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Queda da Receita do Setor Militar Chinês Atinge 10% em 2024

Economia

A queda da receita do setor militar chinês registrou um declínio significativo no ano passado, em decorrência direta de uma intensa campanha anticorrupção que provocou atrasos em contratos e processos de aquisição de armamentos. As revelações surgem de um estudo detalhado divulgado nesta segunda-feira (1º) pelo renomado Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri).

Essa retração na China se contrapõe de forma notável ao robusto crescimento global das receitas de grandes fabricantes de armas e prestadores de serviços militares. O cenário internacional, marcado por conflitos como as guerras na Ucrânia e em Gaza, somado às crescentes tensões geopolíticas regionais e globais, tem impulsionado a demanda e os lucros em outras partes do mundo.

Queda da Receita do Setor Militar Chinês Atinge 10% em 2024

Nan Tian, diretor do Programa de Gastos Militares e Produção de Armas do Sipri, apontou que uma série de acusações de corrupção envolvendo a aquisição de armas na China culminou no adiamento ou cancelamento de importantes contratos ao longo de 2024. Tal situação intensifica a incerteza sobre o ritmo e a eficácia da modernização das Forças Armadas chinesas, bem como o cronograma para a incorporação de novas capacidades militares. O Exército de Libertação Popular (PLA, na sigla em inglês), pilar da defesa chinesa, tem sido um dos principais focos da vasta campanha anticorrupção iniciada pelo presidente Xi Jinping em 2012.

Campanha Anticorrupção e seus Efeitos

A ofensiva de Xi Jinping contra a corrupção atingiu o alto escalão militar em 2023, quando a Força de Foguetes, setor estratégico responsável pelo crescente arsenal de mísseis, passou a ser alvo de investigações. Em outubro do mesmo ano, oito generais foram sumariamente expulsos do Partido Comunista Chinês sob acusações de corrupção. Entre os oficiais destituídos, destacou-se He Weidong, o segundo oficial mais graduado do país, que havia servido ao lado de Xi na Comissão Militar Central, a mais alta instância de comando militar da China. Diplomatas de nações asiáticas e ocidentais seguem monitorando e avaliando o impacto dessa purga nos rumos da trajetória militar chinesa e até que ponto ela pode se estender por todos os níveis da cadeia de comando.

Contraste Global e Desafios Internos

Conforme dados do Sipri, enquanto as receitas das principais empresas militares chinesas experimentaram uma queda de 10% no ano passado, outras nações registraram crescimentos expressivos: o Japão viu um salto de 40%, a Alemanha um aumento de 36%, e os Estados Unidos avançaram 3,8%. A receita total das 100 maiores fabricantes de armas do mundo atingiu um recorde de US$ 679 bilhões, um crescimento de 5,9%. Curiosamente, a retração na China fez da região da Ásia-Oceania a única a registrar um declínio nas receitas de suas maiores empresas de defesa. Esse cenário de queda na receita chinesa ocorre mesmo após três décadas de investimentos contínuos e aumentos no orçamento de defesa, em um contexto de disputa crescente com os Estados Unidos e atritos relacionados às reivindicações de soberania sobre Taiwan e o Mar do Sul da China.

Impacto nas Gigantes da Indústria de Defesa

O estudo do Sipri detalha que a receita apresentou queda em empresas estatais cruciais para a defesa chinesa. A Avic, maior fabricante de armas do país; a Norinco, produtora de sistemas terrestres; e a Casc, responsável por aeronaves e mísseis, foram diretamente afetadas. A Norinco, em particular, registrou o declínio mais acentuado, com uma queda de 31%, totalizando US$ 14 bilhões em receita. Investigações de corrupção que envolveram a liderança da Norinco e da Casc resultaram em revisões governamentais e significativos atrasos em projetos. Paralelamente, a Avic observou uma diminuição nas entregas de aeronaves militares. O Ministério da Defesa da China e as três empresas mencionadas não responderam prontamente aos pedidos de comentário enviados pela Reuters via fax.

Queda da Receita do Setor Militar Chinês Atinge 10% em 2024 - Imagem do artigo original

Imagem: valor.globo.com

Modernização Militar em Xeque

Apesar dos desafios, os investimentos em reforço militar na China têm gerado resultados visíveis. O país ostenta as maiores frotas naval e de guarda costeira do mundo, incluindo um novo porta-aviões potencialmente avançado, além do desenvolvimento de mísseis hipersônicos, armas nucleares e uma gama de drones aéreos e marítimos. No entanto, Xiao Liang, pesquisador do Sipri, alertou que o cronograma de sistemas avançados da Força de Foguetes do Exército de Libertação Popular, responsável pelo arsenal de mísseis balísticos, hipersônicos e de cruzeiro, pode ser afetado, assim como programas aeroespaciais e cibernéticos. Isso aumenta as incertezas quanto à meta do Exército de Libertação Popular de alcançar capacidades essenciais e prontidão para combate até o seu centenário, lembrando que o antecessor do PLA, o Exército Vermelho de Mao Tsé-tung, foi fundado em 1927.

Perspectivas Futuras para a Defesa Chinesa

Ainda que a campanha anticorrupção tenha gerado turbulências imediatas, a análise de Liang sugere que, a médio e longo prazo, o investimento contínuo nos orçamentos de defesa e o compromisso político com a modernização deverão ser mantidos. Contudo, é provável que haja alguns atrasos nos programas, custos mais elevados e um rigor ampliado nos processos de aquisição para o setor militar chinês. Essa abordagem mais cautelosa e transparente, embora desafiadora no curto prazo, pode visar a uma fundação mais sólida e ética para o futuro das forças armadas chinesas.

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Em suma, a campanha anticorrupção de Xi Jinping deixou uma marca inegável na indústria de defesa chinesa, resultando em uma queda de 10% na receita das empresas militares em 2024 e gerando incertezas sobre o cronograma de modernização. Embora os investimentos de longo prazo permaneçam, o futuro próximo deve ser pautado por maior rigor e possíveis atrasos. Para aprofundar a compreensão sobre os cenários geopolíticos e seus impactos, continue acompanhando nossa editoria de Política e mantenha-se informado sobre os desdobramentos globais.

Crédito da imagem: Valor Econômico