncia Milei à ONU por ataques à imprensa - Imagem do artigo original

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br

A Anistia Internacional alerta que a repetição dessas práticas pode gerar um “efeito silenciador” que transcende as vítimas diretas, desestimulando investigações, favorecendo a autocensura e empobrecendo a circulação de informações de interesse público. A organização reafirma que “investigar a atuação daqueles que governam é uma função essencial do jornalismo e garantia para o controle democrático do poder”.

Atuação da CIDH e Outros Repúdios

A ONG recorda que, em novembro de 2025, participou de uma audiência na CIDH, juntamente com outras organizações de direitos humanos, entidades jornalísticas e sindicatos de imprensa. Naquela ocasião, foram denunciados o aumento das agressões, a violência online, o assédio judicial e os ataques durante a cobertura de protestos, em um contexto de expansão de práticas autoritárias. A CIDH, instituição judicial autônoma da Organização dos Estados Americanos (OEA) responsável por aplicar e interpretar a Convenção Americana (Pacto de San José da Costa Rica), solicitou informações ao Estado argentino e manifestou interesse em realizar uma visita ao país.

A jornalista Carla Gaudensi, secretária da Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa, confirmou à Agência Brasil que sua entidade se unirá à Anistia Internacional na representação. A Federação Internacional dos Jornalistas (FIP) também repudiou as declarações de Milei. Zuliana Lainez, presidente da FIP, afirmou à Agência Brasil que a imprensa não está diante de um “simples confronto discursivo”, mas sim de um “clima de intimidação que põe em risco a integridade dos trabalhadores da imprensa, favorece a autocensura e busca desestimular o exercício de uma função essencial para qualquer sociedade democrática”. Lainez complementou que os ataques não podem ser analisados isoladamente, mas se inserem em um “cenário de crescente deterioração das condições para o exercício do jornalismo na Argentina”, marcado por agressões físicas, assédio judicial, restrições ao acesso à informação e ataques sistemáticos por parte de funcionários do governo.

Sindicato de Imprensa de Buenos Aires e Incidente com Jornalista Brasileiro

O Sindicato de Imprensa de Buenos Aires emitiu uma nota de repúdio ao presidente argentino, declarando que o mandatário “voltou a ultrapassar um limite gravíssimo”. O sindicato enfatizou que a “incitação a queimar na fogueira um grupo de jornalistas deve provocar uma reação imediata de todo o espectro político e midiático para frear os ataques contra nossa profissão”, alertando que “não haverá espaço para lamentações se a violência promovida pelo presidente acabar se transformando em fatos concretos”.

Um episódio recente que exemplifica a tensão foi o impedimento de entrada na Argentina do jornalista brasileiro Rogério Tomaz Jr., conhecido por suas críticas ao governo Milei. Em 12 de outubro, ao desembarcar no Aeroparque, em Buenos Aires, suas autoridades migratórias cancelaram sua residência permanente e o proibiram de reingressar no país por cinco anos. Rogério Tomaz Jr., residente em Brasília, acompanha a política argentina e produz conteúdo sobre os impactos econômicos e sociais das medidas de Milei, como cortes de gastos públicos, privatizações e inflação, além de estar escrevendo um livro sobre a gestão presidencial.

Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos

Em suma, a denúncia da Anistia Internacional contra o presidente Javier Milei perante a ONU e a CIDH reflete uma crescente preocupação global com a liberdade de imprensa na Argentina. As declarações hostis e a perseguição a jornalistas, corroboradas por dados de monitoramento e o repúdio de diversas entidades, acendem um alerta sobre os riscos à democracia e ao direito fundamental de acesso à informação. Para aprofundar a compreensão sobre os desafios políticos na região e em outros cenários, convidamos você a explorar outras análises em nossa editoria de Política.

Crédito da imagem: REUTERS/Agustin Marcarian/Proibida Reprodução

Deixe um comentário