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Projeto SUS na Floresta Amplia Atendimento no Amazonas

Saúde e Bem-estar

O Projeto SUS na Floresta está redefinindo o acesso à saúde para milhares de moradores de comunidades ribeirinhas no Amazonas. A iniciativa, que visa encurtar distâncias e garantir atendimento médico essencial, inaugurou recentemente dois novos pontos de apoio em Carauari, beneficiando diretamente 56 comunidades e aproximadamente 4,7 mil pessoas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari.

Até então, gestantes como Aldeniza Silva e Silva, da comunidade de Boa Vista, na RDS Uacari, em Carauari, enfrentavam uma verdadeira odisseia para conseguir uma consulta de pré-natal. Grávida de sete meses do quinto filho, Aldeniza precisava viajar por dois ou até três dias de rabeta – uma pequena embarcação – para alcançar a zona urbana do município. A dependência das condições do rio, que pode estar cheio ou seco, tornava a navegação ainda mais demorada e imprevisível. Em grande parte do interior amazônico, a ausência de rodovias faz com que os rios sejam a única via de deslocamento possível, isolando vastas populações da capital do estado, a mais de 1,6 mil quilômetros de distância fluvial.

Essa realidade, onde somente três consultas foram possíveis para Aldeniza, contrastando com o mínimo de seis recomendado pelo Ministério da Saúde, reflete a dura rotina de milhares de ribeirinhos em Carauari. A cidade, que conta com cerca de 28 mil habitantes conforme o IBGE, possui um extenso território rural com dezenas de comunidades isoladas, algumas a dias de distância da área urbana. A dificuldade e o custo do deslocamento eram barreiras intransponíveis, como relatou Maria Valkiane Freitas e Silva, da comunidade de Bauana, que gastava o equivalente a “duas ou três botijas de gás” (R$ 320 a R$ 480) apenas para retornar à sua comunidade após uma consulta. Com a chegada do

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, essa situação começa a mudar drasticamente.

A inauguração dos pontos de atendimento nas bases da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) em Campina e Bauana, ocorrida na última semana, representa um marco. Para Aldeniza, a distância para o atendimento agora é “só de uma praia”, uma mudança que permitiu a ela continuar seu pré-natal no posto de Campina e, inclusive, levar a filha de seis anos para uma consulta. A notícia da proximidade dos serviços de saúde já havia se espalhado, gerando expectativa. Cecília Bispo de Lima, da comunidade São Francisco, que uma vez adoeceu gravemente da coluna e quase não conseguiu chegar à cidade a tempo, comemorou a novidade: “Caso a gente adoeça, tem um meio melhor para a gente ser atendido porque é perto daqui. Não tem nem comparação de ir na cidade, que é muito longe.”

A estrutura implementada nos dois novos pontos é uma solução adaptada à realidade local, focada no suporte às equipes de saúde, na realização de atendimentos presenciais e na utilização da telessaúde. Cada unidade conta com consultórios para consultas presenciais e remotas, sala de triagem, consultório odontológico, conexão à internet e equipamentos específicos para telemedicina, além de áreas dedicadas à permanência das equipes de saúde. Todos os serviços são integrados ao Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo a universalidade do acesso.

O Projeto SUS na Floresta é fruto de uma parceria público-privada robusta, desenvolvida por meio de um edital do programa Juntos pela Saúde. A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) executa a iniciativa em colaboração com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umame, sob a gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e com apoio técnico da prefeitura de Carauari e da Secretaria do Meio Ambiente do Amazonas. Guilherme Sylos, diretor de prospecção e parcerias do IDIS, enfatizou que o objetivo primordial do projeto é fortalecer a estrutura do SUS, e não criar uma paralela. Os pontos de atendimento são implantados em parceria com as secretarias municipais de Saúde, e os profissionais são vinculados à rede pública e à Estratégia Saúde da Família.

A eficácia do projeto foi evidenciada nos primeiros dias de funcionamento. Em Campina, cinco chamadas para as ambulanchas de resgate foram evitadas. Entre os casos, está o de Thiago Freitas Andrade, da comunidade de Xibuauzinho, que pisou em uma tábua com pregos. Após uma semana de dores intensas, Thiago procurou o ponto de atendimento em Campina, onde foi prontamente atendido por enfermeiro e técnico em enfermagem. “Estava doendo muito, eu passei duas noites sem dormir,” relatou. No local, ele recebeu medicação, tratamento para o ferimento e orientações para repouso. Uma criança que se feriu com um anzol também foi atendida, demonstrando a diversidade dos casos urgentes que agora podem ser resolvidos localmente.

O enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra, que atua em Campina, destacou a importância de oferecer atenção a ferimentos graves que poderiam exigir resgate, além de serviços de pré-natal e o tratamento de doenças mais corriqueiras, como gripes, especialmente entre crianças. O enfermeiro Jefferson Martins Honorato, deslocado para Bauana, ressaltou que a proximidade incentiva a população a buscar ajuda profissional em vez de recorrer a remédios caseiros. “Se estivermos perto deles, eles vão nos procurar,” afirmou. Além de atendimentos de urgência, os pontos permitem teleconsultas com médicos e consultas presenciais em mutirões ou visitas esporádicas, expandindo o acesso a especialistas.

Projeto SUS na Floresta Amplia Atendimento no Amazonas - Imagem do artigo original

Imagem: Lucas Bonny via agenciabrasil.ebc.com.br

A técnica de enfermagem Denise de Sousa Brito explicou a relevância da teleconsulta: “Antes o morador ia lá para a cidade só para ter uma consulta. Agora não, tem teleconsulta aqui no polo.” Manoel Brito, secretário municipal de Saúde de Carauari, detalhou o modelo de equipe: cada unidade terá um enfermeiro e um técnico em enfermagem que se revezarão por 15 dias, sendo substituídos por uma nova equipe. Além disso, a cada 15 dias, haverá atendimento médico e odontológico pré-agendado, e a teleconsulta estará disponível para necessidades médicas imediatas, conectando os pacientes a um médico da sede do município. Essa estrutura não apenas encurta distâncias, mas também torna o atendimento acessível financeiramente para quem não podia arcar com o deslocamento.

A estruturação do SUS na Floresta pela FAS teve início em 2020, durante a pandemia de COVID-19, período em que muitos ribeirinhos ficaram sem assistência. O objetivo é garantir que essas populações recebam atendimento contínuo, mesmo diante de situações excepcionais, como pandemias ou eventos climáticos extremos. Mickela Souza Costa, gerente do Programa Saúde na Floresta da FAS, enfatizou que o sistema não estava preparado para calamidades públicas, seja por pandemias ou catástrofes climáticas. “Estamos fazendo isso em prol da saúde pública, em apoio a manter essas pessoas em pé até porque são elas que cuidam para manter a floresta em pé,” declarou.

O projeto prevê a instalação de um total de seis pontos de atendimento. O primeiro foi inaugurado em abril deste ano, na comunidade do Ubim, em Eurinepé, com apoio do BNDES e Fundo Vale. Com as unidades de Campina e Bauana, em Carauari, o Projeto SUS na Floresta já soma três pontos em funcionamento. Guilherme Sylos informou que há planos para mais três novos pontos, sendo um em Itapiranga e dois em Novo Aripuanã, além de um alojamento de apoio para profissionais de saúde em Uarini. Essas expansões contam com o suporte do BNDES e da Umane. Ao aproximar a Atenção Primária das comunidades, o projeto contribui significativamente para a prevenção de agravamentos, a continuidade de tratamentos e a efetivação do direito universal à saúde, respeitando as particularidades de cada território.

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O Projeto SUS na Floresta representa uma inovação crucial na oferta de saúde para as comunidades ribeirinhas do Amazonas, superando barreiras geográficas e econômicas. Ao fortalecer a Atenção Primária e integrar a telessaúde, a iniciativa garante que milhares de pessoas tenham acesso a um atendimento digno e contínuo. Continue acompanhando as notícias em nossa editoria de Cidades para mais informações sobre avanços na saúde e desenvolvimento social na região e em todo o Brasil. Para aprofundar-se em temas relacionados a políticas públicas e suas implementações, clique aqui e explore outros artigos relevantes.

Crédito da imagem: Lucas Bonny/FAS

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