O Haiti: Conselho de Transição Encerra Mandato sob Ameaça EUA, marcando um novo capítulo na complexa trajetória política da nação caribenha. Em um cenário de instabilidade persistente, o Conselho Presidencial de Transição (CPT) concluiu oficialmente seu período de dois anos no poder neste sábado, 7 de fevereiro de 2026. A decisão foi tomada sob a iminência de uma intervenção direta dos Estados Unidos, que alertaram sobre a necessidade de manter a estrutura de poder com o gabinete do primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé para evitar um vácuo governamental ainda maior.
A solenidade de encerramento das atividades do CPT ocorreu na capital, Porto Príncipe, e contou com a presença de autoridades e representantes. Durante a cerimônia, o presidente do Conselho, Laurent Saint-Cyr, fez questão de ressaltar que a saída do CPT da liderança executiva não resultaria em um colapso institucional. Pelo contrário, segundo Saint-Cyr, a transição seria cuidadosamente gerida para assegurar a estabilidade política e administrativa do país, afirmando que o Conselho de Ministros, sob a direção de Fils-Aimé, garantiria a continuidade. Ele declarou que a palavra de ordem era clara: segurança, diálogo político, eleições e estabilidade, e que deixava suas funções com a consciência tranquila, convicto de ter feito as escolhas mais justas para o Haiti.
É neste contexto de incertezas e pressões internacionais que o Haiti busca um caminho para a normalização. A interrupção do mandato do CPT reflete as contínuas dificuldades enfrentadas pela nação em estabelecer um governo estável e legítimo. A atuação do Conselho, concebido para pavimentar o caminho rumo a um novo processo eleitoral, foi permeada por desafios internos e pela influência de atores externos. A gestão política haitiana se vê, mais uma vez, sob o escrutínio global, especialmente dos Estados Unidos, que reiteram sua preocupação com a ordem democrática e a segurança regional.
Haiti: Conselho de Transição Encerra Mandato sob Ameaça EUA
O Conselho Presidencial de Transição, que assumiu suas funções em abril de 2024, tinha como principal missão conduzir o Haiti por um período crucial após a renúncia do então primeiro-ministro Ariel Henry. A saída de Henry, que estava à frente do governo desde o assassinato do presidente Jovenel Moïse em julho de 2021, aprofundou uma crise política e de segurança já grave. O CPT, composto por nove conselheiros oriundos de diversos segmentos da sociedade haitiana, foi estabelecido com o objetivo primordial de preparar e viabilizar eleições gerais, que não ocorrem no país desde 2016. Além disso, uma de suas metas mais urgentes era retomar o controle de vastas áreas tomadas por gangues armadas, que haviam estabelecido domínio sobre regiões inteiras de Porto Príncipe, a capital.
Durante o período de atuação do CPT, discussões importantes ocorreram sobre a possibilidade de nomear um novo presidente que, em conjunto com o primeiro-ministro, pudesse liderar o Estado haitiano. No entanto, a complexidade do cenário político e a diversidade de interesses dentro do próprio Conselho impediram que se chegasse a um consenso em torno de um nome para ocupar tal cargo. Essa falta de acordo em pontos cruciais sublinhou a fragilidade e os desafios inerentes à governança de transição em um país tão conturbado como o Haiti, evidenciando a dificuldade de unir forças para um projeto comum de nação.
A Intervenção e as Ameaças dos Estados Unidos
Pouco antes do prazo final para o encerramento de seu mandato, o Conselho Presidencial de Transição surpreendeu ao anunciar a intenção de destituir o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé. Fils-Aimé havia sido nomeado pelo próprio CPT e era esperado que liderasse o Poder Executivo até a realização das eleições prometidas, que estavam previstas para ocorrer entre os meses de outubro e novembro do corrente ano. A potencial remoção de Fils-Aimé gerou uma reação imediata e contundente por parte do governo dos Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, que agiu para garantir a permanência do primeiro-ministro.
Em uma demonstração de força e compromisso com a estabilidade haitiana, os Estados Unidos enviaram três navios de guerra – o USS Stockdale, o USCGC Stone e o USCGC Diligence – para a Baía de Porto Príncipe. Essa movimentação militar fez parte da “Operação Lança do Sul” e foi vista como um claro aviso. A embaixada dos EUA no Haiti emitiu um comunicado enfático, destacando que a presença das embarcações, sob a direção do Secretário de Guerra, refletia o compromisso inabalável dos Estados Unidos com a segurança, a estabilidade e a perspectiva de um futuro melhor para o Haiti. A representação diplomática de Washington em Porto Príncipe foi ainda mais explícita, afirmando que qualquer tentativa do CPT de alterar a composição do governo seria interpretada como uma ameaça direta à estabilidade da região, e que os EUA tomariam as “medidas adequadas em conformidade” com tal percepção.
Análise da Tentativa de “Golpe” e a Percepção de Segurança
O cenário de tensões e a intervenção externa foram detalhadamente analisados pelo professor aposentado de relações internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Ricardo Seitenfus, considerado um dos maiores especialistas brasileiros em assuntos haitianos. Em entrevista à Agência Brasil, Seitenfus revelou que houve, de fato, uma tentativa de última hora por parte do CPT de remover Fils-Aimé da chefia do gabinete ministerial. O professor interpretou essa ação como uma tentativa de “golpe” interno, motivada pela articulação política do primeiro-ministro.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
“Como o primeiro-ministro demonstrou uma certa capacidade de articulação, eles quiseram dar um golpe para tirá-lo, antes de terminar o mandato deles, para poderem escolher outro”, explicou o especialista. A avaliação de Seitenfus destaca a complexidade das dinâmicas de poder e as manobras políticas que caracterizam o atual momento haitiano. Recentemente, o professor Seitenfus esteve no Haiti por dez dias para lançar um novo livro sobre a nação caribenha, tendo deixado Porto Príncipe pouco antes dos acontecimentos mais recentes, na última quarta-feira, dia 4 de fevereiro.
Apesar do turbilhão político, Seitenfus trouxe uma avaliação otimista quanto à situação de segurança no país. Ele notou uma melhora perceptível, indicando que o governo conseguiu reaver o controle de uma parcela significativa dos territórios que haviam sido dominados por gangues nos anos anteriores. “Circulei por toda parte. Os bairros, pouco a pouco, estão sendo liberados das gangues, que vão, em algum momento, se refugiar em outros lugares. Isso está correndo bastante bem”, avaliou o professor. Para o analista em relações internacionais, a realização de eleições deve ser a prioridade máxima do governo haitiano. Ele enfatizou que, embora as eleições não sejam uma solução mágica para todos os problemas, sem elas, nenhuma questão fundamental poderá ser resolvida, reforçando a urgência da legitimidade democrática para a reconstrução do Haiti.
Forças de Segurança e o Caminho para a Estabilidade
Desde o trágico assassinato do presidente Jovenel Moïse em 2021, o governo haitiano tem se empenhado em implementar medidas e firmar parcerias estratégicas para estabelecer um nível mínimo de segurança que viabilize a realização de eleições. Uma das iniciativas mais notáveis foi o acordo para a missão internacional de policiais liderada pelo Quênia, destinada a apoiar e fortalecer a Polícia Nacional do Haiti. Essa colaboração externa visa aprimorar a capacidade das forças de segurança locais para enfrentar a criminalidade e restaurar a ordem pública, elementos cruciais para qualquer processo de transição democrática.
No ano anterior, o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) aprovou a criação de uma Força Multinacional de Repressão a Gangues, que absorveu e ampliou os objetivos da missão anteriormente liderada pelo Quênia. Essa medida reflete o reconhecimento internacional da urgência em estabilizar o Haiti e a necessidade de um esforço conjunto para combater as organizações criminosas. Paralelamente, o governo haitiano também recorreu à contratação de mercenários estrangeiros para auxiliar no combate às gangues armadas, demonstrando a complexidade e a gravidade dos desafios de segurança enfrentados pela nação. O apoio internacional, tanto em termos de recursos humanos quanto de planejamento estratégico, é visto como fundamental para que o Haiti possa, eventualmente, criar as condições necessárias para um processo eleitoral justo e livre, consolidando a democracia e a paz social. Para mais informações sobre a atuação da ONU na manutenção da paz e segurança internacionais, você pode consultar o site oficial do Conselho de Segurança da ONU.
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Em suma, o encerramento do mandato do Conselho Presidencial de Transição no Haiti, sob a sombra de ameaças dos EUA, sublinha a frágil conjuntura política do país e a intrincada teia de intervenções internacionais. A continuidade do governo e a prioridade em eleições, aliadas aos esforços para reforçar a segurança, são os pilares para a construção de um futuro mais estável para o Haiti, conforme as autoridades buscam consolidar os ganhos recentes na segurança. Mantenha-se informado sobre os desdobramentos na América Latina e Caribe acompanhando nossa editoria de Política.
Crédito da imagem: Laurent Saint-Cyr/Alix Didier Fils-Aimé/X







