O Dia da Consciência Negra no Rio de Janeiro, celebrado em 20 de novembro, foi marcado por diversas manifestações que ressaltaram a cultura afro-brasileira e, notavelmente, incentivaram a economia preta na capital fluminense. No coração da Avenida Presidente Vargas, um dos eixos viários mais importantes da cidade, o monumento em homenagem a Zumbi dos Palmares tornou-se o epicentro de eventos populares, incluindo apresentações de música e dança, reafirmando sua posição como um local tradicional para as comemorações da data.
Entre os discursos de ativistas e personalidades do movimento negro e as variadas atrações culturais, um extenso buffet oferecia pratos da culinária afro-brasileira, simbolizando uma prática que a empreendedora Carol Paixão define como “economia preta”. Este conceito, também conhecido globalmente como black money, descreve um movimento socioeconômico estratégico que visa impulsionar o capital e o consumo dentro da comunidade negra, fortalecendo seus negócios e criando oportunidades.
Dia da Consciência Negra Rio: Economia Preta Ganha Destaque
Conforme Paixão explicou à Agência Brasil, essa é uma economia que se nutre da africanidade e tem como objetivo primordial a população preta, buscando gerar mais empregos para indivíduos negros. Em meio a uma vasta seleção de pratos que iam da feijoada brasileira a iguarias da África do Sul e Moçambique, a empresária destacou a importância de iniciativas como o Império Kush, seu estabelecimento no centro do Rio, cujo nome homenageia um antigo império africano. A filosofia do black money, ela aponta, estende-se também à formação de parcerias, priorizando sempre prestadores de serviço que sejam negros, para assegurar que o capital circule e beneficie a própria comunidade.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) corroboram a necessidade de tais iniciativas, indicando que pessoas pretas e pardas enfrentam taxas de desemprego mais elevadas do que as brancas, além de receberem salários inferiores e estarem mais frequentemente inseridas na informalidade. Este cenário socioeconômico sublinha a relevância de movimentos como a economia preta, que buscam mitigar essas disparidades e construir uma base econômica mais sólida e equitativa para a população negra.
Reparação e a Luta Quilombola
A celebração no monumento a Zumbi dos Palmares também serviu como palco para a reivindicação de reparação histórica. Luiz Eduardo Oliveira, conhecido como Negrogun e presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Negro (Cedine), reiterou a importância da persistência na ocupação deste espaço ano após ano, defendendo a necessidade de “reparação já” para os séculos de escravidão no Brasil. O Cedine, um órgão que agrega representantes governamentais e ativistas, tem um papel fundamental nessa mobilização.
A figura de Zumbi dos Palmares, líder da resistência quilombola que floresceu por quase um século onde hoje é União dos Palmares, em Alagoas, morto em 1695, continua a inspirar o movimento. A demanda por reparação é um tema central nas comunidades quilombolas, que, segundo o Censo 2022 do IBGE, somam 1,3 milhão de pessoas no Brasil, representando 0,65% da população. Chocantemente, oito em cada dez quilombolas ainda vivem sem saneamento básico adequado.
Bia Nunes, presidente da Associação Estadual das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro (Acquilerj), enfatizou a força e a resistência desses descendentes. Ela destacou que as comunidades quilombolas são pilares da resistência nacional, formadas por homens e mulheres que, de geração em geração, defendem seus territórios, protegendo não apenas suas terras, mas a própria biodiversidade do país. Nunes, que representa 54 comunidades quilombolas fluminenses, ressaltou a importância desses territórios para a preservação ambiental e cultural do Brasil.
Do Quilombo à Favela: Novas Formas de Resistência
O escritor, filósofo e ativista Gê Coelho traçou um paralelo entre a resistência dos quilombos na era da escravidão e a luta das favelas contemporâneas. Autor do livro “Favelismo: A revolução que vem das favelas”, lançado este ano, Coelho argumenta que as favelas representam uma contínua batalha contra a opressão estatal direcionada às populações mais pobres e marginalizadas. Ele contextualiza que o Morro da Providência, a primeira favela brasileira, surgida no final do século XIX para abrigar soldados da Guerra de Canudos, está a apenas 600 metros do monumento a Zumbi.
Para Gê Coelho, a resistência atual se manifesta no campo das ideias. Ele advoga pela criação de universidades dentro das favelas, criticando a narrativa histórica que muitas vezes é contada por uma perspectiva externa. A necessidade de construir um conhecimento a partir da vivência e do saber das próprias comunidades é crucial, segundo ele. O IBGE revela que pretos e pardos, que constituem 55,5% da população do país, representam uma proporção ainda maior, 72,9%, dos moradores de favelas, ressaltando a urgência de fortalecer esses espaços com educação e autonomia intelectual.

Imagem: Tomaz Silva via agenciabrasil.ebc.com.br
A Luta Abrangente e o Engajamento Político
O evento no Rio de Janeiro, que também incluiu uma campanha de vacinação como ação social, contou com a participação do deputado federal Reimont (PT-MG), presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados. Reimont defendeu que a luta antirracista não é exclusiva da população negra, mas de todos. Ele salientou que, embora as pessoas negras possuam o lugar de fala sobre o racismo que sofrem, é essencial que os brancos que compreendem a universalidade da terra se solidarizem e se engajem ativamente nessa causa, buscando a plena humanidade.
A coordenadora do Comitê Estadual da Segunda Marcha Nacional das Mulheres Negras, Rose Cipriano, aproveitou a ocasião para convidar para a manifestação popular que acontecerá em Brasília na próxima terça-feira, 25 de novembro. Ela enfatizou os impactos contínuos do racismo, especialmente sobre as mulheres negras, citando índices de violência, baixa representatividade e a constante luta por espaço. Inspirada pela ativista Angela Davis, Cipriano reforçou o papel das mulheres negras como motor da sociedade e a importância da marcha por reparação e bem-viver. A primeira edição do movimento, em 2015, também na capital federal, reuniu um grande número de participantes, e a expectativa é de 1 milhão de pessoas para a próxima semana.
Cultura e Conexões Internacionais
A celebração no Rio também foi enriquecida pelo cortejo de Tia Ciata (1854-1924), a matriarca do samba, cujas apresentações percorreram as ruas adjacentes ao monumento de Zumbi. Milhares de pessoas, desde baianas carnavalescas até crianças de escolas de samba, formaram uma vibrante manifestação cultural repleta de referências à cultura afrodescendente, embaladas por batuques como samba, maracatu, afoxé e bateria de escola de samba. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, prestigiou a celebração, destacando a relevância cultural do evento.
Um toque internacional foi dado pelo cônsul-geral de Angola no Rio de Janeiro, Mateus de Sá Miranda Neto, que lembrou a importância de novembro para Angola, nação africana de onde muitos africanos escravizados foram trazidos ao Brasil. Ele destacou que o mês marca a grande luta contra o colonialismo, que culminou na independência angolana em 11 de novembro de 1975, traçando um paralelo histórico com o Brasil, ambos colonizados por Portugal. Para mais informações sobre dados demográficos e questões raciais no Brasil, você pode consultar o site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
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Este Dia da Consciência Negra no Rio de Janeiro, editado por Juliana Andrade, demonstrou a força do movimento negro, o potencial da economia preta e a contínua luta por reparação e reconhecimento. Para aprofundar-se em temas urbanos e o desenvolvimento das cidades brasileiras, continue explorando nossa editoria de Cidades e mantenha-se informado sobre os acontecimentos que moldam nosso país.
Crédito da imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil







