Lulinha investigado novamente. O empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido popularmente como Lulinha, volta ao centro das atenções políticas e investigativas duas décadas após suas primeiras menções no cenário nacional, durante o primeiro mandato de seu pai, o presidente Lula (PT). Ele se tornou alvo de três novos inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), desdobramentos do escândalo do INSS.
As recentes apurações focam na possível ligação de Lulinha com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, apelidado de Careca do INSS. Dois dos casos estão sob a relatoria do ministro André Mendonça na corte, enquanto o terceiro foi sorteado para o ministro Flávio Dino, evidenciando a seriedade e abrangência das novas frentes investigativas que buscam esclarecer a extensão do envolvimento do filho do presidente em esquemas ilícitos. Essas investigações renovam o debate sobre a trajetória de Fábio Luís no ambiente político-empresarial do país.
Lulinha Investigado: Histórico de Apurações Sem Condenação
Apesar da recente intensificação, Fábio Luís já havia sido previamente investigado em etapas da Operação Lava Jato, embora essas apurações nunca tivessem culminado em um processo judicial formal contra ele. A história de Lulinha é marcada por uma série de inquéritos e boatos, muitos dos quais, segundo pessoas próximas, distorcem sua imagem e trajetória. Alegações infundadas, como a de que seria proprietário de grandes conglomerados empresariais, têm sido recorrentes nos últimos anos, gerando um ciclo de desinformação que o acompanha há tempos.
Histórico de Investigações Anteriores
A trajetória de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, tem sido frequentemente escrutinada por diversas investigações ao longo dos anos. Ele esteve no foco de apurações que englobaram desde relações comerciais com grandes empresas de telecomunicações até a suposta participação em esquemas de corrupção de alto nível, como a Operação Lava Jato e a CPI dos Correios. Em nenhum desses momentos, contudo, as investigações resultaram em condenações ou na sua formalização como réu em processos criminais. Essa recorrência de inquéritos, sem desfechos judiciais condenatórios, desenha um perfil complexo de um indivíduo constantemente sob o microscópio público e judicial, mas que sempre conseguiu provar sua inocência ou a ausência de elementos suficientes para incriminá-lo.
Envolvimento com Telemar e Gamecorp
Em janeiro de 2005, a produtora Gamecorp, que contava com Fábio Luís entre seus sócios, recebeu um investimento de R$ 5 milhões da Telemar, atualmente conhecida como Oi. A Gamecorp era especializada na produção de programas televisivos sobre videogames, veiculados em canais como Bandeirantes e MixTV. A Telemar, na época, detalhou que metade do montante foi destinado à aquisição de 35% das ações da produtora, enquanto a outra metade correspondia à exclusividade do conteúdo gerado. De acordo com a DBO Trevisan, consultoria contratada pela Gamecorp para atrair investidores, um acordo de confidencialidade impedia a Telemar de conhecer a identidade dos sócios da empresa no momento da transação.
A CPI dos Correios e a Gamecorp
A relação comercial entre a Telemar e a Gamecorp rapidamente atraiu a atenção da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios, estabelecida em 2005 para investigar casos de corrupção em estatais, focando inicialmente nos Correios. Essa mesma CPI se aprofundou no esquema do mensalão, considerado o principal escândalo político do primeiro mandato do ex-presidente Lula. O ponto de partida para a instauração da comissão foi a divulgação de um vídeo onde Maurício Marinho, um funcionário dos Correios, discutia propina e mencionava o apoio de Roberto Jefferson (PTB-RJ), que dias depois revelaria à Folha o esquema de pagamentos a aliados. As transferências da Telemar para a Gamecorp foram objeto de análise da comissão, especialmente porque a Telemar era uma concessionária de serviços públicos e o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) detinha 25% de uma holding com participação na atual Oi, além de fundos públicos de pensão também investirem na empresa de telefonia. Opositores de Lula na época, como o então senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), criticaram a ascensão financeira de Lulinha, que antes do negócio com a Telemar, aos 30 anos, trabalhava em um zoológico. “Alguém com [salário de] R$ 600 num jardim zoológico passa a acumular uma pequena ou grande fortuna a partir do acordo que fez”, declarou Virgílio em 2006. Contudo, o nome de Fábio Luís não foi incluído no relatório final da CPI, embora investigações posteriores revisitassem os mesmos fatos.
Inquéritos do MPF sobre a Gamecorp
O Ministério Público Federal (MPF) iniciou a investigação sobre o caso Gamecorp em 2005. Durante essa fase, não foram colhidos depoimentos dos envolvidos. Em vez disso, foram enviados ofícios com solicitações de informações à Telemar e ao BNDES, buscando esclarecimentos sobre se as instituições tinham conhecimento de que o filho do então presidente Lula era sócio da Gamecorp. Em uma entrevista concedida à Folha em 2006, o presidente Lula defendeu seu filho, afirmando que ele e seus sócios haviam “feito um negócio que deu certo” e comparando a situação à sorte de um “Ronaldinho”. Sete anos mais tarde, em 2012, o MPF arquivou as investigações alegando falta de provas. O procurador Marcus Goulart justificou a decisão, explicando que “todas essas ilações podem convencer os leigos, mas são absolutamente insuficientes para levar o operador do direito a tomar uma decisão”. A defesa de Lulinha, na época, reiterou que não existia “impedimento legal” para sua participação na sociedade.
Atingido pela Operação Lava Jato
Anos depois, Fábio Luís, assim como seu pai e irmãos, foi alvo de mandados de busca na 24ª fase da Operação Lava Jato, deflagrada em 2016. Naquele período, a força-tarefa estava aprofundando as investigações sobre as relações do ex-presidente Lula com grandes empreiteiras. Um laudo pericial da Polícia Federal, divulgado no mesmo ano, apontou que financiadores haviam injetado R$ 103 milhões na Gamecorp. As empresas Oi Móvel e Telemar Internet foram identificadas como responsáveis por R$ 82 milhões desse total, conforme os investigadores. Outros R$ 6 milhões foram repassados pelo Grupo Petrópolis, proprietário da marca Itaipava, para a empresa do filho do então petista. O documento da PF também indicava recebimentos por outras duas empresas de Fábio Luís, embora, naquela altura, o relatório ainda não apresentasse conclusões ou encaminhamentos definitivos. A Oi, por sua vez, declarou na ocasião que contratava a Gamecorp para a prestação de serviços de produção do canal que transmitia a programação da Oi TV, além dos direitos de transmissão do canal PlayTV. Para compreender o escopo da histórica Operação Lava Jato, é fundamental analisar seus desdobramentos e impactos.
Desdobramentos na Operação Mapa da Mina
Em dezembro de 2019, a 69ª fase da Lava Jato, denominada Operação Mapa da Mina, reacendeu as apurações sobre os repasses de empresas de telefonia. A Polícia Federal chegou a solicitar a prisão de Lulinha, pedido que foi negado pela juíza federal Gabriela Hardt. A principal suspeita da PF era de que os recursos pagos pelas empresas poderiam ter sido utilizados na aquisição do sítio em Atibaia (SP), frequentado pela família do então ex-presidente Lula. Segundo os investigadores da época, a Oi teria transferido R$ 132 milhões para empresas de Lulinha e de seu sócio Jonas Suassuna, enquanto a Vivo teria repassado aproximadamente R$ 40 milhões. Suassuna, além de sócio, era proprietário de um dos terrenos da propriedade em Atibaia. O inquérito também mencionava um apartamento avaliado em R$ 3 milhões que teria sido comprado e mobiliado por ele para uso da família Lula. Em fevereiro de 2020, Suassuna vendeu sua participação na empresa de mídia, e em maio do mesmo ano, Fábio Luís se retirou da sociedade. As investigações foram arquivadas em 2022, após o Supremo Tribunal Federal reconhecer a suspeição do ex-juiz Sergio Moro em 2021, o que levou à anulação de provas que fundamentavam as apurações. A defesa do filho do presidente afirmou, na época, que a equipe da Lava Jato estava “requentando um caso já arquivado” e que a vida de Lulinha já havia sido “devassada por anos a fio”. Os demais envolvidos sempre negaram qualquer irregularidade.
Novas Apurações no Escândalo do INSS
A Operação Sem Desconto, deflagrada em 2025 com o objetivo de investigar desvios em pagamentos a aposentados, gerou um novo foco de desgaste para o presidente Lula devido à suspeita de envolvimento de seu filho, Fábio Luís, com o lobista conhecido como Careca do INSS. A empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, já confirmou à Polícia Federal que o apresentou ao lobista. A defesa de Fábio Luís também informou à Justiça que Careca custeou uma viagem de Lulinha a Portugal para que ele pudesse conhecer a produção de cannabis medicinal. O lobista, que está preso desde o ano passado, é considerado o principal operador do suposto esquema de fraudes nas aposentadorias. Os sigilos bancário e fiscal de Lulinha foram quebrados tanto pelo STF, a pedido da Polícia Federal, quanto pela CPI mista do INSS em fevereiro. Trechos dos dados sigilosos, encaminhados pela PF à CPI, revelam que em quatro anos Lulinha recebeu pouco mais de R$ 9,7 milhões em suas contas e repassou um valor equivalente, totalizando R$ 19,5 milhões em transações. O vazamento desses dados foi, na ocasião, interpretado pela defesa como “revelador e tranquilizador”, por não indicar repasses de Careca ou Roberta, que também nega qualquer irregularidade. Nos últimos dias, o filho de Lula passou a ser investigado em três inquéritos abertos a pedido da PF e autorizados pelo STF. O primeiro inquérito, autorizado pelo ministro André Mendonça na quinta-feira (30), apura se Lulinha cometeu crimes de corrupção e tráfico de influência em uma possível negociação com o Ministério da Saúde para autorizar a comercialização de cannabis medicinal, caso em que seus advogados alegam motivação política. O segundo inquérito, também autorizado por Mendonça na sexta-feira (31), investiga a atuação do filho do presidente junto à Dataprev (Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência), vinculada ao Ministério da Gestão e Inovação, para beneficiar um empresário e prospectar contratos. A terceira investigação, definida por sorteio, ficou sob responsabilidade do ministro Flávio Dino e foca em possíveis vazamentos ilegais de dados sigilosos e tráfico de influência. Em todos os inquéritos, a defesa de Lulinha reafirma a ausência de irregularidades e a certeza de que sua inocência será comprovada. Recentemente, o presidente Lula declarou que seu filho não terá privilégios e que não tentará protegê-lo.
Desmistificando Boatos e Fatos Recentes
Após anos das primeiras menções a Lulinha em debates políticos, o filho do presidente tornou-se protagonista de uma série de notícias falsas disseminadas em redes sociais e aplicativos de mensagens. Em 2022, o projeto Comprova desmentiu um vídeo que falsamente atribuía a Lulinha um “embarque gigante” em uma fazenda em São Félix do Xingu, no Pará. A Agência Lupa, em 2023, alertou para a recirculação de postagens que afirmavam, incorretamente, que Fábio Luís seria sócio majoritário da Petrobras, JBS e Oi. Segundo a agência de checagem, o boato relacionado à JBS circula desde 2015. Avesso a aparições públicas, o filho do presidente mudou-se para a Espanha em 2025. Em março deste ano, a Folha noticiou que ele abriu uma empresa no país europeu. A defesa de Lulinha informou na ocasião que a empresa cumpre todas as exigências legais e foi formalizada com vistas a futuros projetos do filho do presidente.
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As recorrentes investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, mostram um padrão de apurações que, embora midiáticas e politicamente sensíveis, não resultaram em condenações. A cada novo inquérito, como os atuais desdobramentos do escândalo do INSS, a trajetória do filho do presidente é novamente posta em evidência, exigindo clareza e transparência dos fatos para combater a desinformação. Para se manter atualizado sobre os desdobramentos desses e outros temas relevantes no cenário político brasileiro, convidamos você a explorar mais notícias da editoria de Política em nosso portal.
Crédito da imagem: Greg Salibian – 31.mai.10/Folhapress






