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Lourenço Mutarelli Lança Novo Livro Sob ‘Ótica de Despedida’

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O renomado escritor e multiartista Lourenço Mutarelli lança seu novo livro, o décimo romance de sua carreira, sob uma perspectiva profundamente influenciada por graves questões de saúde. Com 62 anos, Mutarelli revela que sua rotina atual é marcada por uma incessante atividade criativa, mas também pela sombra de uma cardiopatia severa que alterou sua percepção da vida e da arte.

Desde 2020, o artista convive com as sequelas de duas paradas cardíacas, que resultaram na necrose de 70% de seu coração. Essa condição o coloca, segundo suas próprias palavras, “no corredor da morte”, uma realidade que permeia sua visão de mundo e, consequentemente, sua produção artística. “Tudo que eu tenho visto e vivido é nessa ótica de despedida”, afirma Mutarelli, destacando a profundidade da experiência que o acompanha nos últimos anos.

Lourenço Mutarelli Lança Novo Livro Sob ‘Ótica de Despedida’

Seu mais recente trabalho, intitulado “Masuaki e/ou Não Deixe os Cachorros Latirem Sozinhos”, chega às livrarias pela Companhia das Letras. A obra mergulha em uma narrativa onde os limites entre sonho, vigília e delírio se esvaem, acompanhando personagens que enfrentam insônia, o impacto da música, o consumo de drogas, lembranças vívidas e relacionamentos voláteis. Ao longo do enredo, cenas cotidianas se desfiguram, e conceitos como identidades, memórias e aparências perdem sua fixidez, refletindo a desconstrução que o autor experimenta em sua própria vida.

O processo criativo deste romance sucedeu “O Livro dos Mortos: Uma Autobiografia Hipnagógica” (2022), uma incursão em uma autobiografia metafórica. Inicialmente, Mutarelli buscava afastar-se de sua realidade, almejando um livro completamente surreal. Contudo, a vida, como ele próprio observa, impôs sua presença. “A realidade, para variar, acabou invadindo o meu trabalho”, conta o escritor, mencionando especificamente o impacto de sua cardiopatia. Essa condição de saúde, que ele vem tratando há quase seis anos, tornou-se uma sombra constante, redefinindo sua maneira de observar o mundo e infundindo em sua obra essa inevitável “ótica de despedida”.

A crueza com que Lourenço Mutarelli aborda sua condição de saúde e a mortalidade não é uma surpresa para aqueles que acompanham sua trajetória. Sua obra, que se iniciou nos fanzines em 1988, evoluiu para quadrinhos e, a partir de 2002, para os romances com “O Cheiro do Ralo”. Seus personagens, frequentemente desajustados, obsessivos e isolados, ecoam uma sensibilidade que se aprofunda com suas vivências pessoais. Essa coerência temática, aliada à sua notável capacidade de transitar entre diferentes linguagens artísticas – escritor, quadrinista, dramaturgo, professor e ator – solidifica sua posição como uma figura singular na cultura brasileira contemporânea.

A Inspiração por Trás de “Masuaki” e o Retorno aos Quadrinhos

O personagem central de seu novo romance, Masuaki, possui uma origem fascinante, inspirada em uma figura real. Mutarelli relembra ter visto, no final dos anos 1970, no programa Fantástico, um jovem médium japonês chamado Masuaki Kiyota, conhecido por supostamente conseguir imprimir fotografias com a mente e entortar talheres. Essa figura, apelidada de “Uri Geller japonês”, gerou uma obsessão em um adolescente Mutarelli, que tentava replicar os feitos em casa. Anos mais tarde, Kiyota admitiria a fraude, mas a imagem do médium permaneceu no imaginário do autor, culminando na frase que encerra o livro: “Masuaki Kiyota imprimia fotos com a mente”, uma metáfora para o poder da arte em “imprimir fotos na mente das pessoas”.

A construção de “Masuaki e/ou Não Deixe os Cachorros Latirem Sozinhos” também marcou um retorno significativo de Mutarelli ao universo dos quadrinhos. Embora tivesse se distanciado da nona arte nos últimos tempos, a aquisição de uma edição recente de “Little Nemo”, uma HQ centenária, “abriu um portal” para ele. As histórias de “Little Nemo”, que abordam os sonhos de um garotinho, ressoam profundamente com Mutarelli, que sofre de insônia crônica. Ele aprecia o “estado intermediário em que você não está nem acordado nem dormindo”, um momento onde a realidade e o onírico se invadem mutuamente, característica presente em sua nova obra.

Rotina Noturna, Novos Projetos e Desafios Pessoais

A rotina de Lourenço Mutarelli é intensamente noturna. Ele acorda por volta das 3h da manhã, dedicando-se a desenhar, escrever, ouvir música e realizar afazeres domésticos. Com poucas horas de sono – geralmente de três a quatro por noite –, Mutarelli se deita entre nove e dez da noite, enfrentando dificuldades para adormecer e acordando bem antes do amanhecer. “Meu dia é longo”, resume ele, refletindo sobre essa vigília constante que alimenta sua produção artística.

Lourenço Mutarelli Lança Novo Livro Sob ‘Ótica de Despedida’ - Imagem do artigo original

Imagem: www1.folha.uol.com.br

Durante essas madrugadas, o artista tem se dedicado a novos projetos de quadrinhos e narrativa gráfica. Um deles, ainda sob sigilo contratual, marca um retorno mais direto ao desenho. Outro já tem título, “Me Perdoe, Senhor Stevenson”, e será lançado pela editora Comic Zone. Este livro, inicialmente uma encomenda inspirada em “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, transformou-se em uma reflexão pessoal sobre a morte do irmão do autor, um usuário de crack, onde o “monstro acabou virando o vício”.

Mutarelli também aborda abertamente suas lutas pessoais. O consumo de álcool, que se intensificou durante a pandemia, é um desafio constante. “Eu luto muito contra o álcool”, confessa, enquanto busca controlar o problema em meio à sua condição cardíaca. Com o cigarro, a relação é diária, fumando entre sete e oito cigarros por dia. “Eu não sou um exemplo, eu sou uma advertência”, brinca, em tom sério, sobre seus hábitos.

Apesar do cenário de saúde delicado, o escritor rejeita a ideia de se considerar um fracassado. Uma entrevista em vídeo que circulou nas redes sociais, onde ele mencionava que sua mãe o via como profissionalmente mal-sucedido por pedir dinheiro, foi esclarecida como fora de contexto. “Não me sinto fracassado”, afirma, reconhecendo, contudo, que socialmente pode ser visto assim. Sua trajetória profissional, que não permitiu que vivesse exclusivamente dos royalties de seus mais de 20 títulos entre HQs, romances e peças, inclui um episódio de juventude em que não conseguiu se adaptar à vida prática, trabalhando em uma farmácia. Para ele, “era muito desqualificado para a vida prática”, e encontrou seu caminho na arte.

A relevância de sua obra é inegável, com quatro de seus romances adaptados para o cinema: “O Cheiro do Ralo”, “Natimorto”, “Quando Eu Era Vivo” (adaptação de “A Arte de Produzir Efeito sem Causa”) e “Jesus Kid”. “O Cheiro do Ralo”, estrelado por Selton Mello, tornou-se um marco, com frases do filme sendo repetidas no cotidiano pelos espectadores, um fato que Mutarelli considera “lindo”. Aos 62 anos, ele admite que o medo da morte ainda existe, mas tenta enfrentá-lo de forma direta, declarando um profundo amor pela vida: “Mas eu adoro isso aqui. Minha vida tem sido incrível.” A obra, editada pela Companhia das Letras, está disponível a partir de R$ 44,90 na versão e-book e R$ 129,90 na edição impressa de 384 páginas. Para entender mais sobre condições cardiovasculares graves, consulte fontes de saúde pública confiáveis.

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Em suma, o novo romance de Lourenço Mutarelli não é apenas uma adição à sua vasta e impactante obra, mas um testemunho da resiliência humana diante da adversidade. Com “Masuaki e/ou Não Deixe os Cachorros Latirem Sozinhos”, o escritor nos convida a explorar os limiares da realidade e da percepção, impregnado por uma visão madura e honesta sobre a vida e a morte. Para ficar por dentro de outras notícias sobre figuras importantes da cultura e do cenário artístico, continue acompanhando nossa editoria de Celebridade no Hora de Começar.

Crédito da imagem: Karime Xavier/Fohapress

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