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Confrontos entre PM e PCC intensificam na Baixada Santista

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A Baixada Santista, região litorânea de São Paulo, vive uma escalada de violência que remete aos turbulentos eventos de maio de 2006, com confrontos persistentes entre a Polícia Militar (PM) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Vinte anos após os ataques que aterrorizaram as forças de segurança paulista, a facção criminosa, conhecida por sua estratégia de evitar conflitos diretos com agentes policiais em quase todo o estado, adota uma abordagem distinta no litoral, onde a ostentação de armamento pesado e os embates rotineiros são uma realidade preocupante. A lógica empresarial do PCC, que geralmente busca proteger seus lucros bilionários com o tráfico de drogas, parece ceder lugar a uma versão mais violenta e confrontacional na Baixada Santista.

Em localidades como Santos, Cubatão e Guarujá, membros do PCC são vistos exibindo armas de fogo publicamente e nas redes sociais. Patrulhas da PM são frequentemente recebidas com disparos e encontram barricadas, resultando em uma série de bairros onde o policiamento preventivo não é uma constante. Agentes de segurança só conseguem acessar essas áreas por meio de operações especiais ou em comboios de viaturas, como observado em uma comunidade de São Vicente, onde uma dessas barreiras criminosas foi documentada.

Confrontos entre PM e PCC intensificam na Baixada Santista

O saldo desse cenário de conflito ininterrupto é um crescente número de mortes, atingindo tanto policiais militares quanto civis, evocando a trágica memória dos ataques de maio de 2006. Moradores e policiais que atuam na região, sob condição de anonimato, identificam pelo menos dez favelas onde o patrulhamento rotineiro foi suspenso. Guarujá é frequentemente citada como a cidade mais crítica, sendo descrita por uma policial com mais de uma década de experiência no local como “o Rio de Janeiro 2”, em alusão ao nível de violência urbana enfrentado.

Dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) de São Paulo, compilados e analisados pela Folha, revelam a gravidade da situação. No primeiro trimestre deste ano, 28 pessoas perderam a vida em decorrência de intervenções policiais nas nove cidades da Baixada Santista. Esse número já representa mais da metade (57%) do total de 49 mortes registradas em todo o ano de 2025. Desde 2013, quando se iniciou a série histórica, 920 pessoas foram mortas pela polícia na Baixada, sendo 896 em ações da Polícia Militar e 24 da Polícia Civil. A região também se destaca pela alta incidência de assassinatos de policiais. Nos últimos 20 anos, pelo menos 44 agentes foram vitimados no perímetro do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo (Deinter 6), que abrange as maiores cidades da Baixada Santista e municípios adjacentes. Desse total, 33 eram PMs e 11 civis. Somente no ano passado, quatro policiais foram mortos em confrontos, e outros quatro ficaram feridos.

Os anos de 2023 e 2024 marcaram um dos períodos mais violentos na história recente da Baixada Santista. A escalada teve início em 28 de julho de 2023, com o assassinato do soldado Patrick Bastos Reis, de 30 anos, da Rota, em Guarujá. Em resposta, duas grandes operações da PM, denominadas Escudo e Verão, foram deflagradas em comunidades da região, resultando na morte de 84 pessoas em supostos confrontos com as forças de segurança. Organizações de direitos humanos levantaram indícios de assassinatos extrajudiciais, apontando que algumas vítimas teriam sido encurraladas e mortas com tiros nas costas.

As consequências dessas operações contribuíram para que o número total de mortes pela polícia na Baixada atingisse 132 em 2024, o maior índice desde 2013, o início da série histórica. Esse volume corresponde a 16% do total de mortes ocasionadas pela polícia paulista naquele ano, embora a população da Baixada represente apenas cerca de 4% da população total do estado. Outro homicídio emblemático ocorreu em 15 de setembro do ano passado, quando Ruy Ferraz Fontes, de 64 anos, ex-delegado-geral de São Paulo e figura proeminente no combate ao PCC, foi assassinado a tiros de fuzil em Praia Grande. A polícia atribui o crime a membros da facção criminosa.

O crescente controle territorial do PCC em diversas localidades do estado e a adoção de métodos mais violentos têm sido objeto de críticas à gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que deve buscar a reeleição em outubro. Anteriormente, a Folha já havia noticiado que a facção começou a aplicar táticas mais rigorosas na favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, incluindo a cobrança de taxas e bloqueios de vias de acesso. Na Baixada, a tensão é constante para os 1,8 milhão de habitantes da região, afetando a rotina de boa parte da população em meio aos confrontos armados, conforme relatos de moradores, policiais, investigadores e promotores ouvidos nas últimas semanas.

Autoridades indicam que comunidades de baixa renda na Baixada estão sendo exploradas pelo PCC como entrepostos para a exportação de drogas, aproveitando a proximidade com o porto de Santos. Rodrigo Perin Nardi, delegado da Polícia Federal em Santos, explicou a dinâmica: “Há várias comunidades nas margens muito próximas dos terminais do porto. Não é a comunidade em si que está envolvida, mas os criminosos se aproveitam dessa facilidade.” Ele detalha que o processo envolve barcos que percorrem curtas distâncias, permitindo que mergulhadores prendam a carga de drogas no fundo dos navios. Nardi reconhece que, dependendo do risco, a própria PF só acessa alguns desses pontos com o apoio de grupos táticos especializados.

Confrontos entre PM e PCC intensificam na Baixada Santista - Imagem do artigo original

Imagem: www1.folha.uol.com.br

Apreensões de grandes carregamentos de drogas representam prejuízos milionários para o PCC. Em resposta, a facção investe pesadamente na segurança armada de seus estoques, o que resulta em confrontos quase inevitáveis quando agentes públicos se aproximam. Para tentar mitigar essa situação, a Polícia Militar da Baixada adquiriu um “caveirão” aquático, um barco blindado, com um custo aproximado de R$ 1,5 milhão. Curiosamente, apesar da intensificação dos confrontos, as apreensões de drogas pela Polícia Federal no Porto de Santos registraram uma queda de 83,6% nos últimos cinco anos, passando de 29,3 toneladas em 2020 para 4,8 toneladas no ano passado. Para o delegado Nardi, essa redução não necessariamente indica uma diminuição na circulação de drogas, mas pode sinalizar uma mudança na dinâmica do negócio, com o PCC encontrando outras rotas e métodos de embarque.

Alessandro Visacro, analista de segurança, argumenta que a ostentação de pistolas e fuzis serve como um símbolo do poder da facção, com o “intuito de demonstrar para a população quem realmente detém o controle daquele território”. Segundo Visacro, as ações policiais em áreas controladas pelo crime geram efeitos que vão além da dimensão operacional: provocam o fechamento de escolas, a interrupção do comércio e geram grande repercussão midiática e pressão política sobre os governos, criando obstáculos para a continuidade de operações mais prolongadas. Ele reitera que apenas ações policiais não são suficientes para a retomada desses territórios pelo poder público, defendendo uma estratégia mais abrangente, amparada por uma maior presença do Estado, embora reconheça que tal processo implicaria um alto custo humano e político. Para mais informações sobre desafios da segurança pública, consulte fontes oficiais como o site do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Apesar de negar a existência de territórios onde a atuação policial é vetada, o coronel Fabio Possato, comandante da Polícia Militar da Baixada Santista e Vale do Ribeira, admite que existem áreas onde o patrulhamento cotidiano ocorre sob condições diferenciadas. “Existem áreas com essas características? Lógico que existem. A entrada da polícia já começa a ser dificultada pela presença de barricadas”, afirmou à Folha. Ele explica que, havendo aumento do risco, a ação policial requer um apoio mais efetivo. O comandante atribui o domínio territorial exercido pelo PCC na Baixada Santista a fatores como a ocupação urbana desordenada, a presença de barricadas, a existência de áreas de mangue e as dificuldades de acesso a determinadas comunidades. “A polícia sozinha não consegue alterar esse cenário estrutural”, pontua, ressaltando a falta de integração entre as diversas esferas do poder público como um dos principais gargalos para enfrentar o crime organizado na região.

O coronel Possato critica veementemente qualquer comparação da violência atual na Baixada com os eventos de maio de 2006. “Naquela época, houve uma ação orquestrada para atingir agentes das forças de segurança. Hoje, não temos isso. Hoje, há uma ação criminosa para defender território. Cria-se essa mística por conta do mês de maio. E não tem absolutamente nada a ver”, defende. Em nota divulgada na noite de sexta-feira (15), a Secretaria da Segurança Pública, sob a gestão Tarcísio, declarou que a atuação policial “ocorre em ambiente de alta complexidade, com presença de criminosos armados e risco real aos agentes públicos”. A pasta também assegurou que “todos os casos com resultado letal são apurados pelos órgãos competentes, com acompanhamento das corregedorias e respeito ao devido processo legal.”

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A situação na Baixada Santista, marcada pela intensificação dos confrontos entre a PM e o PCC, reflete um complexo desafio de segurança pública que exige soluções multifacetadas e uma profunda reflexão sobre a presença do Estado em áreas vulneráveis. Para acompanhar as últimas notícias e análises sobre o cenário urbano e político do Brasil, continue navegando em nossa editoria de Cidades.

Crédito da imagem: Folhapress

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