O mercado de criptomoedas enfrenta um mês brutal, desencadeando um teste de estresse inédito para Wall Street e o crescente número de investidores institucionais. As oscilações acentuadas não são estranhas aos entusiastas do Bitcoin, que historicamente presenciaram ciclos de euforia seguidos por quedas significativas. Contudo, a velocidade e a escala da recente reversão superaram as expectativas, marcando um dos períodos mais desafiadores, ainda que sem o estresse sistêmico observado em crises passadas.
A criptomoeda líder, Bitcoin, alcançou uma mínima próxima de US$ 80,5 mil (equivalente a R$ 434 mil) na última sexta-feira, posicionando-se para o seu pior mês desde o colapso do ecossistema Terra em 2022. Naquela ocasião, a queda de US$ 60 bilhões (cerca de R$ 324 bilhões) da Terra deflagrou uma onda de falências no setor, culminando na quebra da FTX. No cenário atual, a perda de valor apenas no Bitcoin se aproxima de meio trilhão de dólares, sem considerar o impacto devastador nas altcoins.
Queda das Criptomoedas Testa Wall Street em Mês Brutal
Embora o Bitcoin ainda registre uma valorização considerável desde a vitória do presidente Donald Trump em novembro do ano anterior, grande parte desse ganho substancial foi erodido em seu primeiro ano de mandato, período que havia sido visto como a era de ouro das criptomoedas. A maioria dessas perdas, no entanto, permanece não realizada, existindo apenas no papel. Pela primeira vez desde a introdução dos fundos negociados em bolsa (ETFs) de Bitcoin, que atraíram Wall Street e o varejo para o mercado, essas posições estão sob intensa pressão.
Impacto Institucional e ETFs
A causa exata para a atual reversão é mais difícil de identificar. Os ETFs de Bitcoin, que não existiam durante a última grande queda, viram investidores retirarem bilhões de dólares dos 12 fundos atrelados à criptomoeda neste mês, conforme dados da Bloomberg. Compradores de destaque, como o fundo patrimonial de Harvard e diversos fundos de hedge, estão entre os que sentiram o impacto. Empresas de tesouraria de ativos digitais, inspiradas na estratégia da Strategy Inc. de Michael Saylor – veículos de custódia de criptomoedas negociados em bolsa – registraram saídas de capital ainda mais expressivas, à medida que investidores questionam a validade de empresas criadas meramente para deter tokens.
É inegável que as criptomoedas transcenderam os investidores de varejo e os entusiastas da tecnologia que as mantinham a qualquer custo. Elas estão agora profundamente integradas ao tecido de Wall Street e aos mercados públicos em geral, trazendo um novo perfil de participante com expectativas e estratégias distintas. Fadi Aboualfa, chefe de pesquisa da Copper Technologies Ltd., observou que “o que aconteceu nos últimos dois meses foi como combustível de foguete, como se as pessoas esperassem uma queda brusca”. Ele complementa que “é isso que os investidores institucionais fazem. Eles não estão lá para manter as posições, não têm essa mentalidade. Eles reequilibram seus portfólios”.
A Natureza da Queda Atual
Apesar da recente turbulência, o Bitcoin ainda se mantém cerca de 50% acima de sua mínima pré-eleitoral. A magnitude da correção atual é relativamente menor se comparada ao colapso de 75% vivenciado durante o mercado de baixa de 2021-2022, o que sugere que a queda pode se aprofundar ainda mais. Naquela época, cada declínio expôs uma nova falha em grandes players, como Celsius, BlockFi e Three Arrows.
Entretanto, na ausência de grandes problemas ou escândalos sistêmicos desta vez, alguns investidores consideram que a atual queda se deve mais a fatores técnicos e de confiança do que a falhas estruturais. Luke Youngblood, fundador da plataforma de empréstimos Moonwell, afirmou que “não estamos seguindo o mesmo caminho; as condições macroeconômicas gerais, o apoio governamental e a menor presença de agentes mal-intencionados no setor tornam o mercado atual mais resiliente”. Para ele, os fundamentos sobre os quais as criptomoedas estão sendo construídas são mais sólidos, embora ainda existam motivos para preocupação futura.
O catalisador mais evidente para a turbulência foi uma queda abrupta ocorrida em 10 de outubro, quando US$ 19 bilhões (R$ 102,4 bilhões) em apostas de criptomoedas foram liquidados em poucas horas. Esse evento expôs a crônica falta de liquidez durante as negociações de fim de semana – a contraparte do famoso funcionamento 24 horas por dia das criptomoedas –, bem como o acúmulo de alavancagem excessiva em certas corretoras, derrubando o Bitcoin de sua máxima histórica de US$ 126.251 (R$ 680,5 mil), atingida dias antes. Analistas da Cantor Fitzgerald & Co., Brett Knoblauch e Gareth Gacetta, indicaram em nota que “parece que alguns grandes players do setor estão sendo forçados a vender, já que o que aconteceu em 10/10 pode ter tido um impacto muito maior em seus balanços do que se pensava inicialmente”.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
Liquidez e Volatilidade Persistentes
O problema da liquidez ainda não foi completamente resolvido. A liquidez nos mercados de criptomoedas permanece baixa, com os formadores de mercado enfraquecidos pela queda e incapazes de intervir para sustentar os preços. Mais US$ 1,6 bilhão (R$ 8,6 bilhões) em apostas foram liquidadas em diversas corretoras na última sexta-feira, de acordo com dados da Coinglass, impactando principalmente os investidores alavancados. O fascínio do Bitcoin como um porto seguro, frequentemente comparado ao ouro – algo que se mostrou exagerado –, dissipou-se, já que o ouro, por sua vez, manteve sua solidez. As criptomoedas continuam a servir como um indicador do apetite por risco em cenários de alta volatilidade, reagindo com maior rapidez do que o mercado financeiro tradicional.
Nesta semana, o Bitcoin foi afetado pela instabilidade das ações de tecnologia. A oscilação da moeda foi apontada tanto como causa quanto como efeito da turbulência no mercado de ações. Na quinta-feira, por exemplo, o índice S&P 500 registrou uma alta inicial impulsionada pelos fortes resultados da Nvidia Corp., antes de sofrer sua maior reversão intradiária desde a turbulência das tarifas em abril. Analistas da Nomura atribuíram parte da culpa às criptomoedas, entre outras causas. Bill Ackman, por sua vez, sugeriu uma conexão incomum, ao propor que as participações da Fannie Mae e da Freddie Mac estavam agindo como um indicador indireto do desempenho das criptomoedas. Para entender mais sobre o comportamento dos grandes players, confira este artigo sobre o que é e como funciona o investidor institucional.
O Futuro do Mercado Cripto
O destino das criptomoedas parece agora atrelado ao otimismo do mercado impulsionado pela inteligência artificial. Com os rumores de uma bolha tecnológica crescendo, não será preciso muito para assustar os investidores e levá-los a vender. Além disso, o ecossistema cripto ainda abriga diversos perigos. As empresas imitadoras da Saylor foram construídas sob a crença de que uma empresa de capital aberto que apenas detém criptomoedas poderia valer mais do que o valor dos tokens que possui. A pressão para transformar empresas públicas em tesourarias de criptomoedas persistiu até este ponto da crise, ecoando a situação dos credores excessivamente alavancados de 2022. Se a confiança for abalada, vendas forçadas podem ocorrer, com muitos já registrando prejuízos em suas reservas de tokens.
Adam Morgan McCarthy, analista sênior de pesquisa da empresa de dados blockchain Kaiko, ressaltou: “Quando uma empresa de dispositivos médicos ou uma empresa de pesquisa sobre câncer se renomeia como uma tesouraria de criptomoedas, é um sinal de em que ponto do ciclo ela se encontra”. De modo geral, qualquer otimismo remanescente no setor parece estar desmoronando. O índice de Medo e Ganância – uma ferramenta que mede o sentimento nos mercados de criptomoedas – marcava 11 de 100 na sexta-feira, segundo o CoinMarketCap, classificando o sentimento como “medo extremo”. Chris Newhouse, diretor de pesquisa da Ergonia, empresa especializada em finanças descentralizadas, concluiu que “o sentimento de medo atingiu níveis relativamente altos, enquanto a demanda estrutural por mercado à vista permanece notavelmente ausente, deixando o mercado sem os compradores naturais que normalmente estão presentes durante correções significativas”.
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A recente turbulência no mercado de criptomoedas, com a queda acentuada do Bitcoin e o subsequente impacto em Wall Street, reforça a volatilidade inerente a esses ativos e a crescente interconexão com o sistema financeiro tradicional. Para mais análises e notícias sobre o cenário econômico e o mercado de ativos digitais, continue acompanhando a editoria de Economia.
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