As privatizações de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, têm se tornado alvo de crescente escrutínio e debate público. Especialistas e analistas apontam que a forma como esses processos de concessão e desestatização são conduzidos pode estar prejudicando a imagem de sua gestão e, paradoxalmente, a própria percepção positiva sobre as privatizações no estado.
Recentemente, a greve de ferroviários em São Paulo, já concluída, foi classificada pelo governador como um movimento de cunho político. Embora paralisações trabalhistas frequentemente carreguem uma dimensão política em sentido amplo, especialmente em períodos que antecedem disputas eleitorais, a questão central reside na atuação governamental. No entanto, é inegável que o movimento grevista possuía reivindicações de natureza trabalhista legítimas. Por outro lado, as políticas de privatização e concessão implementadas pelo governo paulista também se inserem fortemente em uma agenda política, ainda que, em alguns casos, de maneira deficiente.
Tarcísio Privatizações: Críticas Respingam em Imagem no SP
Em sua busca por consolidar uma marca eleitoral e angariar apoio do setor empresarial e da parcela da opinião pública avessa ao Partido dos Trabalhadores, Tarcísio de Freitas — que inclusive recebeu o presidente argentino Javier Milei em recente visita — parece estar, ironicamente, minando o próprio “dogma liberal”. Este dogma preconiza que a iniciativa privada sempre operará de forma superior ao setor público. Contudo, a realidade observada em São Paulo, conforme evidenciado por diversos casos, desafia essa premissa.
Um dos exemplos mais emblemáticos e críticos diz respeito às privatizações de importantes linhas da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). As linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade foram concedidas à empresa Trivia Trens no final de junho. Pouco tempo após a transição, uma série de falhas operacionais significativas, incluindo um grave incêndio na Linha 12, forçou o governador a tomar uma medida drástica. A concessão foi cancelada por um período de 90 dias, resultando no retorno da operação desses ramais para o controle da companhia de trens do estado. Esse recuo abrupto representa um forte indício de incompetência técnica na gestão do processo e reforça a percepção de uma motivação predominantemente política, sem a devida priorização da qualidade do serviço.
Histórico de Problemas em Concessões Ferroviárias
O cenário de dificuldades nas concessões ferroviárias em São Paulo não é um incidente isolado. Casos anteriores servem como precedente para as atuais críticas. As linhas 8 e 9 da CPTM, por exemplo, que foram concedidas à ViaMobilidade durante a gestão de João Doria em 2021, também enfrentaram e continuam a enfrentar problemas persistentes de mau funcionamento e deficiência na prestação de serviços aos usuários. Tais episódios cumulativos acendem um alerta sobre a necessidade de maior rigor e planejamento nos processos de privatização do transporte público.
Além do setor ferroviário, equívocos semelhantes se acumulam em outras áreas. As concessões de alguns parques urbanos da cidade de São Paulo são um exemplo claro. A intenção inicial de melhorar a qualidade e a infraestrutura dessas importantes áreas verdes, através da gestão privada, transformou-se em uma porta para práticas que agridem a natureza e promovem uma mercantilização excessiva e muitas vezes desinteligente das unidades. O autor desta análise, que frequenta o Parque Villa-Lobos há mais de uma década quase diariamente, testemunha de perto os descalabros. No local, proliferam cervejarias chamativas, praças de alimentação de qualidade duvidosa e, em um caso particularmente controverso, pedaços inteiros de vegetação foram cercados e cobertos com LEDs, com uma bilheteria na entrada para acesso pago. Enquanto isso, tapumes se espalham por diversas partes do parque, e a infraestrutura básica para pedestres, como o piso das pistas – que ostentam a marca de patrocinadores –, encontra-se esburacada, com bancos caídos e danificados.
A Visão Pragmatista sobre Privatizações
É importante ressaltar que a visão crítica apresentada não se alinha a um posicionamento “principista” contrário a todas as privatizações. Há um reconhecimento pragmático das vantagens que a desestatização pode oferecer em determinados contextos. Por exemplo, embora as relações com empresas de telefonia e internet possam gerar frustrações, companhias como a antiga Telesp e Telerj não deixaram saudades para os consumidores. Da mesma forma, apesar do custo dos pedágios, as concessões de rodovias em São Paulo são amplamente reconhecidas por terem gerado bons resultados em termos de infraestrutura e fluidez do tráfego.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
A questão, portanto, não é a privatização em si, mas a maneira como ela é executada. As privatizações conduzidas “a toque de caixa” pelo governador paulista, sem o devido planejamento e fiscalização rigorosa, têm gerado resultados que são, muitas vezes, sofríveis e contrários ao interesse maior da sociedade. Essa abordagem pode ter um impacto negativo duradouro não apenas na qualidade dos serviços públicos, mas também na própria imagem do mandatário e na percepção geral da população sobre a eficácia e os benefícios das privatizações.
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Em suma, a gestão das privatizações pelo governo de Tarcísio de Freitas em São Paulo levanta questões importantes sobre planejamento, execução e o impacto real na vida dos cidadãos. A análise dos casos recentes sugere que, sem um rigor técnico e uma visão que transcenda o mero objetivo político, as privatizações podem gerar mais problemas do que soluções, manchando a credibilidade do próprio conceito e da imagem do gestor público. Para mais notícias e análises sobre a política e economia do estado de São Paulo, visite a editoria de Política em nosso portal.
Crédito da imagem: Zanone Fraissat – 15.jan.26/Folhapress







