rss featured 12469 1764456700

Mestre Negoativo celebra história negra mineira no Sonora Brasil

Últimas notícias

Na noite da última sexta-feira, 28 de novembro de 2025, o público presente no Sesc Caborê, em Paraty, foi agraciado com uma apresentação marcante de Mestre Negoativo e sua banda. O evento, que marcou o encerramento da 27ª edição do festival Sonora Brasil, destacou a rica e, muitas vezes, silenciada história da população negra na formação e desenvolvimento de Minas Gerais.

O espetáculo do artista mineiro vai além da simples performance musical; ele se configura como um resgate e uma homenagem à ‘Minas Gerais preta’. Conforme explicitado por Mestre Negoativo em entrevista à Agência Brasil, sua arte visa trazer à tona essa narrativa essencial. “Esse espetáculo faz o caminho dessa Minas Gerais preta, que existe também. Ela só não é mostrada. A minha geração está trazendo o despertar para as outras gerações que estão chegando agora para eles entenderem isso e começarem a assumir e falar da nossa afro-mineiridade”, declarou o músico, enfatizando a importância de reconhecer e celebrar essa identidade cultural.

Mestre Negoativo celebra história negra mineira no Sonora Brasil

Durante a performance, Mestre Negoativo abordou temas de profunda relevância, como a persistência da violência contra o povo negro nos dias atuais, a resiliência manifestada através da arte e a exaltação da ancestralidade. Suas canções, interpretadas com a potência das vozes e dos instrumentos, e suas interações diretas com a plateia trouxeram à memória o trabalho forçado imposto aos escravizados, com especial foco nas atividades de garimpo, que foram centrais na economia colonial mineira e brasileira.

A força dos quilombos, comunidades que desempenham um papel crucial na preservação da cultura e dos conhecimentos tradicionais da população negra no Brasil, foi outro ponto alto da apresentação. Mestre Negoativo descreveu seu show como um “movimento sankofa”, uma prática africana de retorno às raízes e àquilo que verdadeiramente pertence à comunidade negra global. “Como se fosse um regresso, a gente acessar o que nos pertence de fato. Enquanto um afro-brasileiro, afro-mineiro, eu também estou fazendo esse regresso”, afirmou, sublinhando a jornada pessoal e coletiva de redescoberta e afirmação.

A paixão de Negoativo por compartilhar essa “afro-mineiridade” é um projeto de anos, movido pela crença na necessidade de se reaproximar da própria herança. O músico expressou gratidão por ter crescido em meio a uma cultura tão rica, convivendo com suas avós e sua mãe, pessoas de quilombos, onde essa tradição sempre esteve presente. Essa vivência profunda com seus ancestrais e suas histórias foi uma fonte constante de inspiração, refletida nas diversas referências em suas canções e falas durante o espetáculo.

O berimbau, instrumento emblemático e com forte presença no show, foi o portal que despertou Mestre Negoativo para o universo da música. Para ele, o arco não é apenas um instrumento, mas uma “ponte ancestral” que o conectou diretamente ao continente africano. “Eu [comecei] por meio do arco, do berimbau de barriga, que escutei quando criança. Passou um cara na rua tocando, eu ouvi aquele instrumento e ali logo eu já acessei a África. E, por meio do berimbau, eu conheci a capoeira”, narrou, demonstrando a profundidade de sua conexão cultural e espiritual com a música.

Todas as manifestações afro-mineiras, como moçambique, candombe, vissungo, congo e catopês, estão profundamente enraizadas no DNA de Mestre Negoativo. Além dessas ricas tradições locais, o músico também destacou a influência de dois ícones da música mundial: James Brown e Bob Marley. Segundo Negoativo, ambos foram “socialmente, racialmente, politicamente, fundamentais” em sua formação artística e pessoal, evidenciando a pluralidade de suas referências e a amplitude de sua visão de mundo.

A edição do Sonora Brasil no biênio 2024-2025 tem percorrido o país, promovendo encontros de artistas e grupos que celebram a diversidade musical brasileira. A iniciativa do Sesc contou com uma curadoria que selecionou dez formações artísticas, as quais realizaram mais de 300 shows em aproximadamente 70 cidades. Esses espetáculos inéditos, repletos de referências, estilos e instrumentos variados, proporcionam uma rica imersão na cultura popular brasileira. Em Paraty, no Sonora Brasil, o encontro original de Mestre Negoativo seria com Douglas Din, ambos representando a música regional mineira. Juntos, eles viajaram pelo país com os shows do projeto. No entanto, Douglas Din não pôde participar da apresentação final no Sesc Caborê devido a problemas de saúde. Mestre Negoativo descreveu a parceria com Din como um “encontro diaspórico de gerações”, onde ele, com sua base nas manifestações pretas de Minas Gerais, se uniu a Din, oriundo do hip-hop e do rap, resultando em uma troca de aprendizados mutuamente enriquecedora.

O festival Sonora Brasil continua com sua programação de despedida neste fim de semana. Na noite deste sábado, 29 de novembro de 2025, às 19h, o Sesc Caborê receberá Geraldo Espíndola & Marcelo Loureiro, que apresentarão ritmos vibrantes do Mato Grosso do Sul. No domingo, 30 de novembro de 2025, Manoel Cordeiro & Felipe Cordeiro trarão a essência musical do Pará para o mesmo palco. Na sequência, a banda Mundiá, de Paraty, fará um show especial com a participação de Manoel Cordeiro, encerrando a temporada de performances que valorizam a diversidade e a riqueza da cultura brasileira.

A celebração da cultura e da história negra por meio da música de Mestre Negoativo em Paraty é um exemplo vibrante da potência da arte para resgatar memórias e fortalecer identidades. Para entender mais sobre a importância da preservação da cultura e dos conhecimentos tradicionais, especialmente em comunidades como os quilombos, que são pilares da herança afro-brasileira, você pode consultar o trabalho do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos

Em suma, a apresentação de Mestre Negoativo no Sonora Brasil não foi apenas um show, mas um convite à reflexão sobre a afro-mineiridade e a resistência cultural. O evento reforça o papel fundamental da música como ferramenta de memória e celebração da ancestralidade negra no Brasil. Continue acompanhando a cobertura cultural em nossa editoria de Análises para se aprofundar em temas relevantes para a sociedade e a cultura brasileira.

Crédito da imagem: Agência Brasil

Deixe um comentário