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Lula no G20: Transição Energética e Crescimento Inclusivo

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou, durante a cúpula do G20 em Joanesburgo, África do Sul, a responsabilidade do grupo das maiores economias mundiais em conceber um novo paradigma econômico. Este modelo deve priorizar a transição energética justa e a construção de resiliência climática para enfrentar os desafios globais iminentes. A declaração foi feita em uma sessão dedicada à redução de riscos de desastres, mudanças climáticas, transição energética e sistemas alimentares.

Em sua intervenção no sábado, dia 22 de novembro de 2025, o chefe de Estado brasileiro enfatizou a necessidade de uma abordagem multifacetada. Segundo Lula, o cenário atual exige um esforço conjunto para intensificar as ações de mitigação das alterações climáticas e, simultaneamente, preparar-se para as novas realidades impostas pelo clima, atribuindo ao G20 um papel central em ambas as frentes.

Lula no G20: Transição Energética e Crescimento Inclusivo

Considerando que os membros do G20 são responsáveis por aproximadamente 77% das emissões globais, o presidente argumentou que o grupo é o palco ideal para o surgimento de um novo modelo econômico. Ele salientou a importância do G20 na elaboração de um roteiro claro que direcione o mundo para longe da dependência de combustíveis fósseis, substâncias que ainda dominam a matriz energética mundial e são grandes impulsionadores do aquecimento global.

Lula recordou o engajamento do Brasil na condução das negociações da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que o país sediará. Apesar dos esforços, representantes da sociedade civil expressaram frustração com a percepção de falta de ambição para atingir as metas climáticas estabelecidas no Acordo de Paris, cujo objetivo é limitar o aumento da temperatura global em 1,5ºC para evitar catástrofes ambientais severas e irreversíveis.

Um dos pontos cruciais de insatisfação foi a ausência de um cronograma definitivo para a eliminação gradual de fontes de energia como petróleo e carvão mineral, amplamente reconhecidos como os maiores emissores de gases de efeito estufa. O governo brasileiro, e particularmente o presidente Lula, defendeu a inclusão de uma proposta com um cronograma para a implementação dessa vital transição energética, evidenciando a urgência do tema no cenário internacional.

O líder brasileiro sublinhou que a COP30 evidenciou a inevitabilidade desse debate global. Ele descreveu a proposta brasileira como uma “semente plantada” que, cedo ou tarde, frutificará. Para Lula, a mudança climática transcende a mera questão de política ambiental, configurando-se, primordialmente, como um complexo desafio de planejamento econômico que exige soluções integradas e de longo prazo dos líderes do G20.

Na sua fala, Lula também mencionou os Princípios Voluntários para Investir em Redução de Risco de Desastres, documento aprovado sob a liderança sul-africana. Este instrumento ressalta a importância de financiamentos de longo prazo voltados para a prevenção e resposta a desastres naturais, um aspecto fundamental para a construção de sociedades mais resilientes frente aos impactos crescentes das alterações climáticas.

O presidente alertou que sistemas de alerta precoce, embora importantes, não são suficientes. Ele previu que o clima testará a infraestrutura existente, como pontes, rodovias, edifícios e linhas de transmissão. Adicionalmente, exigirá novas e mais eficazes formas de gestão hídrica, produção alimentar e geração de energia. A longo prazo, poderá forçar o deslocamento de milhares de pessoas e empresas para regiões mais seguras.

Construir resiliência, argumentou o presidente, não deve ser visto como um custo, mas sim como um investimento estratégico. Ele citou dados que indicam que, para cada dólar investido em adaptação, há um retorno de quatro dólares em prejuízos evitados, além de significativos benefícios sociais e econômicos adicionais.

Entretanto, um mundo resiliente vai além da infraestrutura. Lula defendeu que o combate à fome e à pobreza, assim como a garantia de proteção social para as populações, são pilares essenciais. Ele considerou uma profunda injustiça que as maiores vítimas da crise climática sejam justamente aquelas que menos contribuíram para a sua deflagração.

O presidente brasileiro compartilhou que, durante a COP30, o Brasil lançou a Declaração de Belém sobre Fome, Pobreza e Ação Climática Centrada nas Pessoas. Esta iniciativa reforça três compromissos fundamentais: fortalecer a proteção social, apoiar pequenos produtores e assegurar alternativas de vida sustentáveis para as comunidades que habitam as florestas, reconhecendo o seu papel vital na conservação ambiental.

Lula também sugeriu que o G20 pode contribuir para a proteção das cadeias alimentares globais através de medidas como compras públicas e seguros rurais, promovendo a segurança alimentar em escala global.

Defesa do Crescimento Inclusivo e Combate à Desigualdade

Em uma sessão anterior da cúpula de líderes, dedicada ao crescimento econômico sustentável e inclusivo, o presidente Lula reiterou a defesa da taxação de super-ricos e a proposta de troca de dívidas de países mais pobres por investimentos em desenvolvimento e ações climáticas consistentes. A visão é de que a dívida, muitas vezes impagável, pode ser convertida em um motor para progresso e sustentabilidade.

O presidente declarou que “está na hora de declarar a desigualdade uma emergência global” e de reestruturar as regras e instituições que perpetuam as assimetrias econômicas e sociais. Ele apoiou a proposta da África do Sul para a criação de um Painel Independente sobre Desigualdade, inspirado no modelo do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima e endossado pelo economista Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel.

Lula afirmou que essa iniciativa será crucial para recolocar nos trilhos a implementação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030. Sem financiamento adequado, a Agenda 2030 corre o risco de não passar de um conjunto de “boas intenções”, destacou, ressaltando a urgência de recursos para transformar os objetivos em realidade.

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Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br

O G20, fundado em 1999 após a crise financeira asiática, consolidou-se como o principal fórum para cooperação econômica internacional. A partir de 2008, evoluiu para uma instância política com a realização de cúpulas de chefes de Estado e de governo, tornando-se um ator fundamental na governança global.

Em 2025, a África do Sul assume a presidência do G20 sob o lema “Solidariedade, Igualdade e Sustentabilidade”. As prioridades definidas incluem: o fortalecimento da resiliência e capacidade de resposta a desastres; a sustentabilidade da dívida pública de países de baixa renda; o financiamento para uma transição energética justa; e o papel dos minerais críticos como impulsionadores de desenvolvimento e crescimento econômico.

A presidência sul-africana marcará o encerramento de um ciclo em que todos os países membros terão tido a oportunidade de exercer a liderança do grupo, promovendo uma rotação equitativa entre as nações.

Lula, que participou da primeira cúpula de líderes em 2008, teceu críticas ao protecionismo crescente e defendeu o multilateralismo como a via mais eficaz para a resolução de desafios globais. Ele relembrou que intervenções oportunas e a coordenação entre economias desenvolvidas e emergentes foram essenciais para evitar um colapso de proporções catastróficas em crises passadas. No entanto, a resposta internacional foi “incompleta” e gerou “efeitos colaterais” que ainda persistem.

O presidente lamentou que o mundo tenha enveredado por uma trajetória que repetia a receita de austeridade, aprofundando desigualdades e ampliando tensões geopolíticas. Agora, o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como “respostas fáceis e falaciosas” para a complexidade da realidade atual, afirmou, instando a uma abordagem mais cooperativa e integrada.

Agenda Bilateral e Futuros Compromissos

Lula desembarcou em Joanesburgo na sexta-feira, dia 21, e manteve uma reunião bilateral com o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, a quem felicitou pela condução da presidência do G20. Ramaphosa, por sua vez, elogiou a realização da COP30, destacando em especial o forte componente de participação social que o evento prometia.

Ambos os líderes concordaram que os êxitos alcançados na COP30, em Belém, e na Cúpula do G20, em Joanesburgo, representam ativos cruciais para o fortalecimento do multilateralismo, conforme comunicado divulgado pelo Palácio do Planalto.

Na esfera bilateral, Lula estendeu um convite a Ramaphosa para uma visita de Estado ao Brasil no início de 2026. A ocasião deverá incluir a promoção de um seminário empresarial. Os dois líderes reconheceram que a balança comercial entre Brasil e África do Sul não reflete o potencial de suas economias e avaliaram a possibilidade de negociações para expandir o acordo existente entre o Mercosul e a União Aduaneira da África Austral (SACU).

O presidente sul-africano também manifestou interesse em aprofundar seu conhecimento sobre as políticas brasileiras de inclusão social e de promoção da segurança alimentar, buscando possíveis aprendizados para seu próprio país.

Neste domingo, dia 23, o presidente Lula permanece em Joanesburgo para participar de mais uma sessão do G20, que abordará temas como minerais críticos, trabalho decente e inteligência artificial. À margem da cúpula, está agendada uma reunião entre os líderes do Fórum de Diálogo Índia-Brasil-África do Sul (Ibas), uma iniciativa trilateral estabelecida em 2003 para fomentar a cooperação entre países do Sul Global.

Na sequência, o presidente brasileiro seguirá para Maputo, capital de Moçambique, para uma visita de trabalho na segunda-feira, dia 24. Esta viagem celebra os 50 anos das relações diplomáticas entre os dois países, com o retorno de Lula ao Brasil previsto para o mesmo dia.

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A participação do presidente Lula no G20 reafirmou o compromisso do Brasil com a promoção da transição energética, a construção de resiliência climática e a luta por um crescimento econômico mais justo e inclusivo. As discussões em Joanesburgo reforçaram a necessidade de cooperação global para enfrentar os desafios mais prementes da nossa era. Continue acompanhando nossa editoria de Política para mais análises e atualizações sobre os rumos da diplomacia brasileira e internacional.

Ricardo Stuckert/PR