O avanço da agricultura orgânica no Nordeste brasileiro está redefinindo o panorama do setor no país, consolidando a região como um novo polo de crescimento. Em um cenário nacional que registrou uma queda inédita no total de produtores certificados em 2026, estados nordestinos demonstraram uma expansão robusta, impulsionada por arranjos produtivos locais e pela crescente adoção de sistemas coletivos de garantia.
Dados do Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, compilados pelo Observatório do Brasil Orgânico e ligado ao Instituto Brasil Orgânico (IBO), revelam que o Brasil encerrou o ano de 2026 com 23.728 unidades de produção. Este número representa uma redução em relação aos 25.178 registros de 2025, marcando uma retração de 5,7%, o equivalente a 1.450 produtores a menos, configurando a primeira queda desde o início da série histórica de monitoramento.
Nordeste impulsiona agricultura orgânica no Brasil com avanço
Contrariando a leitura inicial de um possível enfraquecimento do segmento, o presidente do IBO e engenheiro agrônomo, Rogério Dias, esclarece que a diminuição no índice nacional não reflete uma crise generalizada. A retração foi predominantemente influenciada pela desfiliação de grandes grupos extrativistas certificados nos estados do Pará e Maranhão, que estavam vinculados a cadeias produtivas específicas. A saída desses grupos de certificações coletivas resultou na exclusão simultânea de mais de 1.800 registros do cadastro nacional.
“Os números atuais indicam que não enfrentamos uma crise estrutural na agricultura orgânica. O que se observou foi um movimento concentrado em cadeias extrativistas organizadas sob certificações coletivas. Quando uma certificadora interrompe o suporte a um determinado grupo, um grande número de produtores é desvinculado do cadastro simultaneamente”, detalha Dias, que também atua como conselheiro do IBO. Ele, no entanto, expressa preocupação com a diminuição de investimentos e políticas públicas governamentais voltadas para o setor. Em 2026, os recursos destinados ao fomento da atividade situaram-se em R$ 900 mil, um volume significativamente inferior aos R$ 7,5 milhões registrados em 2016. É fundamental que as políticas públicas sejam reforçadas para o desenvolvimento sustentável do setor, conforme orientações do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).
Crescimento Acelerado e Diversificação na Região Nordeste
Enquanto a região Norte experimentava baixas pontuais, o Nordeste brasileiro avançava consistentemente na estruturação de sua produção orgânica. A Paraíba despontou na liderança do crescimento regional, adicionando 246 novas unidades produtivas formalizadas. Em seguida, a Bahia registrou um aumento de 209 produtores, o Rio Grande do Norte expandiu em 169 produtores e Pernambuco viu sua base crescer em 137 novos produtores.
Na Paraíba e no Rio Grande do Norte, o cultivo de algodão orgânico emergiu como o principal motor dessa significativa expansão. Já na Bahia, que atualmente ocupa a terceira posição entre os estados com o maior número total de produtores orgânicos no Brasil, contabilizando 1.895 unidades, o crescimento foi impulsionado tanto pela diversificação de culturas quanto pela notável atuação da Rede Povos da Mata, reconhecida nacionalmente por sua excelência em certificação participativa.
Panorama Nacional e A Virada dos Sistemas Participativos de Garantia
Apesar da notável mudança no eixo de crescimento da produção orgânica para o Nordeste, a região Sul do Brasil ainda detém o maior volume absoluto de unidades produtoras. O Paraná continua no topo do ranking nacional, com 4.292 registros, seguido de perto pelo Rio Grande do Sul, que contabiliza 3.158 produtores. Outros estados com grande número de produtores incluem Bahia (1.895), São Paulo (1.632) e Pará (1.512).

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O balanço de 2026 também marcou um ponto de virada histórico no perfil da regulamentação da produção orgânica no país. Pela primeira vez, os Sistemas Participativos de Garantia (SPGs), um modelo que se baseia na responsabilidade mútua e no controle social exercido pelos próprios agricultores, superaram a tradicional certificação por auditoria, realizada por empresas privadas. Os SPGs alcançaram 9.788 unidades produtivas no ano, em comparação com 8.855 registros do modelo tradicional de auditoria. Para o Observatório do Brasil Orgânico, esse fenômeno ressalta o fortalecimento de modelos coletivos e territoriais de organização dos produtores, uma característica marcante do avanço observado na região Nordeste.
Rogério Dias conclui que o mapa atual da produção orgânica brasileira exige uma abordagem mais aprofundada dos dados e um fortalecimento das articulações regionais para identificar gargalos e assegurar um crescimento sustentável. “O momento atual demanda uma análise mais detalhada dos dados. Há indícios claros de uma reorganização territorial da produção orgânica no Brasil, com novas regiões ganhando destaque e novos modelos de certificação demonstrando grande capacidade de expansão e adaptação”, afirma o presidente do IBO.
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Em suma, a emergência do Nordeste como um motor essencial para a agricultura orgânica brasileira é uma tendência que merece atenção. Este movimento, caracterizado por crescimento regional e a consolidação de modelos de certificação participativa, aponta para um futuro promissor e mais distribuído para os produtores orgânicos no país. Para mais análises e notícias sobre o cenário econômico e as tendências do agronegócio, continue acompanhando nossa editoria de Economia.
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