No cenário político brasileiro, o engajamento dos jovens eleitores quilombolas se destaca como um fator crucial para o fortalecimento da democracia e a defesa de seus territórios. A vivência de personagens como Joaquim Moreira, de 87 anos, e sua neta Thauany Silva, de 16, exemplifica a importância da participação intergeracional nas urnas, marcando um período de crescente conscientização e atuação política dentro das comunidades tradicionais.
O agricultor Joaquim Moreira, residente na comunidade quilombola de Antinha de Baixo, em Santo Antônio do Descoberto, Goiás, prepara-se para o próximo dia 4 de outubro com a mesma determinação de sempre. Acompanhado de sua neta Thauany, ele fará o caminho até a seção eleitoral para exercer o direito do voto. Para Thauany, estudante que completa 16 anos em abril, esta será a primeira vez na urna, uma experiência aguardada com grande expectativa por ambos, que mantêm seus títulos eleitorais guardados com zelo. A tradição familiar de votar, “sempre votei e vou votar de novo”, nas palavras do patriarca, inspira a nova geração a assumir seu papel cívico.
Jovens Eleitores Quilombolas Fortalecem Voto e Participação
A determinação de Thauany em participar ativamente do processo eleitoral ficou evidente assim que atingiu a idade mínima. Em abril, recém-completados 16 anos, ela se dirigiu ao centro da cidade com sua mãe, Mayara Silva, para garantir seu título de eleitora. Sua empolgação com a posse do título provisório reflete um sentimento compartilhado por muitos jovens. “Quando a gente vota, estamos cuidando do futuro de todos nós, né?”, questiona a adolescente, sublinhando a percepção de que o voto é uma ferramenta para moldar o destino coletivo. Sua mãe, Mayara, de 36 anos, reforça a importância de acompanhar as decisões políticas, pois estas “interferem diariamente no dia a dia da sua comunidade”, enfatizando que “tudo é política” e que é impossível “fechar os olhos” para essa realidade.
Os dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) evidenciam um aumento significativo no número de cidadãos que se identificaram como quilombolas nas eleições de 2026. Esse eleitorado praticamente dobrou em relação ao pleito municipal de 2024, saltando de 95.409 para 188.371 pessoas em todo o país. Em Goiás, estado onde a família de Joaquim e Thauany reside, o crescimento também foi expressivo, com o número de eleitores quilombolas passando de 3.625 para 5.394. Essa ascensão numérica reflete uma maior visibilidade e um engajamento político crescente dessas comunidades, que buscam representatividade e a defesa de seus direitos por meio do voto.
O fervor pela participação democrática também inspira a universitária de direito Franciele Silva, de 27 anos, nascida e criada na comunidade de Rio dos Macacos, em Simões Filho, Bahia. Franciele possui seu título de eleitor desde os 18 anos e relata uma curiosidade inicial sobre o processo de votação. Para ela, a política permeia todos os aspectos da vida, incluindo “até o ar que a gente respira”. Sua mãe sempre a incentivou a lutar pelos próprios direitos e pelos de sua comunidade. Desde que ingressou na Universidade Federal da Bahia (UFBA) para estudar direito, Franciele tem levado ainda mais informações e estratégias para a defesa do território de sua comunidade, reiterando que “votar é fundamental” para essa causa.
A região Nordeste, aliás, se destaca por concentrar a maior parcela dos eleitores quilombolas do país. Em 2024, o Nordeste registrava 51.633 eleitores quilombolas, número que alcançará 95.901 em 2026, consolidando a região com mais da metade do eleitorado quilombola nacional, conforme apontam as estatísticas do TSE. Esse cenário reforça a relevância da mobilização política nessas áreas e o potencial de influência dessas comunidades nas decisões eleitorais.
Aumento da Visibilidade e Conscientização
O expressivo crescimento do eleitorado nas comunidades tradicionais é atribuído à ampliação da visibilidade e da conscientização política dentro desses territórios, conforme análise da professora Bia Nunes. Pesquisadora da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), Nunes destaca que as pautas quilombolas têm sido levadas a diversos fóruns, resultando em parcerias e maior engajamento. Ela enfatiza que a participação dos eleitores quilombolas deriva de um processo de conscientização e letramento sobre o papel essencial que desempenham como “guardiões da floresta” e a importância de seus territórios para a biodiversidade. “É o trabalho que os quilombolas sempre fizeram e fazem”, acrescenta.
Para Bia Nunes, a reivindicação de políticas públicas está intrinsecamente ligada ao reconhecimento do papel coletivo das comunidades. Ela observa que, ao dimensionar essa contribuição, as pessoas passam a compreender a relevância do voto e da escolha de seus representantes. A representante da Conaq salienta que a população quilombola tem percebido a necessidade de exigir dos governantes um comprometimento efetivo com a proteção de suas vidas e com o avanço das titulações dos territórios quilombolas em todo o Brasil. Nesse contexto, o envolvimento dos jovens assume um papel central e estratégico.

Imagem: acervo da família via agenciabrasil.ebc.com.br
A pesquisadora da Conaq defende a intensificação das campanhas por parte do Estado brasileiro para estimular a participação de eleitores e candidaturas quilombolas. Ela aponta que, apesar do avanço, ainda existe um contexto de vulnerabilidade, caracterizado por pressões e ameaças de violência. A própria Bia Nunes relata ter sido alvo de uma ameaça contra sua vida em 2020, quando era candidata, o que a levou a ingressar em um programa de proteção. Para mais informações sobre dados eleitorais e a atuação do sistema de justiça, consulte o Tribunal Superior Eleitoral.
Consciência Política e Defesa dos Territórios
A conscientização política nas comunidades quilombolas segue múltiplos caminhos, como explica Rafael Costa, educador de alfabetização financeira de 32 anos, da comunidade Mesquita, localizada na Cidade Ocidental, Goiás. Costa observa um crescimento no interesse por temas como participação e representatividade política. Segundo ele, quanto mais as pessoas se informam, pesquisam e estudam, maior se torna a compreensão sobre a necessidade de políticas públicas que atendam às suas realidades.
Rafael Costa ressalta que as comunidades, historicamente pautadas por um espírito de cooperação e altruísmo, precisam estar vigilantes para evitar golpes financeiros e o avanço da desinformação. Ele argumenta que “a partir do momento que se conscientizam sobre seu modo de vida e de produção, começam também a desenvolver maior consciência política”. Há um engajamento e uma politização crescentes entre os jovens adultos, que buscam participar ativamente da vida política para se defenderem da desinformação que, muitas vezes, ameaça seus territórios. Essa crescente mobilização contribui para que “a comunidade esteja cada vez mais se fortalecendo politicamente”.
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Em suma, a participação eleitoral e o engajamento político dos jovens eleitores quilombolas representam um pilar fundamental para a defesa de suas identidades, culturas e territórios. O aumento expressivo no número de eleitores e a atuação de líderes e ativistas como Thauany, Franciele, Mayara, Bia Nunes e Rafael Costa demonstram que as comunidades quilombolas estão cada vez mais conscientes de seu poder transformador. Continue acompanhando a cobertura política e os debates sobre direitos e cidadania em nossa editoria de Política.
Foto: Acervo da família







