O embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam, criticou veementemente a postura dos Estados Unidos, acusando a potência ocidental de não buscar genuinamente um acordo nuclear com a nação persa. Em uma coletiva de imprensa realizada na Embaixada iraniana em Brasília, nesta segunda-feira (2), o diplomata expressou a visão de Teerã de que as negociações, embora teoricamente possíveis, são constantemente sabotadas por Washington e Tel Aviv.
A mesa de negociação, que deveria reunir especialistas em questões nucleares em Viena, sob a égide da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), foi mais uma vez alvo de sabotagem pelo que o embaixador descreveu como “regime sionista” (Israel) e os EUA. Nekounam enfatizou que a verdadeira intenção dos Estados Unidos não é alcançar um pacto nuclear, mas sim utilizar as discussões como fachada para promover uma alteração de regime no Irã.
Na mesma ocasião, o diplomata iraniano reiterou as acusações, afirmando que os esforços de Israel e dos Estados Unidos na mesa de negociações servem apenas como um pretexto para promover uma mudança de regime em Teerã. Essa agressão, segundo Nekounam, emana de uma crença arrogante por parte dos EUA, que se veem como os “donos do mundo”, uma postura que o Irã, com 47 anos de busca por independência, rejeita.
Embaixador Irã critica EUA por bloqueio em acordo nuclear
Diplomata Iraniano Detalha Acusações e Visão de Mundo
Para o embaixador Abdollah Nekounam, o atual presidente dos EUA age como se fosse o “rei do mundo”. Ele admitiu que “alguns países, devido a seus interesses, podem aceitar essas alegações e imaginações”, mas ressaltou que a República Islâmica do Irã, por quase meio século, tem se dedicado à sua soberania. A retórica do diplomata sublinha a resistência iraniana à hegemonia ocidental, especialmente no que tange ao seu programa nuclear.
No contexto das tensões geopolíticas, analistas consultados pela Agência Brasil indicam que uma potencial mudança de regime em Teerã teria objetivos estratégicos mais amplos. Entre eles, frear a expansão econômica da China, percebida como uma ameaça pelos Estados Unidos, e fortalecer a supremacia política e militar de Israel no Oriente Médio. Este cenário adiciona camadas de complexidade à disputa sobre o programa nuclear iraniano.
O Cenário Nuclear e a Resposta Iraniana
Washington e Tel Aviv, por sua vez, justificam suas ações contra o Irã como “preventivas”, alegando que o país estaria desenvolvendo um programa de artefatos nucleares que representaria uma ameaça direta a Israel. No entanto, Teerã tem consistentemente afirmado que seu programa nuclear é exclusivamente para fins pacíficos, refutando as acusações de busca por armas atômicas.
O embaixador Nekounam também questionou a legitimidade dos Estados Unidos para “administrar o planeta”, citando o escândalo dos arquivos de Jeffrey Epstein. Ele argumentou que “o nosso mundo tem valor muito superior para ser administrado pelos reis que, nos arquivos do Epstein, estão cada vez mais envolvidos”. Para ele, indivíduos que “ultrapassaram as fronteiras de humanidade não merecem e não valem administrar a soberania do mundo”. As revelações sobre as conexões de Epstein com a elite política americana, incluindo o ex-presidente Trump, têm gerado instabilidade política nos EUA e entre seus aliados.
Para aprofundar o conhecimento sobre as atividades da Agência Internacional de Energia Atômica, organização crucial neste cenário, pode-se consultar o portal da Agência Internacional de Energia Atômica.
Questão da Sucessão no Irã e a Continuidade Governamental
Um ponto de destaque na coletiva foi a menção à rápida e eficiente transição de poder no Irã após o assassinato do Líder Supremo Ali Khamenei, ocorrido no sábado (28) anterior. Nekounam enfatizou que um Conselho interino foi prontamente estabelecido, garantindo a defesa do país de “forma contínua, firme e poderosa”, sem descontinuidades na estrutura de poder do Estado iraniano. O diplomata reiterou: “Irã é país soberano por completo e a gestão e administração do país está em vigor e em forma plena”.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
Um Conselho de Liderança Interino foi designado para assumir as atribuições de Khamenei, aguardando a eleição de um novo Líder Supremo pela Assembleia dos Especialistas. Nekounam destacou a celeridade do processo: “Vocês viram que, com o assassinato do Líder Supremo, que comanda toda questão de defesa do país, as coisas se organizaram de forma célere e rápida. A defesa [do país] está contínua, firme e poderosa”, completou, afastando qualquer especulação sobre um vácuo de poder.
Posição do Brasil e o Histórico das Tensões Regionais
Questionado sobre a postura brasileira diante do conflito, o embaixador Abdollah Nekounam expressou gratidão pela manifestação do Ministério das Relações Exteriores do Brasil (MRE), que condenou o uso da força por Israel e pelos EUA. “Acreditamos e vemos essa ação da parte do governo do Brasil como uma ação valorosa e que dá atenção aos valores do ser humano, de soberania, de integridade territorial e de independência dos governos”, comentou.
O diplomata defendeu o direito de Teerã de contra-atacar bases militares dos inimigos. “É nosso direito, porque nós fomos atacados, porque nós estamos nos defendendo com direito legítimo. Sobre nossas relações de amizade, com nossos países vizinhos, não há nenhum desentendimento. Nossas ações são contra bases militares dos EUA e alguns centros do regime sionista. Que isso não se considera ataque aos territórios desses países mencionados”, justificou. Estima-se que ataques iranianos tenham visado alvos dos EUA em nações como Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuwait e Jordânia.
Entenda o Cenário do Acordo Nuclear Irã EUA
Esta é a segunda vez em oito meses que Israel e os EUA realizam uma agressão contra o Irã em meio a negociações sobre o programa nuclear e balístico do país persa. Durante o primeiro mandato do ex-presidente Trump, os EUA abandonaram o acordo nuclear de 2015, assinado sob o governo de Barack Obama, que previa inspeções internacionais do programa iraniano. Desde então, Israel e os EUA acusam Teerã de buscar armas nucleares, enquanto os iranianos defendem que seu programa é exclusivamente pacífico e se mostram abertos a inspeções internacionais. Curiosamente, Israel, acusado de possuir armamentos atômicos, nunca permitiu qualquer inspeção internacional de seu próprio programa nuclear.
Ao iniciar seu segundo mandato em 2025, Trump intensificou a ofensiva contra Teerã, exigindo não apenas o desmantelamento do programa nuclear, mas também o fim do programa de mísseis balísticos de longo alcance e o apoio a grupos de resistência a Israel, como o Hamas na Palestina e o Hezbollah no Líbano. Um dia antes da agressão contra o Irã, o chanceler de Omã, Badr bin Hamad Albusaidi, que atua como mediador entre Washington e Teerã, informou que as partes estariam muito próximas de um acordo, com o Irã supostamente concordando em não manter urânio enriquecido em níveis que possibilitariam a criação de uma bomba atômica.
Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos
Este panorama detalha a complexidade das relações entre Irã, Estados Unidos e Israel, com implicações significativas para a estabilidade do Oriente Médio e a política global. As acusações do embaixador Abdollah Nekounam lançam luz sobre a percepção iraniana de uma série de eventos que moldam o futuro do acordo nuclear. Para continuar acompanhando os desdobramentos da política internacional e outros temas relevantes, visite a seção de Política do Hora de Começar.
Crédito da imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil







