A renomada atriz Taís Araujo sobe ao palco do Sesc 14 Bis para a aguardada estreia da peça ‘Mudando de Pele’ em São Paulo, um espetáculo que mergulha nas profundas aflições e nos desejos de uma mulher em plena metamorfose. A montagem, que já obteve sucesso no Rio de Janeiro, convida o público a acompanhar a trajetória de Mayah, uma personagem que decide reconstruir sua vida após uma série de rupturas significativas.
A trama central narra a história de Mayah que, após o término de um relacionamento insatisfatório e a decisão de pedir demissão de uma empresa marcada pelo racismo, busca refúgio em um pequeno apartamento. Este novo lar, tão modesto quanto a existência que ela escolheu deixar para trás, torna-se o cenário principal para uma intensa jornada de autoconhecimento e crescimento pessoal. É neste ambiente que a protagonista se permite diminuir, metaforicamente, para que, de fato, consiga expandir-se e amadurecer, em uma clara alusão à clássica personagem Alice, de Lewis Carroll.
Taís Araujo Estreia Peça ‘Mudando de Pele’ em São Paulo
Com direção de Yara de Novaes, a peça ‘Mudando de Pele’ marca sua estreia na capital paulista nesta quarta-feira, dia 3 de julho, no Sesc 14 Bis, localizado na região central da cidade. O espetáculo é uma adaptação do aclamado monólogo “Shedding a Skin”, da dramaturga britânica Amanda Wilkin. A produção se destaca por apresentar uma narrativa inovadora, que foge dos clichês que frequentemente reduzem a experiência de pessoas negras à dor e à violência do racismo, optando por celebrar a vida e a transformação.
Taís Araujo enfatiza a importância de contar outras histórias. “Já se falou muito sobre morte e sofrimento. Está no nosso histórico. Mas a gente não é só isso”, reflete a atriz. Ela reforça que, embora o absurdo da escravidão faça parte da história, não define a identidade das pessoas negras, manifestando sua recusa em ser rotulada apenas por essa perspectiva. O foco, portanto, é na resiliência e na capacidade de reinvenção.
A Jornada de Mayah: Entre Raízes e Identidade
Mayah, a personagem central, é filha de imigrantes e encontra-se inserida em um ambiente corporativo predominantemente branco, onde se sente uma verdadeira estranha. “Ela não pertence àquele ambiente”, explica Araujo. Além disso, a personagem também não se reconhece plenamente no local de origem de seus pais, o que a coloca em um “não lugar” existencial. Essa sensação de não pertencimento é uma realidade compartilhada por muitas pessoas negras que alcançam ascensão social, distanciando-se de suas raízes sem, contudo, encontrar total acolhimento nos novos espaços.
Essa crise de identidade, que aflora nas fissuras desse não lugar, ecoa experiências pessoais vividas pela própria Taís Araujo em sua carreira. A atriz relembra momentos desafiadores, como em 2009, quando interpretou uma das célebres Helenas de Manoel Carlos na novela “Viver a Vida”. Na época, Taís enfrentou severas críticas à sua atuação, chegando a questionar a continuidade de sua trajetória na televisão. Contudo, ela ressalta que essas fases difíceis foram essenciais para seu crescimento.
Outro período de frustração ocorreu no ano passado, durante as gravações do remake de “Vale Tudo”, de Manuela Dias, onde interpretava Raquel. A atriz expressou seu desapontamento com as mudanças que o roteiro sofreu em relação à versão original de 1988, especialmente a controversa decisão de sua personagem voltar a vender sanduíches na praia após a falência de sua empresa. Em uma entrevista ao programa “Sem Censura”, Taís revelou ter achado “esquisitíssimo” o fato de ter sido convidada para um papel com uma história e, de repente, ver essa narrativa alterada. No entanto, para a reportagem, Araujo contextualiza: “Eu não posso tirar o brilho do que foi Vale Tudo na minha vida. É um dos meus trabalhos mais importantes.”
A exemplo do que ocorreu após o turbulento período de “Viver a Vida”, a atriz se reencontrou nos palcos após o fim de “Vale Tudo”. Para Taís Araujo, o teatro é um espaço de cura e aprendizado. “Eu costumo dizer que o teatro é um grande professor. Se você se dedica, ele te devolve”, afirma a artista, classificando-o como um “lugar regenerador”. Essa perspectiva é central para a nova protagonista, que busca justamente a cura para um incômodo persistente que a leva a uma “explosão” e à decisão de romper com tudo. A peça é, em sua essência, sobre o não reconhecimento de si e a necessidade de se reconstruir.
Transformação e Conexões: Os Estímulos de Mayah
O estopim para a grande mudança na vida de Mayah acontece quando sua empresa tenta criar uma campanha publicitária de diversidade. A iniciativa, que visava reunir os poucos funcionários negros para forjar uma fachada de inclusão, estava em total dissonância com a realidade daquele ambiente corporativo. Após se recusar a participar dessa farsa, Mayah decide abandonar o emprego e dar uma guinada radical em sua existência. “O olhar da personagem estava fechado e vai se ampliando aos poucos. Ela não só percebe que pertence a uma comunidade, mas que precisa deixar de olhar para o próprio umbigo”, detalha Taís Araujo, ilustrando o despertar de sua personagem.
Essa reconexão com a comunidade e com um propósito maior é catalisada pela influência de duas mulheres de diferentes gerações. Kemi, uma colega de trabalho na faixa dos 20 anos, oferece apoio a Mayah na lida com a rotina opressora do escritório. Mildred, uma nonagenária, contribui para expandir o entendimento da personagem sobre o mundo e suas complexidades. São essas relações que impulsionam o seu crescimento pessoal, um processo artisticamente espelhado na cenografia do espetáculo.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
No início, a ambientação do palco reflete a atmosfera claustrofóbica e sufocante da realidade de Mayah, com uma cenografia que evoca a sua vida apertada. O figurino, grande demais, faz com que a personagem pareça desajustada na própria pele, simbolizando seu desconforto. No entanto, à medida que sua vida se expande e sua consciência se transforma, o entorno cênico também se amplia. A estrutura quadrada e rígida do primeiro ato cede lugar a uma espacialidade circular ao longo da peça, refletindo a libertação e o amadurecimento da protagonista.
Essa concepção cênica da circularidade tem suas raízes na cosmogonia de povos do continente africano, onde o tempo não é percebido como uma linha reta, mas como uma espiral. Nessa visão, passado, presente e futuro se entrelaçam de forma contínua, uma ideia que ganhou proeminência no Brasil por meio de obras como “Performances do Tempo Espiralar: Poéticas do Corpo-Tela”, da ensaísta e dramaturga Leda Maria Martins. Tal abordagem filosoficamente rica, sobre a qual a representatividade negra no teatro brasileiro tem se debruçado, confere profundidade e significado à montagem. Para aprofundar-se no tema da representatividade negra nas artes, clique aqui e leia mais sobre o assunto na Folha de S.Paulo.
A trilha sonora, um elemento vital da encenação, também evoca a ancestralidade africana. A musicista Layla dedilha o corá, um instrumento da África Ocidental que se assemelha a uma harpa, criando sonoridades envolventes. Dani Nega, responsável pela direção musical, complementa a atmosfera produzindo efeitos sonoros ao vivo com um notebook, unindo de forma harmoniosa saberes milenares com a tecnologia contemporânea. Taís Araujo comenta que “Todo o conceito da peça é baseado na filosofia africana”, e que mesmo que o público nem sempre perceba de forma consciente, a essência desses elementos será sentida.
Devido à contribuição fundamental das musicistas, Taís Araujo prefere definir a peça não como um monólogo individual, mas como um “monólogo coletivo”. Ela argumenta que “Todo mundo trouxe uma contribuição real para esse espetáculo, então não seria justo dizer que é um solo só meu”, reconhecendo o trabalho colaborativo por trás da produção.
Yara de Novaes, a diretora da peça, conhecida por sucessos como “Prima Facie”, com Débora Falabella, e “Lady Tempestade”, com Andrea Beltrão, destaca o poder da música como ferramenta de comunicação com o público. “A música atinge as pessoas não pela lógica, mas pelo mistério. Não é à toa que o próprio teatro começou com o coro e com a musicalidade”, explica. A trilha sonora não apenas enriquece a experiência, mas também imprime à montagem uma atmosfera celebrativa, que foi um pilar da encenação de Novaes. “Todas as minhas escolhas foram feitas para chegar a um lugar de celebração”, afirma, ressaltando que o próprio texto já aponta para essa direção. “A dor não é o ponto de partida. Pelo contrário. A peça mostra uma pessoa saindo daquele lugar de opressão e se libertando.”
Os interessados em assistir a “Mudando de Pele” podem conferir o espetáculo no Sesc 14 Bis, localizado na Rua Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista. As apresentações ocorrem de quinta a domingo, às 20h, com uma sessão especial de estreia na quarta-feira (3), também às 20h. A temporada segue até 4 de julho. No elenco, além de Taís Araujo, participam Dani Nega e Layla. A direção é de Yara de Novaes. Importante notar que os ingressos para as primeiras sessões já se encontram esgotados, evidenciando o grande sucesso da montagem.
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A peça ‘Mudando de Pele’ com Taís Araujo oferece uma profunda reflexão sobre identidade, ruptura e a busca por um novo começo, utilizando a filosofia africana e a força do teatro como ferramentas de transformação. É um convite para o público paulistano mergulhar em uma história de superação e celebrar a metamorfose feminina. Não deixe de acompanhar esta e outras grandes produções da cena cultural em nossa editoria de Celebridade.
Crédito da Imagem: Pedro Napolinario/Divulgação







