Um novo panorama para a infraestrutura no Brasil começa a se desenhar, impulsionado por um maior protagonismo do crédito privado e pelo suporte estratégico de instituições financeiras multilaterais. No ano passado, o país registrou um investimento recorde de aproximadamente R$ 260 bilhões em projetos do setor, um montante majoritariamente sustentado pelo financiamento público. Isso se deveu às características intrínsecas dos empreendimentos, que demandam prazos estendidos e custos alinhados à sua estrutura e riscos.
Conforme dados do Banco Central relativos ao ano de 2024, os bancos federais, estaduais e regionais foram responsáveis por impressionantes 95% do crédito de longo prazo concedido a segmentos vitais como transporte, energia, saneamento, telecomunicações e logística em todo o território nacional. Dentro desse cenário, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sobressaiu, garantindo 64% do total, seguido pela Caixa Econômica Federal, com 18%, e pelo Banco do Brasil, com 7%. No âmbito privado, BTG Pactual e Bradesco ocuparam a quinta e sexta posições, respectivamente, no ranking dos dez maiores financiadores, cada um contribuindo com 2% do crédito total no período.
Infraestrutura no Brasil: Novo Ciclo com Crédito Privado
Contudo, essa configuração histórica apresenta claros sinais de transformação. A introdução de novos mecanismos de crédito e a crescente participação de bancos multilaterais de desenvolvimento, com linhas de financiamento específicas, prometem estabelecer um equilíbrio mais saudável entre o setor público e o privado. O financiamento privado, em particular, ganha força através da disponibilização de instrumentos financeiros inovadores no mercado. As debêntures incentivadas, por exemplo, um dos produtos mais relevantes para financiar projetos de rodovias, saneamento e energia, alcançaram R$ 113,6 bilhões nos primeiros nove meses de 2025, um aumento de 18,2% em comparação ao mesmo período do ano anterior.
O Papel Central do BNDES na Transformação
Atento a essa dinâmica e diante da projeção da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) de que o investimento no setor alcançará R$ 300 bilhões em 2026, o BNDES implementou um novo modelo de financiamento. O objetivo é fortalecer a colaboração com o mercado de capitais. A instituição coordena ativamente as emissões de debêntures, buscando atrair investidores e ampliar os prazos de financiamento. Adicionalmente, o banco inovou ao criar as debêntures faseadas, que liberam recursos de acordo com o progresso das obras, o que contribui para a redução dos custos para os tomadores de crédito. Segundo Luciana Costa, diretora de infraestrutura, transição energética e mudança climática do BNDES, essa estratégia resultou em um significativo crescimento da participação das debêntures nos financiamentos do banco à infraestrutura, saltando de menos de 11% em 2022 para aproximadamente 40% em 2024. Para os próximos 12 meses, o BNDES estima um pipeline de estruturação de debêntures entre R$ 40 bilhões e R$ 60 bilhões, direcionados a setores como logística e transportes (50%), energia (30%), mobilidade urbana e saneamento (15%).
Além disso, o banco desenvolveu produtos financeiros específicos para grandes obras nacionais, considerando o atual cenário de taxas de juros elevadas. “Hoje, para financiar infraestrutura, menos de 10% do nosso funding tem algum subsídio. Antes, era 100%. Diante disso, inovamos contratualmente, usando mais instrumentos de mercado de capitais”, explicou Costa. Ela acrescentou que, com os juros em patamares altos, as empresas preferem não atrelar o financiamento de longo prazo à situação atual. Por isso, o BNDES lançou um produto que oferece financiamento de médio prazo com a garantia do custo de longo prazo, permitindo repactuações conforme as taxas de juros diminuírem.
Paralelamente à drástica redução dos recursos subsidiados, o BNDES quase dobrou a média anual de aprovações de financiamentos para infraestrutura nos últimos dois anos, passando de R$ 38,5 bilhões no período de 2015 a 2022 para R$ 76,5 bilhões em 2023 e 2024. A expectativa é que, neste ano, as aprovações atinjam R$ 80 bilhões, superando os R$ 74 bilhões de 2024, impulsionadas por aportes em aeroportos, rodovias, linhas de transmissão e embarcações de apoio. Para o próximo ano, hidrelétricas devem contribuir para esse crescimento. “O Brasil começou um superciclo de investimento em infraestrutura”, afirmou a executiva do BNDES. Você pode ler mais sobre a atuação do BNDES e seu impacto na economia brasileira em Valor Econômico.
Setores em Destaque e Novos Desafios
Historicamente líder, o setor de energia cedeu sua posição para logística e transporte, com grande destaque para os projetos rodoviários. As aprovações para este segmento em 2024 totalizaram R$ 23 bilhões, e a projeção para este ano é de R$ 30 bilhões, marcando uma expansão notável em comparação aos R$ 2 bilhões a R$ 3 bilhões anuais registrados entre 2020 e 2022. Por outro lado, o setor de energia renovável deve manter um desempenho mais modesto, principalmente devido às dificuldades causadas pelos cortes obrigatórios de geração, conhecidos como “curtailment”, que resultam de um excesso de oferta e escassez de demanda.
Uma tendência similar pode ser observada no Banco do Nordeste (BNB). Projetos de energia renovável, que anteriormente representavam até 70% de seu orçamento total de infraestrutura (R$ 9,5 bilhões neste ano e R$ 60 bilhões entre 2018 e 2025), estão perdendo espaço para saneamento e logística. “Essa participação deve se reduzir bem. Temos forte demanda por transmissão e é um setor que estamos incentivando muito, considerando a questão do curtailment, que tem prejudicado algumas empresas. Se considerarmos nossa consulta prévia, hoje o que temos de energia renovável representa 20%”, explicou Luiz Abel Amorim, diretor de negócios do BNB. Desde 2023, os setores de saneamento e logística (incluindo rodovias, aeroportos e portos) ganharam proeminência nos financiamentos do banco, indicando um cenário de maior equilíbrio. O BNB também registra a primeira consulta para projetos de baterias, visando solucionar o problema do curtailment.
A Atuação Crescente de Bancos Multilaterais
A expansão dos investimentos em infraestrutura no Brasil tem levado instituições financeiras nacionais, como o BNB e o BNDES, a explorar novas fontes de recursos. Ambos estão em negociação com o Banco Mundial (Bird) para a obtenção de linhas de crédito. No caso do BNDES, se aprovado, o contrato será de US$ 1 bilhão, destinado a investimentos em transição energética. “Há décadas o Banco Mundial não empresta para o BNDES, mas hoje o cenário mudou”, observou Luis Alberto Andrés, coordenador de infraestrutura do Bird para o Brasil. Ele ressaltou que a média de financiamento de US$ 700 milhões do Banco Mundial para o Brasil ficou no passado. Entre julho de 2024 e junho de 2025 (ano fiscal do Bird), o valor financiado atingiu um recorde de US$ 3,9 bilhões, dos quais 41% foram alocados para infraestrutura.
A perspectiva é ainda mais promissora. O Banco Mundial possui uma carteira de 19 projetos no Brasil, totalizando US$ 5,6 bilhões, com foco em energia, transporte, saneamento e desenvolvimento urbano. “Estamos trabalhando com projetos para financiamento de ônibus elétrico, transição energética, hidrogênio verde e saneamento. O Banco Mundial está mais aberto para financiar projetos no Brasil, e o Brasil está mais aberto a receber recursos adicionais. Os termos financeiros do Banco Mundial melhoraram”, afirmou Andrés. O Bird também negocia uma linha de crédito de US$ 1,2 bilhão com a Caixa Econômica Federal, sendo US$ 500 milhões para financiar ônibus elétricos. Com o Banco do Nordeste, são US$ 500 milhões para descarbonização; com o Banco da Amazônia, US$ 100 milhões para projetos de energia renovável; e com o BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul), as negociações visam recursos para infraestrutura em municípios menores, que não teriam acesso direto aos fundos do Bird, com o BRDE atuando como intermediário.
Apesar dos significativos avanços, Andrés pondera que os investimentos atuais representam apenas uma pequena parcela da real necessidade do Brasil em infraestrutura, estimada em US$ 778 bilhões (ou 3,7% do PIB ao ano) até 2030, para atender às demandas do país. O cenário atual demonstra, portanto, uma evolução positiva na diversificação das fontes de financiamento para a infraestrutura no Brasil, mas também aponta para o vasto desafio que ainda precisa ser superado para garantir um desenvolvimento sustentável e abrangente.
Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos
Este movimento de diversificação de financiamento e a crescente participação de atores privados e multilaterais indicam um caminho promissor para o desenvolvimento da infraestrutura no Brasil. Continue acompanhando nossas análises e notícias sobre Economia para se manter informado sobre os próximos passos e impactos dessas transformações.
Crédito da Imagem: Nicola Labate/Divulgação e Arte/Valor






