Uma nova investigação científica, divulgada na última quinta-feira (13), lança luz sobre a variedade de formas em cães antigos, indicando que as transformações esqueléticas que diferenciaram lobos de cães domésticos tiveram início há pouco mais de 10 mil anos, marcando o fim da Era do Gelo. Embora a maioria das raças caninas contemporâneas seja fruto de cruzamentos intensivos a partir da segunda metade do século XIX, o estudo sublinha que a diversificação morfológica da espécie já era evidente milênios antes, logo após os estágios iniciais de sua domesticação.
Este trabalho representa uma contribuição significativa para o intrincado quebra-cabeça da domesticação dos cães, reconhecidos como os companheiros não humanos mais antigos da humanidade. A exata origem destes animais a partir dos lobos permanece um mistério, apesar da vasta quantidade de estudos dedicados ao tema. Os achados foram publicados no renomado periódico científico Science, uma das revistas acadêmicas mais importantes globalmente.
Variedade de Formas em Cães Antigos: 8 Mil Anos de Evolução
Liderada por Allowen Evin, pesquisadora da Universidade de Montpellier, no sul da França, a equipe analisou um total de 643 crânios caninos, abrangendo um período vasto, desde 50 mil anos atrás – bem antes do término da última glaciação – até os dias atuais. Para realizar essa análise aprofundada, os cientistas empregaram a técnica da morfometria geométrica. Este método permite o mapeamento detalhado das diferenças em objetos de complexidade morfológica, como um crânio.
A analogia utilizada para explicar a morfometria geométrica compara cada ponto da estrutura craniana à latitude e longitude de um local no globo terrestre, indicando sua posição em coordenadas norte/sul e leste/oeste. Ao longo do tempo, se a forma do crânio de uma espécie se modifica, é possível quantificar essas alterações observando a movimentação desses pontos específicos. Esta abordagem permitiu aos pesquisadores rastrear com precisão a evolução das formas cranianas e a variedade de formas em cães antigos.
Além das características visíveis como pelagem e formato das orelhas – que raramente se preservam no registro fóssil –, os cães modernos se distinguem por uma notável diversidade no tamanho e formato da cabeça, quando comparados aos seus parentes próximos, os lobos. A variabilidade corporal também é um traço marcante, com raças caninas que são significativamente menores, e em alguns casos, até maiores que os lobos, uma característica que também pode ser inferida pela morfologia craniana.
Considerando esses aspectos, o grupo de pesquisadores elaborou um painel comparativo abrangente. De um lado, foram incluídos crânios de lobos e cães contemporâneos; de outro, espécimes antigos do final do Pleistoceno, com idades que remontam a até 12,7 mil anos, e exemplares encontrados em sítios arqueológicos do Holoceno, a era geológica atual. Contudo, o ponto fraco da amostragem residiu nos animais do Pleistoceno, que são relativamente escassos no registro arqueológico, totalizando apenas 17 crânios para este período mais remoto da evolução canina.
Baseando-se na comparação meticulosa do formato dos crânios, os pesquisadores desenvolveram um método estatístico robusto para diferenciar cães de lobos a partir de suas características morfológicas. A premissa fundamental foi a existência de “modelos” crânio-lupinos, baseados em lobos atuais estudados, e “modelos” crânio-caninos, derivados de indivíduos caninos contemporâneos. Este referencial possibilitou uma análise comparativa precisa da diversidade morfológica.
Os resultados confirmaram uma expectativa: a variabilidade morfológica observada nos cães modernos é significativamente maior do que a presente entre os lobos contemporâneos e os espécimes do Pleistoceno. Curiosamente, alguns cães domesticados podem ser classificados como “lobos morfológicos”, ou seja, possuidores de um tipo de crânio que poderia ser indistinguível do de um lobo selvagem. Exemplos notáveis incluem raças como o pastor-alemão e o mastim-tibetano, que preservam traços de seus ancestrais na sua estrutura craniana, apesar da extensa domesticação de cães.
No que tange aos crânios recuperados em sítios arqueológicos, a morfologia que se alinha com o grupo dos cães domesticados surge pela primeira vez há cerca de 11 mil anos, na localidade russa de Veretye, período que antecede a disseminação da agricultura na região. Já no continente americano, o registro mais antigo dessa morfologia, datando de 8.500 anos, foi descoberto em antigos assentamentos indígenas no estado de Illinois, nos Estados Unidos. A datação russa, de maneira intrigante, corrobora dados de DNA que apontam para o aparecimento das primeiras linhagens de cães domesticados na mesma época, reforçando a cronologia da evolução dos cães.
A pesquisa ainda indica que a redução no tamanho do crânio e o notável aumento na variabilidade de formatos já eram características presentes nos cães domésticos que viveram há aproximadamente 8.000 anos. Isso ocorreu muito antes do surgimento de civilizações de grande porte no planeta. Esses cães do início do Holoceno exibiam uma variação de aparência que era o dobro daquela encontrada nos lobos, embora ainda fosse inferior à explosão de diversidade que acompanhou o surgimento das raças modernas a partir do século XIX. A variedade de formas de cães pré-históricos é um testemunho da rápida adaptação da espécie.
É plausível que tanto a vasta gama de ambientes colonizados pelos seres humanos quanto a utilização dos cães para propósitos diversos – como caça, guarda ou companhia – tenham desempenhado um papel crucial na promoção dessa diversificação. A interação entre humanos e cães, portanto, pode ter sido um motor primário para a evolução canina.
Contudo, ainda não se tem clareza se a coincidência temporal dos 11 mil anos atrás, que une dados genéticos e morfológicos, de fato assinala o “ano zero” da origem dos cães domésticos. O processo de domesticação pode ter sido gradual e complexo, resultando em uma alteração morfológica menos pronunciada nos lobos domesticados iniciais, ou em uma seleção menos dependente da intervenção humana. Experimentos contemporâneos com raposas demonstram que a aparência dos animais pode se modificar em poucas gerações se os criadores priorizarem características como a docilidade. Somente novas pesquisas e a descoberta de mais fósseis poderão, com alguma sorte, dirimir essas incertezas sobre a domesticação de cães e sua variedade de formas ao longo do tempo.
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Em suma, a pesquisa destaca que a variedade de formas em cães antigos já era notável há 8 mil anos, desafiando a percepção de que a diversidade canina é um fenômeno exclusivamente moderno. Aprofunde-se mais sobre a fascinante evolução e história das espécies em nossa editoria de Análises.
Crédito da imagem: Peter Nicholls – 27.jun.2018/Reuters






