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Musical ‘Gil – Andar com Fé’ celebra vida e obra de Gilberto Gil

Economia

Um novo musical sobre Gilberto Gil, intitulado “Gil – Andar com Fé”, prepara-se para encantar o público, mergulhando na rica trajetória de um dos maiores ícones da música brasileira. A produção, que tem estreia marcada para o dia 20 no prestigiado Teatro Santander, em São Paulo, promete uma viagem pelas memórias, ritmos e mensagens que moldaram a identidade cultural do país. Com um elenco robusto de 34 artistas, o espetáculo visa recuperar não apenas a biografia, mas a essência criativa que faz de Gilberto Gil um artista fundamental.

A concepção e direção de Miguel Falabella para este espetáculo, que conta com a colaboração de Bárbara Guerra na direção, baseia-se em um profundo processo de busca por um conceito central. Falabella, conhecido por sua capacidade de infundir simbologias profundas em suas obras, aplicou método semelhante a projetos anteriores. Em “O Homem de La Mancha” (2014), o delírio messiânico de Arthur Bispo do Rosário substituiu a Inquisição Espanhola por um hospício brasileiro dos anos 50. Já em “Elvis – A Musical Revolution” (2024), as escadas infinitas dos quadros do holandês M.C. Escher traduziram a sensação de confinamento vivida pelo protagonista. Para a jornada de Gilberto Gil, a musa inspiradora emergiu da arte de Lygia Clark (1920-1988).

Ao encontrar a reprodução de uma escultura de Lygia Clark, Falabella percebeu o fio condutor ideal para a narrativa do show. A artista plástica foi uma pioneira ao transformar o espectador em participante ativo de suas criações geométricas maleáveis, uma ideia que se alinha perfeitamente com a proposta de “Gil – Andar com Fé”.

Musical ‘Gil – Andar com Fé’ celebra vida e obra de Gilberto Gil

Essa abordagem permitiu que a cenógrafa Natália Lana desenvolvesse um cenário com espaços cênicos fluidos, permitindo transições orgânicas entre diferentes memórias e épocas, espelhando a maleabilidade das esculturas de Clark. Assim, a movimentação de rampas transporta a plateia do sertão de Ituaçu, na Bahia, para a Londres do período de exílio de Gilberto Gil, simbolizando a expansão e metamorfose que, segundo o intérprete de Gil, são os fios condutores da vida do cantor.

A Geração que Abriu Caminhos e Influenciou a Cultura Brasileira

A produtora Bárbara Guerra destaca que o espetáculo é um mergulho em uma era revolucionária que impactou profundamente a cultura em diversos setores. A produção presta homenagem não apenas a Gilberto Gil, mas também à geração de artistas que, como ele e Caetano Veloso, abriram portas e apontaram caminhos cruciais, especialmente durante os anos 1960. Em um cenário global contemporâneo marcado por escolhas e morais questionáveis, a lembrança desses homens que “brigaram e se colocaram na linha de frente”, especialmente durante a ditadura militar, torna-se ainda mais relevante. Para reforçar essa ambientação artística, o cenário reproduz uma obra do pintor e escultor Hélio Oiticica (1937-1980) e homenageia o cenógrafo Hélio Eichbauer (1941-2018), figuras centrais do movimento da Tropicália, cujo impacto na cultura nacional é estudado e celebrado até hoje, conforme detalhado no portal do Itaú Cultural.

Os cenários, distantes do realismo, são concebidos como peças artísticas que trazem uma ambientação rica e fornecem o suporte necessário para a narrativa fluida do musical. Escrita por Newton Moreno, a trama de “Gil – Andar com Fé” se desdobra ao longo de décadas, percorrendo a infância de Gilberto Gil em Ituaçu, sua formação musical, o florescimento da Tropicália, o período de prisão, o exílio em Londres, o retorno ao Brasil e, finalmente, a consagração de uma obra que transcende gerações. Episódios emblemáticos como o show de despedida “Barra 69”, que antecedeu sua partida forçada do país, são revisitados, buscando apresentar as múltiplas camadas de significado de sua vasta produção artística.

A Complexidade da Obra de Gilberto Gil e o Desafio da Interpretação

A década de 1960 foi um período efervescente para a música brasileira, quando uma linhagem singular de compositores-letristas e letristas transformou o conceito estético das letras de música, elevando-as ao status de poesia cantada e popular. Segundo o compositor e letrista Carlos Rennó, organizador do livro “Todas as Letras” (Companhia das Letras), Gilberto Gil se destaca como uma das figuras máximas dessa geração de artistas, mantendo-se como um dos músicos-poetas mais sensíveis e inventivos. Essa complexidade intrínseca à obra de Gil exigiu um trabalho minucioso na formação do elenco, com especial atenção à escolha do intérprete principal.

Mais de 800 candidatos participaram das audições para todos os papéis. Dentre os três finalistas para viver Gilberto Gil, o mineiro Gui Ventura foi o escolhido, não apenas pela notável semelhança física, mas principalmente pelo seu “malabarismo vocal” — a capacidade de reproduzir a grande agilidade rítmica de Gil, suas notas agudas arrojadas e o equilíbrio peculiar entre a cadência da fala e o canto popular que o caracterizam. A produtora Bárbara Guerra enfatiza que o critério primordial foi ser um músico talentoso e versátil; Gui Ventura demonstrou ser um instrumentista múltiplo, dominando cavaquinho, violão e guitarra, além de ter aprendido a tocar sanfona com notável rapidez. Sua voz, surpreendentemente similar à de Gil, já o impulsionava a desejar interpretar o ícone baiano.

O Processo de Escolha do Elenco e a Essência dos Personagens

A semelhança vocal e a musicalidade de Ventura permitiram sua participação em um show de homenagem à Tropicália em Portugal, um prenúncio de seu papel no musical. Para encarnar Gil, Ventura explica seu processo: “Busquei primeiro as interseções entre minha personalidade e a dele. Depois foi o mergulho para ficar impregnado de gestos, ritmos e melodia, porque Gil é um cara muito musical, até na fala”. Para Gui, as palavras “expansão” e “metamorfose” são os verdadeiros “fios condutores da vida de Gil”.

Musical ‘Gil – Andar com Fé’ celebra vida e obra de Gilberto Gil - Imagem do artigo original

Imagem: valor.globo.com

A escolha de Henrique Zamith como intérprete de Caetano Veloso seguiu critérios específicos, visando a formação de uma dupla coesa com Gil. Zamith descreve a delicadeza do trabalho, que busca retratar figuras com fases muito distintas em seus momentos mais pertinentes. O maior desafio de viver Caetano, segundo o ator, reside em equilibrar sua inata tranquilidade com sua militância ativa: “Gil era o cara que assentava as situações com sua positividade, enquanto Caetano sempre bateu de frente”.

Além da icônica dupla, uma figura fictícia, o Tempo-Rei, interpretado por Guga Barbosa, conduz a narrativa. Essa entidade mítica guia Gilberto Gil por sua própria história, encarnando, em diferentes momentos, figuras lendárias da música brasileira como Luiz Gonzaga e João Gilberto, enriquecendo a trama com elementos de fabulação e reverência cultural.

A Imersão Musical e a Trilha Sonora Icônica

A trilha sonora do musical é um dos pilares da produção, apresentando uma lista variada de canções que emergem como elementos dramatúrgicos essenciais. Músicas icônicas como “Eu vim da Bahia”, “Aquele abraço”, “Domingo no parque”, “London, London”, “Tempo-Rei”, “Se eu quiser falar com Deus”, “Drão”, “Vamos fugir” e “Realce” são cuidadosamente inseridas na narrativa. O diretor musical Thiago Gimenes ressalta a genialidade de Gilberto Gil como compositor e cantor: “Gil é um compositor e um cantor muito rítmico. Além de ser um letrista incrível, um pensador, ele exibe uma complexidade na música que é rara”.

A percussão atua como um elemento que costura as canções, refletindo a abordagem única de Gilberto Gil ao violão. O musical é estruturado a partir da maneira como ele toca, mesclando o acordeão de Luiz Gonzaga com o estilo inconfundível de João Gilberto. O resultado é um dedilhado muito específico e rítmico, onde Gil consegue emular, em um único instrumento, a percussão, o acordeão e outros elementos, criando uma sonoridade particular e rica que define sua obra.

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O musical “Gil – Andar com Fé” promete ser uma experiência imersiva e reveladora sobre a vida, a obra e o legado de Gilberto Gil, explorando as profundas metamorfoses e expansões de um artista que continua a inspirar gerações. Para mais notícias e análises sobre o universo artístico e personalidades que moldam nossa cultura, convidamos você a continuar explorando nossa editoria de Celebridade.

Foto: Gabriel Wickbold/Divulgação

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