UNAIDS: Desigualdades Agravam Pandemias, Combate É Vital. Esta é a principal mensagem do recém-lançado relatório “Rompendo o ciclo da desigualdade – pandemia construindo a verdadeira segurança na saúde em uma era global”, cuja versão em português foi apresentada em Brasília. O documento, elaborado pelo Conselho Global sobre Desigualdades, Aids e Pandemias, enfatiza a interconexão crítica entre as disparidades sociais e a proliferação de crises sanitárias globais.
O lançamento do estudo ocorreu em 16 de dezembro de 2025, no contexto da 57ª Reunião da Junta de Coordenação do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS), um fórum estratégico que congrega o referido conselho global. Durante o encontro, serão delineadas as bases da estratégia global para o combate à Aids no quinquênio de 2026 a 2031, que posteriormente será submetida a negociações com os países membros do G20.
UNAIDS: Desigualdades Agravam Pandemias, Combate É Vital
A condução do conselho da agência da ONU, responsável pela coordenação global de enfrentamento à epidemia de Aids, está sob a presidência do Brasil. O UNAIDS classifica o atual momento como crucial para a resposta global à Aids, especialmente diante de cortes abruptos na assistência internacional, como os implementados pelo governo dos Estados Unidos. Tais reduções resultaram em um decréscimo significativo dos recursos destinados a iniciativas de apoio, controle, tratamento e pesquisa da doença, impactando diretamente a capacidade de resposta global. Winnie Byanyima, engenheira ugandense e diretora executiva do UNAIDS, expressou preocupação em um pronunciamento recente sobre a diminuição do financiamento para organizações de HIV lideradas por mulheres, muitas das quais foram forçadas a interromper suas atividades.
O relatório lançado sublinha, com base em amplas evidências, que as desigualdades e os determinantes sociais exercem uma influência substancial no surgimento e desenvolvimento de pandemias. Níveis elevados de desigualdade não apenas favorecem a ocorrência e disseminação de surtos, mas também dificultam as respostas nacionais e internacionais, resultando em pandemias mais duradouras, letais e com maior poder disruptivo sobre as sociedades.
Fruto de dois anos de extensas pesquisas e encontros em diversos países, o estudo demonstra ainda que as pandemias, por sua vez, exacerbam as desigualdades existentes. Essa dinâmica cria um ciclo vicioso, identificado em crises sanitárias passadas e atuais, como a COVID-19, a Aids, o Ebola, a Influenza e a Mpox. Monica Geingos, ex-primeira-dama da Namíbia e membro do conselho, afirmou com veemência que “a desigualdade não é inevitável. É uma escolha política – e uma escolha perigosa, que ameaça a saúde de todos. Quem se preocupa com o impacto das pandemias precisa se preocupar com a desigualdade. Os líderes podem quebrar esse ciclo aplicando as soluções políticas apresentadas neste relatório”.
Nísia Trindade, renomada pesquisadora da Fiocruz e ex-ministra da Saúde do governo Lula, foi uma das contribuintes do relatório, elaborando um artigo aprofundado sobre o tema. Segundo Trindade, o documento evidencia que as desigualdades não são meramente um resultado das crises sanitárias, mas sim fatores que as tornam mais frequentes, mortais e prolongadas. “As evidências reunidas revelam o círculo vicioso: desigualdades internas e globais ampliam a vulnerabilidade das sociedades. E pandemias reforçam essas mesmas desigualdades, dinâmica vista em emergências como as de Covid-19, HIV/Aids, Ebola, Influenza e Mpox”, destacou a pesquisadora.
Trindade ressaltou que fatores como educação, renda, moradia e condições ambientais são cruciais para determinar os grupos mais afetados pelas emergências de saúde. Pessoas sem educação básica, por exemplo, apresentaram uma probabilidade até três vezes maior de morrer por COVID-19 em comparação com indivíduos com ensino superior. Populações negras, indígenas e residentes em favelas e periferias também registraram taxas elevadas de infecção e mortalidade, evidenciando a seletividade da doença em contextos de vulnerabilidade social.
No seu artigo, Nísia Trindade aponta que as desigualdades geradas pelas pandemias afetam de forma particularmente severa as mulheres, especialmente as mulheres pretas. Essas populações enfrentaram perdas massivas de emprego e um aumento alarmante na mortalidade materna, que saltou de 57,9 óbitos por 100 mil nascidos vivos em 2019 para 110 em 2021, com uma taxa ainda mais alta de 194,8 entre mulheres pretas.
O estudo também indica que níveis elevados de desigualdade entre nações elevam a vulnerabilidade global, fazendo com que as pandemias se estendam por mais tempo e causem um número maior de mortes. Essas crises sanitárias, por sua vez, aprofundam as desigualdades. Na prática, o risco de óbito durante pandemias é acentuadamente maior em sociedades desiguais, enquanto a diminuição da pobreza se configura como um elemento determinante para o fortalecimento da resiliência comunitária frente ao avanço de epidemias e pandemias.
Os últimos cinco anos acentuaram essas disparidades, principalmente no âmbito internacional. A pandemia de COVID-19 impulsionou a concentração de renda, e, atualmente, com o surgimento de tecnologias médicas inovadoras, como injeções de longa duração para a prevenção do HIV, a questão econômica continua a ser um fator limitante no acesso e na difusão dessas soluções. Ademais, o relatório corrobora conclusões de pesquisas de décadas anteriores, afirmando que quanto maior a demora no combate às pandemias, maior será o impacto negativo no desenvolvimento global. A persistência de doenças como a Aids, malária e tuberculose, segundo o documento, figura entre as maiores ameaças, uma vez que as pandemias amplificam a desigualdade e fragilizam a capacidade de resposta mundial.
Para o Conselho Global sobre Desigualdades, Aids e Pandemias, há uma evidência clara de que esse ciclo perverso pode ser quebrado. Uma nova abordagem para a segurança sanitária global é imperativa, capaz de romper esse padrão através de ações práticas e viáveis, tanto em escala nacional quanto internacional. Como destacou um especialista do conselho, “Precisamos agir juntos contra as desigualdades, as quais tornam as pandemias mais prováveis, letais e custosas. Políticas de proteção social e sistemas de saúde resilientes são fundamentais para a preparação e a resposta. Garantir que medicamentos e vacinas possam ser desenvolvidos e produzidos em todo o mundo, em uma perspectiva regional e local, é outro aspecto vital para a saúde global.”
Como um caminho para aprimorar e estabelecer um cenário de segurança sanitária mais robusto, o conselho propõe quatro recomendações essenciais, estruturadas em uma abordagem denominada Prevenção, Preparação e Resposta (PPR). Essas recomendações incluem: a reorganização do sistema financeiro global, mediante a renegociação de dívidas e a reavaliação de linhas e instituições de financiamento de emergência, além da eliminação de políticas de austeridade pró-cíclicas; o investimento na prevenção de determinantes sociais das pandemias, por meio de mecanismos de proteção social eficazes; o fortalecimento da produção local e regional de insumos, a criação de uma nova governança em pesquisa e desenvolvimento, e a garantia de que o compartilhamento de tecnologias seja tratado como um bem público essencial para o enfrentamento de pandemias; e, por fim, a construção de maior confiança, equidade e eficiência na resposta às pandemias, através de redes de governança multissetorial que integrem a sociedade civil e os governos.
O artigo de Nísia Trindade alinha-se perfeitamente a essas diretrizes em relação à segurança sanitária. A ex-ministra defende que é fundamental preparar o Brasil e o mundo para futuras emergências, o que exige a construção de sistemas de saúde resilientes, uma gestão qualificada e investimentos contínuos em políticas sociais, ciência, tecnologia e inovação. Além disso, Nísia salienta a importância de fortalecer a produção local e regional de vacinas, testes diagnósticos, medicamentos e outros insumos essenciais. Ela também reforça que uma das principais recomendações do relatório do UNAIDS é combater as dificuldades financeiras globais com propostas como a renegociação de dívidas de países vulneráveis e a criação de mecanismos automáticos de financiamento de emergências, a fim de evitar políticas de austeridade que comprimem gastos sociais, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS) também enfatiza a importância dos determinantes sociais na saúde.
Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos
Em suma, o relatório do UNAIDS e as contribuições de especialistas como Nísia Trindade e Monica Geingos reforçam que o combate às desigualdades não é apenas uma questão de justiça social, mas uma estratégia indispensável para a segurança sanitária global. Ao investir em políticas sociais, fortalecer sistemas de saúde e promover a equidade, é possível romper o ciclo vicioso que conecta desigualdades e pandemias. Para mais notícias e análises sobre políticas de saúde e questões sociais, continue acompanhando nossa editoria de Política.
Crédito da imagem: UNAIDS Brasil/Kayo Oliveira






