A produção Dark Horse, filme que narra a trajetória da facada sofrida por Jair Bolsonaro e sua subsequente ascensão à presidência, foi marcada por um ambiente de significativa tensão nos bastidores. Relatos obtidos pelo GLOBO indicam um choque ideológico profundo entre a maioria da equipe, com inclinação progressista, e as lideranças do projeto, claramente alinhadas ao bolsonarismo e ao trumpismo. Além dos conflitos ideológicos, a realização do longa-metragem evidenciou um nível de investimento financeiro extraordinariamente alto, conforme detalhado por participantes da empreitada.
Os principais responsáveis pelo projeto, como o roteirista Mário Frias e o diretor Cyrus Nowrasteh, eram abertamente identificados com as correntes políticas de direita, enquanto a maioria dos profissionais do meio audiovisual tende a possuir visões progressistas. Essa disparidade ideológica não apenas gerou atritos, mas também influenciou diretrizes e o clima geral no set, impondo regras e comportamentos específicos para a equipe, visando evitar qualquer manifestação que pudesse ser interpretada como ideologicamente oposta à narrativa do filme.
Tensão e altos investimentos na produção Dark Horse
O financiamento do filme “Dark Horse” contou com o patrocínio do ex-proprietário do Banco Master, Daniel Vorcaro. É importante notar que Vorcaro se encontra atualmente detido, enfrentando uma série de graves acusações, incluindo lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa, além de táticas de intimidação e coerção. A produtora Go Up, empresa à frente do projeto, foi procurada pelo GLOBO para comentar sobre os bastidores das filmagens, mas não forneceu resposta até o momento, mantendo-se o espaço aberto para futuros esclarecimentos.
Desde as etapas iniciais da produção, as lideranças do filme estabeleceram diretrizes claras em relação a questões ideológicas. Era expressamente proibido que os membros da equipe utilizassem roupas de cor vermelha ou portassem símbolos associados a grupos como o MST. Contudo, à medida que as filmagens progrediam, a equipe também começou a questionar as vestimentas e bonés usados pelos próprios chefes, que frequentemente exibiam símbolos como a bandeira americana adornada com fuzis. Um participante da produção descreveu a situação, afirmando: “A gente concordava em não usar vermelho, mas pedimos que eles também não usassem aquilo”, demonstrando a reciprocidade das exigências.
Resistência e Cachês Elevados Marcaram a Equipe
Os relatos de participantes indicam que alguns profissionais inicialmente hesitaram em fazer parte do projeto, principalmente devido à natureza ideológica do filme. Muitos só aceitaram integrar a equipe após receberem cachês significativamente mais altos que a média praticada no mercado audiovisual, o que sugere uma compensação financeira para superar as reservas políticas. A situação chegou a um ponto crítico para uma das participantes, que perdeu outro trabalho após os responsáveis descobrirem sua participação em “Dark Horse”, levando-a a chorar no próprio set de filmagem, evidenciando o impacto pessoal dos dilemas profissionais e ideológicos envolvidos.
O ápice das tensões ocorreu durante a celebração do que é conhecido como “rolo 100”. No universo cinematográfico, existe uma tradição de festejar quando as gravações alcançam o centésimo rolo de filme. Atualmente, com a predominância da tecnologia digital, a comemoração acontece ao atingir o cartão de memória de número 100, mas o termo “rolo 100” é mantido em respeito à tradição. À medida que a data se aproximava, grande parte da equipe não demonstrava entusiasmo para as festividades, dada a polarização política que permeava o ambiente de trabalho e que se estendia para o cenário político nacional, como é possível verificar em diversas análises e notícias.
Apesar da falta de empolgação de parte da equipe, as lideranças do projeto decidiram prosseguir com os planos, adquirindo champanhes e organizando a celebração. Ocorre que a data em questão, 22 de novembro de 2025, coincidiu com a prisão de Jair Bolsonaro. O desfecho foi inusitado: enquanto Frias e outros bolsonaristas expressavam pesar nos bastidores, a equipe, com a desculpa da festa do “rolo 100”, abriu as garrafas e celebrou, de forma que alguns descreveram como “ostensiva”, mascarando o verdadeiro motivo da euforia.
Farto Financiamento Evidente na Produção
Os depoimentos dos envolvidos também confirmam um farto financiamento para a produção de “Dark Horse”, corroborando documentos e mensagens que vinculam Daniel Vorcaro ao projeto. As filmagens se estenderam por aproximadamente dez semanas, um período consideravelmente longo, que em muitos casos supera o tempo despendido em séries com múltiplos episódios. Integrantes da equipe destacaram que “tudo era filmado com calma”, com uma média de três páginas de roteiro gravadas por dia, contrastando com a prática usual no cinema de filmar cinco ou seis páginas diárias, indicando a ausência de pressa comum em produções com orçamentos mais limitados.

Imagem: reprodução via infomoney.com.br
Durante grande parte desse período, o set de filmagem contava com uma impressionante quantidade de figurantes, variando entre 250 e 300 pessoas, conforme os relatos. A estrutura técnica também era robusta, com a presença constante de pelo menos três equipes de câmeras, que chegavam a cinco em determinados dias. Em produções de bom orçamento, o padrão geralmente é de duas equipes. Os equipamentos utilizados eram de ponta, incluindo gruas da marca Scorpio equipadas com braço robótico, demonstrando o investimento em tecnologia de ponta.
Os atores norte-americanos, como o protagonista Jim Caviezel e Esai Morales, dispunham de trailers de apoio individuais, uma exigência dos sindicatos de seu país de origem. Nos momentos de maquiagem e preparação para as cenas, a produção utilizava “stand-ins”, profissionais com características físicas similares aos atores principais, que serviam para ensaiar a iluminação e o posicionamento das câmeras. Esse recurso, embora comum em Hollywood, é considerado um luxo incomum nas produções cinematográficas realizadas no Brasil, reforçando a percepção de altos investimentos.
A colunista Malu Gaspar, do GLOBO, apurou que o montante de pelo menos R$ 62 milhões de Daniel Vorcaro teria sido repassado para a produção do filme. Esse valor é expressivo e supera os orçamentos de renomadas produções brasileiras que chegaram a disputar o Oscar, como “Ainda Estou Aqui” (com R$ 45 milhões) e “O Agente Secreto” (com R$ 28 milhões). Um membro da equipe resumiu o cenário financeiro da produção com a frase: “Em Dark Horse, era dinheiro para todo lado”, ilustrando a vasta disponibilidade de recursos.
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A produção do filme “Dark Horse” revelou um panorama complexo e multifacetado, marcado por profundas divergências ideológicas, eventos polêmicos e um investimento financeiro de grande porte, destoando do padrão de muitas produções nacionais. Este olhar sobre os bastidores oferece uma compreensão mais aprofundada dos desafios e peculiaridades envolvidas na realização de um projeto cinematográfico de tamanha envergadura e sensibilidade política. Continue acompanhando nossas notícias e análises sobre política para se manter atualizado.
Crédito da imagem: GLOBO






