O Festival Sonora Brasil, uma das mais importantes iniciativas de difusão musical do país, conclui sua 27ª edição em Paraty, no Rio de Janeiro. Com uma vasta programação de espetáculos gratuitos, o evento se estende até domingo, 30 de junho, celebrando a riqueza da música brasileira e a diversidade cultural presente em suas raízes.
Um dos pontos altos desta edição ocorreu na última quarta-feira, 26 de junho, com a performance da percussionista Mãe Beth de Oxum, reconhecida como Patrimônio Vivo de Pernambuco. Sua apresentação, que celebrou a ancestralidade negra e a pluralidade cultural do Brasil, foi enriquecida pela colaboração da cantora lírica Surama Ramos e do maestro e multi-instrumentista Henrique Albino, em um encontro marcante que exemplificou o espírito do festival.
O
Festival Sonora Brasil encerra edição com 300 shows
, oferecendo ao público uma experiência imersiva na cultura popular. A iniciativa, que percorreu o território nacional, destaca a importância de revelar e valorizar manifestações artísticas que, muitas vezes, permanecem à margem dos holofotes comerciais. Mãe Beth de Oxum ressaltou em entrevista à Agência Brasil a relevância de “desesconder, descortinar nossa cultura, que é uma cultura secular”, citando a longevidade de instrumentos como a zabumba de mais de 100 anos, passada por gerações em sua família.
Destaque na Programação: Apejó e a Fusão de Gerações
O espetáculo que reuniu Mãe Beth de Oxum com Surama Ramos e Henrique Albino foi batizado de “Apejó”, termo que, em Iorubá, significa “encontro”. Este encontro simbólico materializou-se na fusão da música lírica com a maestria instrumental e os ritmos ancestrais dos tambores da casa de Mãe Beth. A percussionista descreveu a apresentação como a confluência de uma mulher negra da igreja, que encontrou seus valores na universidade, com uma mulher que se reconhece negra no terreiro, sublinhando a potência dessa união cultural e espiritual.
Ao lado de sua filha, Alice Ialodê, e de seu marido, Mestre Quinho, Mãe Beth de Oxum trouxe ao festival o coco de umbigada, uma variação do tradicional coco de roda, que ganhou novas roupagens e as vozes de Surama e Henrique. Por sua vez, a dupla contribuiu com composições autorais que incorporaram de forma orgânica a percussão do coco de umbigada, criando uma sonoridade inovadora. Para Mãe Beth, iniciativas como o Festival Sonora Brasil são cruciais para evidenciar a “beleza, a força e a diversidade da cultura brasileira”, especialmente a cultura negra, as tradições dos terreiros de matriz africana e afro-indígenas, e a música ancestral de sua família, em diálogo com o contemporâneo e o erudito.
Surama Ramos celebrou a originalidade da proposta, afirmando a criação de uma “sonoridade nova pernambucana” por meio da mistura inédita do coco de umbigada com elementos de música eletrônica e harmonias complexas. A cantora, que também forma um duo com Henrique Albino, compartilhou que o convite para colaborar com Mãe Beth de Oxum representou uma jornada de reconexão pessoal com suas raízes ancestrais, preenchendo lacunas de conhecimento sobre a cultura afro-brasileira que não lhe foram ensinadas na infância.
Alcance e Impacto Nacional do Sonora Brasil
A analista de música do Departamento Nacional do Sesc e uma das curadoras do festival, Renata Pimenta, explicou que o tema da 27ª edição – “Encontros, Tempos e Territórios” – buscou promover a união de diferentes gerações de artistas que compartilham o mesmo estado. Essa abordagem permitiu que artistas de diversas fases da carreira, e por vezes da mesma cidade, apresentassem suas territorialidades musicais de maneiras distintas e complementares.
O Sonora Brasil é um projeto abrangente do Sesc que visa levar a diversas partes do Brasil a pluralidade da música nacional. No biênio 2024-2025, o festival viabilizou a circulação de dez combinações de artistas, cuidadosamente selecionadas pela curadoria do Sesc. Esses grupos apresentaram shows inéditos que mesclaram referências, estilos e instrumentos, alcançando as cinco regiões do país. A infraestrutura e o apoio do Sesc são fundamentais para que um projeto com esta magnitude possa existir, superando desafios logísticos que seriam inviáveis para um circuito comercial convencional, especialmente em regiões como o Norte do país, onde o transporte é complexo.
Renata Pimenta destacou que a logística na região Norte representou um dos maiores desafios, mas que a superação dessas dificuldades é, em si, um dos objetivos centrais do festival. “É super desafiador, então não tem muita gente fazendo,” afirmou, reforçando que a existência do projeto se dá pela lógica de uma empresa social que prioriza a valorização da cultura brasileira.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
Série Documental e a Visão dos Artistas
Paralelamente aos shows de encerramento em Paraty, foi lançada a série documental “Sonora Brasil – Encontros, Tempos e Territórios”, uma produção do SescTV. Cada um dos episódios da série explora os encontros artísticos proporcionados pelo festival, permitindo que os músicos compartilhem suas trajetórias e as motivações que os levaram aos palcos. A série está disponível gratuitamente no Sesc Digital, oferecendo uma perspectiva poética sobre o que impulsiona os artistas e quais caminhos percorreram até chegar ao festival, diferenciando-se de edições anteriores que focavam mais nos bastidores.
Para o multi-instrumentista Henrique Albino, a oportunidade de viajar e se apresentar pelo Brasil é uma das experiências mais gratificantes para um artista. Ele descreve o país como “tão diverso, tão gigantesco e parece que são vários Brasis que a gente vai conhecendo”. O músico também destacou a conexão com o público, mencionando a curiosa presença de pessoas com alguma ligação a Olinda em quase todas as cidades visitadas, criando um senso de proximidade e identificação.
A parceria entre Henrique Albino e Mãe Beth de Oxum deve continuar. O multi-instrumentista já convidou a percussionista para colaborar em seu novo álbum, tanto na interpretação quanto na composição. Além disso, há planos para a gravação de um disco do espetáculo “Apejó”, que obteve grande repercussão nas apresentações do Festival Sonora Brasil, confirmando uma colaboração que, segundo ele, “colou e não descola mais”.
Programação de Encerramento em Paraty
Os últimos dias do Festival Sonora Brasil em Paraty, no Sesc Caborê, oferecem uma programação diversificada e gratuita, encerrando a edição com chave de ouro:
Sexta-feira (28/06)
- 18h: Exibição de episódio da série documental sobre Mestre Negoativo & Douglas Din (MG)
- 19h: Apresentação musical Mestre Negoativo (MG)
Sábado (29/06)
- 10h: Roda de conversa com artistas Manoel Cordeiro, Felipe Cordeiro e grupo Mundiá Carimbó (PA)
- 18h: Exibição de episódio da série documental sobre Geraldo Espíndola & Marcelo Loureiro (MS)
- 19h: Apresentação musical Geraldo Espíndola & Marcelo Loureiro (MS)
Domingo (30/06)
- 16h: Exibição de episódio da série documental sobre Manoel Cordeiro & Felipe Cordeiro (PA)
- 17h: Apresentação musical Manoel Cordeiro & Felipe Cordeiro (PA)
- 18h30: Apresentação musical Mundiá com participação de Manoel Cordeiro (PA)
Para aprofundar-se ainda mais na importância da cultura popular e sua valorização, o portal oficial do Sesc oferece detalhes sobre o projeto Sonora Brasil, destacando seu papel fundamental na promoção e difusão da música brasileira autêntica por todo o território nacional.
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Em suma, a 27ª edição do Festival Sonora Brasil reafirma seu compromisso com a diversidade musical e cultural do Brasil, proporcionando encontros únicos e valorizando a ancestralidade. Com mais de 300 shows e uma série documental, o Sesc continua a ser um pilar na difusão da arte popular. Para mais informações e artigos sobre eventos culturais e o impacto nas comunidades, visite nossa seção de Cidades.
Crédito da imagem: Divulgação/Sesc







