rss featured 23334 1780594650

Contaminação por Mercúrio em Gestantes Munduruku Preocupa

Saúde e Bem-estar

A contaminação por mercúrio em gestantes Munduruku da Terra Indígena no Médio Tapajós, Pará, atingiu níveis alarmantes, superando em mais de quatro vezes o limite de segurança estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A média encontrada nessas mulheres é de 9,1 microgramas do metal por grama de cabelo (µg/g), quando o patamar seguro não deveria exceder 2 µg/g.

Tais descobertas fazem parte dos resultados preliminares de um extenso Estudo Longitudinal de Gestantes e Recém-Nascidos Indígenas Expostos ao Mercúrio na Amazônia, conduzido por pesquisadores da renomada Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz). A pesquisa detalha a severidade da exposição ao elemento tóxico na região.

Os dados chocantes foram apresentados publicamente nesta quarta-feira, 3 de junho de 2026, pelo coordenador da pesquisa, Paulo Basta, durante sua participação na Rio Nature & Climate Week, evento focado em discussões climáticas na cidade do Rio de Janeiro. A ampla disseminação dos resultados busca alertar sobre a urgência da situação.

Contaminação por Mercúrio em Gestantes Munduruku Preocupa

Das 195 mulheres que foram monitoradas durante o estudo, um percentual impressionante de 97% apresentou níveis de mercúrio em seus organismos que ultrapassam o patamar de segurança. Em um dos casos mais extremos documentados, uma das gestantes registrou a presença de 39,9 µg/g do metal, um valor que representa mais de 20 vezes o limite considerado tolerável para a saúde humana.

Entre o grupo de mulheres acompanhadas, 134 já haviam dado à luz até o momento da pesquisa. Os recém-nascidos também estão sendo monitorados ativamente pelos cientistas, e os resultados preliminares indicam que aproximadamente 90% deles nascem já contaminados pelo mercúrio. Essa transmissão ocorre diretamente da mãe para o bebê por meio da placenta durante a gestação, evidenciando uma vulnerabilidade precoce e preocupante.

As concentrações de mercúrio nos bebês atingem uma média de 5,8 µg/g, o que equivale a três vezes o limite seguro estabelecido. Notavelmente, em um cenário de contaminação mais severa, um recém-nascido chegou a apresentar 30,8 µg/g, um patamar 15 vezes superior ao tolerável para a saúde infantil.

Impactos Severos no Neurodesenvolvimento Infantil

“Esse bebê é monitorado ao longo dos primeiros dois anos de vida em diferentes momentos. São acompanhadas as curvas de crescimento, de peso para a idade, de estatura, entre outros. A nossa hipótese é que a exposição durante o período pré-natal ao mercúrio provoca retardo nesses marcos do neurodesenvolvimento”, explicou Paulo Basta, coordenador do estudo.

O mercúrio, uma vez no organismo, se transforma em uma potente neurotoxina com efeitos devastadores, especialmente sobre o tecido do sistema nervoso central. O pesquisador alerta para a natureza irreversível dessas lesões. “Uma lesão que ocorre no sistema nervoso central é uma lesão irreversível. As pessoas vão ter que lidar com esse problema para sempre”, enfatiza Basta, sublinhando a gravidade das consequências a longo prazo.

Basta ainda menciona um aumento na incidência de crianças nascendo com uma série de condições preocupantes, como doenças neurológicas raras, síndromes diversas, anomalias congênitas e outras patologias ainda sem diagnóstico definitivo. Todas essas condições são fortemente suspeitas de estarem interligadas à exposição e contaminação por mercúrio. Ele também realça o fato de que o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Rio Tapajós tem sido a unidade de saúde com maior demanda por cadeiras de rodas ao Ministério da Saúde, um indicativo da crescente necessidade de cuidados para pessoas com deficiências motoras, que podem estar relacionadas à toxicidade do metal.

Desafio na Notificação e Casos Identificados

Apesar da gravidade da situação, o pesquisador Paulo Basta ressalta a importância de que esses dados se convertam em estatísticas oficiais, algo que, até recentemente, era inexistente no Brasil. “O nosso sistema ainda não tem disponível uma ficha de notificação para os casos de contaminação específica por mercúrio”, lamentou Basta, evidenciando uma lacuna significativa na coleta de dados e no reconhecimento formal do problema.

Ainda assim, mesmo com as limitações apontadas, o estudo conseguiu identificar 751 casos de indígenas com contaminação por mercúrio confirmada laboratorialmente. Desse total, 318 casos foram registrados no estado do Pará, enquanto 378 foram mapeados em Roraima, principalmente afetando o povo Yanomami, o que demonstra a amplitude geográfica do problema. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) tem sido uma das instituições pioneiras na pesquisa e divulgação de informações sobre a exposição ao mercúrio em populações indígenas na Amazônia, conforme detalhado em diversas publicações e estudos realizados pela instituição sobre o tema.

A Revolta e o Impacto na Comunidade Munduruku

A liderança indígena Alessandra Korap Munduruku narra a profunda comoção coletiva que tomou conta da comunidade quando os resultados iniciais da contaminação por mercúrio foram revelados em 2022. A primeira etapa do estudo, que teve início em 2019, monitorou indivíduos de diversas idades em três aldeias da Terra Indígena Sawré Muybu.

“Estávamos doentes, mas sem exames, não sabíamos o que estava acontecendo. Quando tivemos os resultados, fizemos uma reunião e as mulheres estavam bem revoltadas. Perguntavam se deveriam interromper a gravidez porque o útero estaria contaminado e o leite materno também poderia contaminar os filhos”, relata Alessandra, expressando a angústia e a incerteza que se abateram sobre as famílias.

A região onde o povo Munduruku reside é assombada pelo garimpo ilegal de ouro há décadas. O mercúrio, um elemento-chave nesse processo para separar o ouro da terra, é despejado indiscriminadamente nos rios, contaminando não apenas a água, mas também toda a cadeia alimentar aquática. A principal via de entrada do metal no organismo humano ocorre por meio do consumo de peixes contaminados, que constituem a base da alimentação indígena.

Contaminação por Mercúrio em Gestantes Munduruku Preocupa - Imagem do artigo original

Imagem: Rovena Rosa via agenciabrasil.ebc.com.br

“Nossa principal fonte de alimento é o peixe e não há como fugir disso. Para quem mora na cidade é muito fácil. Vão nas prateleiras, compram frango e carne, tem outras opções. O coração dói quando vê a situação do povo, porque eles não têm como sair do território e ir para outro lugar”, desabafa Alessandra, ilustrando o dilema enfrentado por sua comunidade.

Em um questionamento que ecoa a luta por direitos e reconhecimento, a liderança indígena indaga: “O lugar é nosso. Porque precisamos dar nosso espaço para empresas, garimpo, mineração, hidrelétricas, ferrovias? Porque que a carne do índio é mais barata? É como se nós não existíssemos. Que progresso é esse que mata rios, florestas e expulsa os povos?”.

O Rastro Destrutivo do Garimpo na Amazônia

Dados do MapBiomas indicam que aproximadamente 92% de toda a área garimpada no Brasil, seja legal ou ilegalmente, está concentrada na Amazônia. Estima-se ainda que cerca de 85% dessas atividades garimpeiras no país são dedicadas à extração de ouro, perpetuando o ciclo de destruição ambiental e social.

A alta incidência de ilegalidade no setor garimpeiro acarreta uma série de impactos socioambientais que vão muito além da já crítica contaminação por mercúrio. Incluem desmatamento massivo, aumento da violência, conflitos agrários com povos tradicionais, exploração por meio de trabalho escravo, sonegação de impostos e evasão de divisas, configurando um cenário complexo e desafiador para a região.

Um estudo recente, divulgado nesta semana pelo Greenpeace, joga luz sobre como as Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) estão sendo utilizadas como subterfúgio para a venda de ouro extraído ilegalmente da Amazônia. Essa prática tem gerado impactos devastadores em terras indígenas e áreas protegidas. A estratégia permite que garimpeiros escapem do rigoroso licenciamento ambiental exigido para a mineração industrial e facilita a “lavagem” de ouro de origem ilícita.

Entretanto, os impactos negativos do garimpo não se restringem apenas às operações ilegais, como aponta uma análise da Climate Policy Initiative. A atividade garimpeira no Brasil é regulamentada principalmente pelo Código de Mineração, pela Lei nº 7.805/1989 e pelas normas da Agência Nacional de Mineração (ANM).

De acordo com os analistas, a fragilidade no controle da atividade decorre de flexibilizações indevidas no processo de licenciamento ambiental em nível estadual e de uma notória falta de transparência na implementação de salvaguardas socioambientais. Tais falhas criam um ambiente propício para a proliferação de práticas danosas.

A promotora do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), Eliane Moreira, reforça a responsabilidade conjunta de todos os entes públicos – em níveis municipal, estadual e federal – no ciclo que engloba o garimpo e a consequente contaminação dos povos indígenas por mercúrio.

“Essa grande contaminação de mercúrio acontece a partir de um licenciamento bastante frágil. Em municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), não há estrutura institucional para uma fiscalização suficiente e existe um ambiente propício para toda essa tragédia”, conclui a procuradora, apontando para a necessidade urgente de fortalecer a governança e a fiscalização ambiental nas regiões afetadas.

Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos

Em suma, a situação das gestantes e bebês Munduruku expostos ao mercúrio na Amazônia é um reflexo contundente dos desafios impostos pelo garimpo ilegal e pela fiscalização deficiente. As consequências para a saúde são irreversíveis e exigem atenção imediata das autoridades. Para aprofundar seu conhecimento sobre temas relevantes que afetam a sociedade brasileira e o meio ambiente, continue acompanhando as análises e notícias em nossa editoria.

Crédito da imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil

Deixe um comentário