A primeira incursão de Flávio Bolsonaro no Nordeste durante a campanha eleitoral revelou um cenário de isolamento para o candidato do PL, em uma região crucial para o desfecho das eleições. Recebido em Maceió, Alagoas, nesta terça-feira (25), o presidenciável encontrou apoio restrito a políticos e militantes de direita, enquanto aliados de outras legendas se esquivaram do palanque, forçando a campanha a focar em líderes religiosos para ampliar sua base.
A dificuldade de angariar suporte em Alagoas, terra natal do vice de Flávio, Alfredo Gaspar (PL), espelha o desafio que a candidatura bolsonarista enfrenta em todo o Nordeste, dada a alta popularidade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A equipe de campanha de Flávio Bolsonaro já articula uma estratégia que visa consolidar alianças e apoios de peso especificamente para um eventual segundo turno da disputa presidencial.
Flávio Bolsonaro no Nordeste busca apoio para 2º turno
Em 2022, Lula consolidou sua vitória nacional com uma vantagem de 2,1 milhões de votos sobre o então presidente Jair Bolsonaro (PL), um resultado fortemente influenciado pela expressiva diferença de 12,5 milhões de votos obtida na região Nordeste. Para esta eleição, a campanha bolsonarista busca diminuir essa disparidade, apostando no engajamento de governadores eleitos no primeiro turno que não foram apoiados por candidatos petistas. Essa tática é vista como fundamental para reverter o cenário desfavorável.
O plano do PL prevê que, na fase inicial da campanha, candidatos do centro e centro-direita, mesmo coligados, mantenham uma postura de neutralidade na corrida presidencial. O objetivo é evitar a perda de votos do eleitorado simpático a Lula, especialmente em municípios do interior. Contudo, na segunda etapa da disputa, após a conclusão das eleições locais, a articulação é para que esses mesmos aliados se engajem ativamente contra o PT e a candidatura de Lula, unindo forças em torno do nome de Flávio Bolsonaro.
Estratégia do PL e Alianças Regionais
A fim de concretizar essa estratégia, o Partido Liberal concedeu apoio a candidaturas para governos estaduais e ao Senado em diversas localidades, sem a exigência de reciprocidade pública imediata na fase inicial. Exemplos notáveis incluem o suporte a ACM Neto (União Brasil) na Bahia, a Ciro Gomes (PSDB) no Ceará, e a Joel Rodrigues (PP) no Piauí. Além disso, o PL apoia Raquel Lyra (PSD) em Pernambuco, ainda que sem garantias de declaração de voto futura, evidenciando a flexibilidade da abordagem para maximizar a capilaridade.
Na Bahia, o PL integrou-se à chapa de ACM Neto, que compete com o governador Jerônimo Rodrigues (PT). Neto, por sua vez, declarou apoio a Ronaldo Caiado (PSD) para a Presidência, uma medida estratégica para não antagonizar com Lula. Com a eleição estadual com grandes chances de ser definida no primeiro turno, aliados de Flávio Bolsonaro e de ACM Neto asseguram que há um compromisso para que o ex-prefeito de Salvador se junte ativamente à campanha nacional na segunda fase.
No Ceará, a estratégia de apoio ao candidato Ciro Gomes gerou certo atrito dentro do círculo bolsonarista. Contudo, o PL manteve o suporte para Ciro na expectativa de superar o governador Elmano de Freitas (PT) e de fortalecer as chances de eleger senadores alinhados à direita. Embora Ciro concentre sua campanha em pautas locais, a esperança dos bolsonaristas é por uma declaração de voto no segundo turno da corrida presidencial.
A Paraíba adotou uma abordagem distinta, com o PL lançando um candidato com perfil mais centrista, abandonando a ideia de uma chapa “bolsonarista raiz”. O senador Efraim Filho (União Brasil), eleito em 2022 em uma aliança que incluía parte da base lulista no estado, filiou-se ao PL e concorre ao governo. Efraim expressa confiança na estratégia: “A redução da vantagem do Lula no Nordeste vai dar a eleição para o Flávio”, afirmou, reforçando a aposta na região.
Desafios e Ausências em Alagoas
Apesar da complexa arquitetura de alianças, o plano não tem obtido sucesso em todas as frentes. Em Alagoas, estado do vice Alfredo Gaspar, Flávio Bolsonaro esperava contar com o apoio público do ex-prefeito de Maceió, João Henrique Caldas (PSDB), conhecido como JHC. Apesar de Alagoas ter sido o primeiro estado do Nordeste a ser visitado na campanha, JHC não compareceu às agendas, ignorou Flávio em suas redes sociais e se absteve de declarar voto, o que gerou desconforto entre os aliados do presidenciável.
A situação de JHC é motivo de preocupação. O deputado estadual Cabo Bebeto (PL) expressou o sentimento: “Nem PhD em política consegue decifrar a estratégia do JHC. Mas, bicho, eu vou votar nele porque o outro lado é a desgraça de Alagoas, os Calheiros. Mas confesso, não tô animado. Se ele continuar assim, sem fazer nada, eu continuarei também só sendo eleitor, votando e pronto.” Essa fala evidencia a frustração e a complexidade das alianças regionais.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
Maceió se destaca como a capital mais bolsonarista do país. JHC, eleito pelo PSB em 2020, migrou para o PL no meio do mandato, facilitando sua reeleição na prefeitura ao barrar o surgimento de adversários de direita, e mudou para o PSDB este ano para disputar a eleição. Sua esposa, Marina Cândia (PSDB), é candidata ao Senado com o apoio de Flávio, mas também não se envolveu ativamente na campanha bolsonarista.
Outra ausência notável na recepção a Flávio em Alagoas foi a do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), que tem o apoio do PL para concorrer ao Senado. Lira encontrou-se com Flávio apenas em um culto de aniversário da Assembleia de Deus, igreja que declarou apoio à candidatura do deputado. Para aliados, o eleitor bolsonarista já reconhece JHC, Marina e Lira como os representantes da direita, tornando um gesto mais explícito desnecessário e potencialmente prejudicial, podendo até afastar votos. Eles não descartam uma declaração de voto mais adiante, mas sem que isso seja um foco principal da campanha.
Em Alagoas, a campanha de Lula é liderada pela família Calheiros, pelo governador Paulo Dantas (MDB) e pelo MDB, o maior partido do estado. O ex-ministro dos Transportes Renan Filho (MDB) disputa o governo, enquanto Renan Calheiros (MDB), seu pai, busca seu quarto mandato consecutivo no Senado. Os Calheiros declaram voto abertamente no petista e exploram sua imagem em todo o material de campanha, em contraste com os comitês de Lira e JHC, que evitam qualquer menção à candidatura presidencial. As redes sociais de ambos também silenciam sobre o tema. JHC, em particular, tem recusado entrevistas, faltou à própria convenção eleitoral e quase não realizou eventos públicos desde o início da campanha.
Agenda e Mensagem do Candidato
Ao desembarcar em Maceió nesta terça-feira, Flávio Bolsonaro declarou voto no ex-prefeito JHC e minimizou as ausências. “O mais importante é ter essa maior liderança de Alagoas, que é o Alfredo Gaspar, e esse povo aqui”, afirmou, antes de seguir em uma carreata. Posteriormente, o presidenciável reuniu-se com empresários na associação comercial de Maceió, onde, segundo os organizadores, havia pessoas que foram presas em decorrência dos eventos de 8 de janeiro de 2023, reforçando o alinhamento político de parte do público.
Durante seu discurso, Flávio Bolsonaro destacou iniciativas do governo de seu pai que são bem-vistas por parte do eleitorado nordestino, como o aumento do Bolsa Família para R$ 600 e a conclusão de segmentos importantes das obras de transposição do rio São Francisco. Ele também enfatizou propostas para a geração de empregos, com foco especial no setor de turismo, visando atrair eleitores que buscam desenvolvimento econômico e melhorias sociais.
Finalizando sua fala, Flávio Bolsonaro expressou sua visão para o futuro da região: “Essas pessoas estão decepcionadas com o Lula. Olham para ele e enxergam o passado, espero que olhem para mim e enxerguem o futuro”, disse, buscando posicionar-se como uma alternativa renovadora em contraponto à gestão petista e buscando ressoar com o anseio por novas perspectivas no Nordeste, uma região de importância estratégica inquestionável para as eleições nacionais, conforme demonstram os dados eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
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A visita de Flávio Bolsonaro ao Nordeste e a complexa teia de articulações revelam a importância vital da região na corrida presidencial e a estratégia ousada da campanha para conquistar apoio, especialmente mirando um segundo turno. Para aprofundar a compreensão sobre os bastidores da política e o cenário eleitoral brasileiro, convidamos você a continuar navegando em nossa editoria de Política.
Crédito da imagem: Charles Vieira/Divulgação Campanha Flávio Bolsonaro







