O José Balcázar é o novo presidente interino do Peru. O Congresso do país sul-americano confirmou sua eleição nesta quarta-feira (18), após um processo de votação que o designou para liderar a nação até o dia 28 de julho. A decisão surge em meio a um cenário de profunda instabilidade política, apenas um dia depois de o Parlamento destituir o então presidente José Jerí de seu cargo. Balcázar, membro do partido Peru Livre, assume a liderança do Congresso, o que, por consequência, o eleva à Presidência interina, uma posição que havia permanecido vaga por 24 horas.
A eleição de Balcázar ocorreu em segundo turno, onde obteve 60 votos contra os 46 de María del Carmen Avila, candidata de centro-direita. Este resultado consolidou sua posição, apesar de Avila ter ficado apenas três votos atrás dele na primeira rodada de votação. Outros dois parlamentares, Edgar Reymundo (Juntos pelo Peru) e Héctor Acuña (Aliança pelo Progresso), também concorreram à liderança temporária do Congresso. Reymundo, porém, retirou-se do plenário no segundo turno, levantando acusações de que os dois candidatos mais votados teriam negociado a distribuição de ministérios durante o processo eleitoral.
José Balcázar é o Novo Presidente Interino do Peru
Durante sua breve cerimônia de posse, na noite de quarta-feira, José Balcázar enfatizou seu compromisso com a nação. “Defenderei a soberania da nação, a integridade física e moral da república e a independência de suas instituições democráticas”, declarou o novo líder interino. Balcázar, nascido em Nanoch, possui uma sólida formação como advogado e professor. Sua trajetória profissional inclui passagens como membro do Tribunal Superior de Lambayeque e como juiz do Supremo Tribunal. Em 2021, ele foi eleito para o Congresso pelo Peru Livre, o mesmo partido que levou Pedro Castillo à Presidência no mesmo ano. Castillo, atualmente, cumpre pena por uma tentativa de autogolpe frustrada. A chegada de Balcázar ao poder alimenta a expectativa de que Castillo possa vir a receber um indulto.
A figura de José Balcázar, contudo, não é isenta de controvérsias. O parlamentar já emitiu declarações que foram consideradas polêmicas, especialmente em relação à sua posição sobre o casamento infantil. Ele, no entanto, posteriormente, esclareceu que suas palavras teriam sido interpretadas de maneira incorreta, buscando mitigar o impacto de tais declarações em sua imagem pública e política.
A Destituição de José Jerí e a Crise Persistente
O episódio da eleição de Balcázar é mais um capítulo na prolongada crise política do Peru, que tem sido marcada por uma sucessão de destituições e renúncias presidenciais. José Jerí, de 39 anos, havia assumido a Presidência em outubro, sucedendo Dina Boluarte. Boluarte, por sua vez, também fora destituída pelo Parlamento, que a considerou “incapaz de governar”. Inicialmente, Jerí foi visto como um candidato promissor pelo Congresso, mas sua permanência no cargo foi curta, sendo rapidamente destituído sob acusações de má conduta e falta de idoneidade.
As investigações contra Jerí incluíam alegações de tráfico de influência, com destaque para um encontro que teria tido com um empresário chinês e sua suposta intervenção em nove contratações de mulheres. Após a destituição, o agora ex-presidente utilizou a plataforma TikTok para se despedir oficialmente do cargo. Em um vídeo que rapidamente viralizou, Jerí agradeceu aos cidadãos e assegurou que continuaria a trabalhar pelo país a partir de sua posição como legislador. “Servir ao Peru foi e continuará sendo uma honra”, afirmou em sua mensagem, concluindo com um “Muito obrigado a vocês. Até logo.”
Instabilidade Institucional e o Mecanismo de “Incapacidade Moral”
O Peru tem sido palco de uma severa instabilidade institucional, caracterizada por um Congresso com poderes ampliados e um Executivo frequentemente fragilizado. A situação é tão precária que, dos últimos sete presidentes, quatro foram destituídos, e outros dois renunciaram antes de serem formalmente afastados. Este cenário fez com que nove políticos ocupassem a Casa de Pizarro (Palácio do Governo) desde 2016, uma rotatividade que, conforme comentou o jornalista Sebastián Ortíz em uma transmissão do jornal El Comercio, transformou o país em um “meme internacional”, destacando-se mesmo em uma América Latina já conhecida por sua turbulência política.
Um dos mecanismos frequentemente utilizados para as destituições é o dispositivo constitucional que permite ao Congresso decretar “incapacidade moral” do presidente. Esta justificativa é comumente empregada para afastar líderes que perdem o apoio do Parlamento. Jerí, por exemplo, enfrentava sete pedidos de censura, impulsionados tanto pela oposição de esquerda quanto por um bloco de partidos de direita. O mecanismo prevê um debate no Congresso sobre as ações ou acusações contra altas autoridades e exige a maioria simples dos votos (metade mais um) para ser aprovado em sessão.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
Para entender melhor o contexto da crise política peruana e sua complexidade, é fundamental observar como a instabilidade afeta a governabilidade. A situação no país é um exemplo contundente de como a fragilidade das instituições pode comprometer a democracia e o desenvolvimento. Para aprofundar-se sobre a persistente instabilidade política na nação andina, consulte informações adicionais sobre a espiral da crise no Peru.
O governo interino de Jerí havia iniciado com a promessa de garantir estabilidade e transparência nas próximas eleições. No entanto, a recente crise e sua destituição podem prejudicar os partidos que o apoiaram. Mais de 30 candidatos estão na corrida pelo comando do país em pleito agendado para 12 de abril. É importante notar que, tanto Jerí quanto Balcázar, não estarão aptos a se candidatar nessas eleições.
Economia Resiliente e Desafios Sociais
Apesar da intensa turbulência política, a economia social de mercado do Peru demonstra uma notável resiliência. A moeda local figura entre as mais fortes da América Latina, e a inflação tem se mantido sob controle. Contudo, essa aparente estabilidade macroeconômica contrasta com um grave problema social: a informalidade no mercado de trabalho. Cerca de 70% dos peruanos atuam sem proteções legais, o que representa um desafio significativo para o desenvolvimento social e a redução das desigualdades no país.
A história política recente do Peru, desde 2016, ilustra essa instabilidade crônica:
- **Ollanta Humala (jul.11-jul.16):** Foi o último líder peruano a concluir integralmente seu mandato presidencial.
- **Pedro Pablo Kuczynski (jul.16-mar.18):** Eleito em 2016, renunciou antes de ser destituído, enfrentando denúncias de corrupção.
- **Martín Vizcarra (mar.18-nov.20):** Vice de Kuczynski, assumiu e foi destituído pelo Congresso por denúncias de corrupção.
- **Manuel Arturo Merino (10.nov.20-15.nov.20):** Como presidente do Congresso, assumiu brevemente e renunciou por falta de apoio popular e político.
- **Francisco Sagasti (nov.20-jul.21):** Também presidente do Congresso, assumiu para completar o mandato.
- **Pedro Castillo (jul.21-dez.22):** Eleito em 2021, foi destituído após uma tentativa de autogolpe.
- **Dina Boluarte (dez.22-out.25):** Vice de Castillo, foi deposta pelo Congresso sob o argumento de “incapacidade moral”.
- **José Jeri (out.25-fev.26):** Presidia o Congresso, sendo deposto por “má conduta”.
- **José María Balcázar (desde 18.fev.26):** Escolhido pelo Congresso para completar o mandato até julho.
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A eleição de José Balcázar como novo presidente interino do Peru sublinha a persistente crise institucional que assola o país. Com um Congresso que exerce forte influência sobre o Executivo e uma sequência de líderes que não conseguem completar seus mandatos, o cenário político peruano permanece imprevisível. Para acompanhar as últimas novidades sobre a política na América Latina e em outros países, continue explorando nossa editoria de Política.
Crédito da imagem: Ruben Grandez/Congresso do Peru e Connie France/AFP







