A presença de um pai presente na vida de uma filha pode moldar sua personalidade e segurança de maneiras profundas e duradouras. É o que revela a jornalista e roteirista Mariliz Pereira Jorge, em um relato íntimo sobre a figura de seu pai. Diariamente, a comunicação entre pai e filha é ativa, com mensagens de bom dia e boa noite, além de ligações que, por vezes, servem para compartilhar informações sobre o dia a dia da mãe ou para comentar sobre o trabalho da filha.
Mariliz destaca a constância do afeto, mencionando o uso de apelidos de infância e declarações de amor, elementos que reforçam a presença paterna em todas as suas memórias, incluindo aquelas que, tradicionalmente, muitas pessoas associam apenas à figura materna. Este testemunho de Mariliz Pereira Jorge contrapõe-se à percepção comum, reiterando que a existência do “pai bacana” não é um mito, mas uma realidade vivenciada por ela, o que a fez refletir sobre as observações da psicanalista e colunista da Folha, Vera Iaconelli.
O Impacto do Pai Presente: Testemunho de Mariliz Pereira Jorge
A psicanalista Vera Iaconelli, em seus mais de trinta anos de pesquisa e coleta de depoimentos, aponta que pais como o de Mariliz são a “exceção que confirma a regra da ausência” paterna, uma repetição “notória” em um vasto corpo de estudos. Contudo, Mariliz Pereira Jorge não busca apenas validar a capacidade masculina de ser um bom pai, mas sim evidenciar o impacto singular de uma figura paterna verdadeiramente presente na trajetória de uma mulher, delineando as consequências positivas de tal envolvimento.
O pai de Mariliz esteve presente não apenas nos grandes eventos da vida, imortalizados em fotografias, mas também nos momentos mais triviais, que muitas vezes passam despercebidos na posteridade. Ele foi o guia que incutiu o amor pelos esportes, mas também o companheiro nas tarefas domésticas, lavando louça. Foi o cuidador que a levava e buscava na escola e na natação, e o vigilante que a esperava à porta de casa quando os horários combinados eram ultrapassados. Sua presença se estendeu desde a descoberta de cachoeiras até o apoio e cuidado durante seu primeiro porre, carregando-a nos braços.
Paternidade Ativa e o Desenvolvimento Feminino
A personalidade do pai de Mariliz é marcada pela calma, amor e otimismo, características que ela jamais viu serem substituídas por gritos. Em momentos de ansiedade, é a voz paterna que busca, não em busca de soluções prontas, mas do conforto e das análises com toque tragicômico que sempre terminam com a sentença de que “tudo vai dar certo”. O mantra “esfrie a cabeça”, repetido por ele, tornou-se uma lição valiosa aprendida na vida adulta sobre como abordar diversas situações. Seu senso de humor é tão marcante que, mesmo hoje, amigas de Mariliz, com mais de 50 anos, ainda se referem a ele com carinho como “tio Luiz”, relembrando as risadas proporcionadas na infância e juventude, o que demonstra que sua influência e presença se estenderam para além do círculo familiar imediato.
Em um período de separação dos pais que durou cerca de um ano, em um casamento que completará 55 anos em dezembro, Mariliz recorda ter se sentido traída e abandonada. Contudo, essa percepção se deu apenas em sua mente dramática e adolescente. O pai, apesar da ruptura conjugal, nunca se afastou ou negligenciou suas responsabilidades. Esse episódio crucial ensinou-lhe duas grandes lições: a conexão entre ela e seu pai transcendia a relação amorosa dele com sua mãe, e a clareza e grandeza de sua mãe foram fundamentais para que essa distinção fosse possível.
A criação recebida por Mariliz foi pautada pela ausência de proibições baseadas no gênero. Sendo um ano mais velha que seu irmão, desfrutou de certas regalias devido à idade, em um ambiente familiar onde as mulheres sempre desempenharam papéis centrais. Crescer livre de convenções de gênero e amarras culturais resultou em uma vida sem medos. Ela nunca foi instruída a falar baixo, ser suave, adotar “modos de menina”, ser “boazinha” ou sofrer em silêncio. Frases como “você não vai conseguir” ou “isso não é coisa de mulher” jamais fizeram parte de seu repertório infantil ou juvenil.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
A Paternidade Além das Expectativas Tradicionais
Ter seu pai como um ponto de referência sólido foi crucial para Mariliz desenvolver um repertório masculino saudável. Essa base permitiu-lhe transitar com facilidade no universo masculino, sem a necessidade de buscar autorização, carinho ou validação externa para sua existência. Essa segurança silenciosa se manifestou na liberdade de escolher seus relacionamentos, parceiros de trabalho e círculos sociais, sem nunca aceitar menos do que o respeito e o afeto que já possuía em seu lar. Reconhece, no entanto, que nem sempre evitou alguns percalços ao longo do caminho.
Mariliz não idealiza seu pai, reconhecendo que ninguém é perfeito. Apesar das promessas de visitas após o Natal, Carnaval ou inverno, a última vez que ele a visitou foi há uma década, sendo Mariliz quem geralmente faz o trajeto para os encontros. Ele evita viagens de avião e reclama da idade, mas sua saúde é notavelmente melhor que a da filha. Com um estilo de vida saudável — sem nunca ter bebido ou fumado, praticando exercícios, alimentando-se de forma regrada, dormindo cedo — ele é descrito como bom de conversa e um dedicado cuidador de sua mãe. Ele é, em suas palavras, um homem bacana.
Ao compartilhar sua história, Mariliz Pereira Jorge enfatiza que seu propósito não é se vangloriar de sua sorte, mas sim ilustrar que ela é, de fato, fruto das exceções mencionadas por Vera Iaconelli. Uma paternidade tão engajada não é um acaso, mas sim o resultado de uma escolha consciente, reflexo de uma geração de homens que, mesmo formados em contextos culturais distintos, decidiram abandonar o papel confortável do “pai decorativo” – isso quando a figura paterna sequer existia de forma atuante. A decisão de um homem em cuidar, ouvir, participar das tarefas domésticas, buscar os filhos na escola e apoiar a filha em momentos de ansiedade, revela a baixa régua de expectativas que historicamente se impôs à masculinidade em relação à criação dos filhos, e como a paternidade ativa redefine esse padrão.
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O relato de Mariliz Pereira Jorge oferece uma perspectiva poderosa sobre a importância da figura paterna presente e ativa, desmistificando a ideia de que o envolvimento do pai é um mero extra na educação dos filhos. A experiência da jornalista destaca como a dedicação e o carinho de um pai podem fundamentar a segurança e autonomia de uma mulher, incentivando uma reflexão sobre os papéis parentais na sociedade contemporânea. Para mais análises e opiniões sobre temas sociais relevantes, continue acompanhando a editoria de Análises em nosso portal.
Crédito da imagem: Mariliz Pereira Jorge com o pai, aos 7 anos – Arquivo pessoal
Crédito da imagem: Mariliz Pereira Jorge e o pai, Luiz Fernando – Arquivo pessoal







