A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, trouxe à tona um debate crucial sobre as falhas da democracia brasileira na superação da desumanização. Em um evento realizado em Brasília nesta quinta-feira (30), que marcou o lançamento e a discussão da obra literária “A Palavra e o Poder”, a política expressou sua preocupação com a incapacidade do sistema em erradicar o que o sociólogo Darcy Ribeiro cunhou como “ninguentude”. A reflexão de Silva destaca a urgência de um compromisso social mais profundo para assegurar a plena humanidade de todos os cidadãos, mesmo sob a égide de um regime democrático.
Durante sua intervenção, a ministra do Meio Ambiente argumentou que a natureza intrínseca da democracia é a sua instabilidade, uma característica que a torna um sistema em constante evolução. Contudo, ela enfatizou que, no contexto brasileiro, o modelo democrático não conseguiu transcender a desumanização. Marina Silva referiu-se ao período da Nova República, sugerindo que este ciclo não concretizou a promessa de um pacto majoritário que rejeitasse veementemente qualquer forma de “ninguentude”, termo que evoca a marginalização e a invisibilidade social. Segundo a ministra, conquistas mais amplas estariam condicionadas a uma transformação fundamental na mentalidade coletiva e nas estruturas sociais do país.
Marina Silva: Democracia não superou a desumanização
O evento que sediou essas discussões foi um debate mediado pelo professor e colunista Rodrigo Tavares, um dos organizadores do livro “A Palavra e o Poder”. A obra, concebida em colaboração com os jornalistas Flávia Lima e Naief Haddad, constitui uma coletânea significativa. Ela reúne 40 artigos publicados no jornal Folha ao longo dos 40 anos de vigência da democracia no Brasil, complementados por outros 40 artigos de comentário, oferecendo uma perspectiva multifacetada sobre a jornada democrática do país.
Além da presença da ministra Marina Silva, o painel de debatedores contou com a participação de outras vozes relevantes. Dentre elas, destacam-se Ana Flavia Magalhães Pinto, professora do departamento de história da Universidade de Brasília (UnB); Marcos Terena, uma proeminente liderança indígena; e Vinicius Mota, secretário de Redação da Folha. Cada participante trouxe uma perspectiva singular, enriquecendo o diálogo sobre os desafios e avanços da democracia brasileira em seus quarenta anos de existência.
Marcos Terena, em sua fala, sublinhou a persistente dificuldade enfrentada pelo Estado brasileiro na efetivação da demarcação dos territórios indígenas. Ele atribuiu esse entrave principalmente à ausência de uma escuta genuína por parte das instituições. “A Nova República”, afirmou Terena, “não dedicou o tempo necessário para dialogar conosco e, por consequência, não assumiu a responsabilidade devida sobre esta questão fundamental.” A declaração ressalta a lacuna entre as promessas democráticas e a realidade vivida pelas comunidades indígenas.
Ana Flávia Magalhães Pinto, por sua vez, recordou um episódio recente e trágico: uma operação policial no Rio de Janeiro que, visando o combate ao tráfico de drogas, resultou na morte de 121 pessoas nesta terça-feira (28). Este evento se tornou a operação mais letal na história do país, lançando uma sombra sobre os avanços democráticos. A professora da UnB questionou a viabilidade de se afirmar que o país vive plenamente uma democracia quando uma parcela considerável da população brasileira não tem sequer suas condições básicas de humanidade garantidas, provocando uma reflexão profunda sobre a segurança pública e os direitos fundamentais em um regime democrático.
O contraponto veio de Vinicius Mota, secretário de Redação da Folha, que ofereceu uma visão distinta sobre os resultados da Nova República. Mota argumentou que, em sua avaliação, o período entregou o que estava ao seu alcance: um instrumento vital para o autogoverno da sociedade. “Na democracia, somos nós que temos que nos organizar para fazer as coisas andarem”, declarou, enfatizando a responsabilidade cidadã. Ele reconheceu a urgência de aspirações como a demarcação de terras indígenas e o fim da truculência policial, admitindo que seria ideal que essas questões não estivessem em debate quarenta anos após o início da democracia. No entanto, Mota defendeu que as leis brasileiras são plenamente passíveis de reforma, indicando que a solução reside na capacidade da sociedade de atuar e transformar o ordenamento jurídico.
Outras pautas: COP30 e desafios climáticos
A ministra do Meio Ambiente também abordou outros tópicos de relevância global, como a próxima conferência do clima da ONU, a COP30, agendada para novembro, em Belém do Pará. Marina Silva explicou que, além de traçar um roteiro para a implementação de decisões acordadas em edições anteriores, a conferência deverá focar nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), que são as metas nacionais de redução de emissões de gases de efeito estufa. A ministra expressou preocupação, afirmando que, até o momento, pouco mais de 60 países apresentaram suas NDCs e que, “provavelmente, elas não estarão alinhadas com a meta [de não aquecimento da terra acima] de 1,5 C”. Ela reforçou que, para além dos temas mandatórios, “não tem como não endereçar as NDCs insuficientes”, sublinhando a necessidade de ações mais ambiciosas para combater as mudanças climáticas.
Em um desdobramento relacionado à organização da COP30, Marina Silva relatou um problema que classificou como uma “extorsão” nos preços das acomodações na capital paraense. A ministra detalhou que, enquanto o aumento habitual em eventos de grande porte é de, no máximo, cinco vezes o valor original, no Pará, a elevação chegou a quinze vezes. Ela assegurou que tanto o governo federal quanto o estadual mobilizaram todos os recursos disponíveis para solucionar a questão dentro dos parâmetros legais, mas admitiu que os mecanismos jurídicos e administrativos existentes não possuem a agilidade necessária para lidar com a rapidez da especulação de preços. A situação destaca os desafios logísticos e éticos na preparação de eventos de magnitude internacional.
Esses debates evidenciam que, apesar dos avanços democráticos, o Brasil ainda enfrenta desafios significativos em diversas frentes, desde a garantia dos direitos humanos e a dignidade de sua população até a formulação de políticas eficazes para a proteção ambiental e a organização de eventos internacionais. A busca por uma democracia mais justa e inclusiva, que de fato supere a desumanização, continua sendo uma pauta central no cenário político e social do país. Para mais informações sobre o engajamento do Brasil com a democracia e os direitos humanos, consulte as notícias recentes do governo federal.
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A discussão promovida por Marina Silva e os demais participantes do debate “A Palavra e o Poder” reforça a complexidade dos temas que permeiam a sociedade brasileira contemporânea. Desde a visão de Darcy Ribeiro sobre a “ninguentude” até os desafios da COP30, a necessidade de um olhar crítico e propositivo para o futuro da nação é inegável. Continue acompanhando as análises e notícias sobre os rumos do país em nossa editoria de Política.
Crédito da imagem: Pedro Ladeira/Folhapress






