A Copa 2026, que se prepara para ser a maior edição de todos os tempos, com a participação de 48 seleções distribuídas por 16 cidades em três países-sede, enfrenta uma projeção alarmante: o evento está prestes a se tornar o mais poluente da história do futebol mundial. Um estudo aprofundado lança luz sobre o impacto climático significativo que o torneio deverá gerar, levantando preocupações entre especialistas e ambientalistas.
A pesquisa intitulada “Fifas Climate Blind Spot: The Mens World Cup in a Warming World” (O ponto cego da Fifa: a Copa do Mundo masculina em um mundo em aquecimento, em tradução livre) é categórica em suas conclusões. De acordo com o levantamento, a edição de 2026 do campeonato deve ser responsável pela emissão de aproximadamente 9 milhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera.
Copa 2026: Estudo aponta torneio como o mais poluente
O estudo foi conduzido por uma colaboração estratégica entre a Scientists for Global Responsibility (SGR), o Fundo de Defesa Ambiental, a Rede de Esporte para a Ação Climática e o Instituto Novo Tempo. A metodologia empregada considerou uma vasta gama de fontes de emissão, incluindo viagens aéreas de equipes, torcedores e delegações, a construção de novos estádios, reformas de infraestruturas existentes e a demanda por hospedagem nas cidades anfitriãs.
Os Alarmantes Números da Copa 2026
Para se ter uma dimensão do impacto previsto, os pesquisadores realizaram uma comparação com edições anteriores do Mundial. A média de emissões de dióxido de carbono para as Copas realizadas entre 2010 e 2022 foi de 4,71 milhões de toneladas. Isso significa que o torneio de 2026 praticamente duplicará essa marca histórica. Em um comparativo ainda mais palpável, as emissões projetadas para esta edição equivalem ao que seria gerado por 6,5 milhões de carros circulando no Reino Unido durante um ano inteiro.
Principais Causadores do Impacto Ambiental
Os fatores primordiais para o aumento drástico das emissões são dois: a expansão do número de seleções participantes de 32 para 48 equipes e a decisão de realizar o campeonato em três países-sede distintos (Estados Unidos, Canadá e México). Este último elemento, a distribuição geográfica do evento, é considerado o mais impactante. Segundo o estudo, mesmo se o número de equipes fosse mantido, a Copa de 2026 ainda seria a mais poluente, superando, inclusive, as projeções para as duas edições seguintes.
Projeções Futuras e Outras Avaliações
As estimativas para as próximas Copas também reforçam a tendência de eventos de grande porte com pegada de carbono elevada. A Copa de 2030, que terá seis sedes, mas concentrará a maior parte dos jogos na Espanha, é projetada para gerar 6,09 milhões de toneladas de emissões. Já a edição de 2034, prevista para a Arábia Saudita, pode alcançar a marca de 8,55 milhões de toneladas, aproximando-se perigosamente dos níveis da Copa 2026.
Corroborando essas descobertas, outros levantamentos independentes chegaram a conclusões similares. Uma análise da plataforma global de contabilização de carbono Greenly estimou as emissões da Copa de 2026 em 7,8 milhões de toneladas métricas de dióxido de carbono, um valor que se assemelha às emissões anuais totais de Serra Leoa. Essa métrica adicional reitera a posição do evento como o mais poluente da história do futebol.
O Papel Crítico do Transporte Aéreo
O transporte aéreo se destaca como o principal vilão nesse cenário. A pesquisa da SGR aponta que as viagens de avião devem ser responsáveis por cerca de 7 milhões de toneladas de emissões na edição de 2026. Este número é significativamente superior à média de 1,82 milhão de toneladas registrada entre 2010 e 2022, e também supera a expectativa para as futuras Copas, que deve girar em torno de 4,75 milhões de toneladas.
David Gogishvili, pesquisador da Universidade de Lausanne, na Suíça, enfatizou a relevância do problema em entrevista à instituição: “O transporte é um dos maiores contribuintes para a pegada de carbono de grandes eventos esportivos, especialmente quando espectadores, equipes, imprensa e dirigentes viajam longas distâncias e quando as cidades-sede estão geograficamente dispersas por um ou mais países.” Ele adiciona que, nas Copas do Mundo masculinas da Fifa, as alternativas de transporte sustentável para muitas dessas viagens são praticamente inexistentes, tornando o transporte aéreo quase inevitável.
A Responsabilidade da FIFA e Compromissos Firmados
Diante desse cenário preocupante, especialistas em mudanças climáticas têm alertado para a responsabilidade da Fifa, entidade organizadora do torneio, em relação aos impactos ambientais de uma competição de tamanha magnitude. Stuart Parkinson, da Scientists for Global Responsibility e principal autor do estudo, afirmou que “A Fifa precisa assumir a responsabilidade por seu papel crescente na crise climática.” Ele sugere que, com a rápida escalada da crise, a única resposta sensata é a Fifa tomar medidas imediatas para reduzir significativamente as emissões do torneio.

Imagem: infomoney.com.br
Samran Ali, do Fundo de Defesa Ambiental, ressalta que o custo climático do evento não é meramente abstrato, mas sentido diretamente por comunidades que já enfrentam as severas consequências das mudanças climáticas. Ele defende que a responsabilidade ambiental em eventos dessa escala não pode ser secundária. Ali propõe a necessidade de “contabilidade transparente e cortes reais de emissões, apoiados por padrões vinculantes, limites confiáveis e parcerias que reflitam uma ambição climática séria”.
A Fifa, por sua vez, assumiu um compromisso público com uma estratégia climática em novembro de 2021, durante a COP26, realizada em Glasgow, na Escócia. O objetivo declarado é reduzir as emissões de gases poluentes ao longo das duas décadas seguintes. Naquela ocasião, o presidente da entidade, Gianni Infantino, declarou que a Fifa desenvolveu uma estratégia abrangente e está empenhada em investir recursos substanciais para que a organização e o futebol alcancem os “objetivos ambiciosos e necessários do Quadro de Ação Climática do Esporte da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima)”. Para mais informações sobre este compromisso global, pode-se consultar o Quadro de Ação Climática do Esporte da UNFCCC.
A estratégia climática da Fifa está alicerçada em quatro pilares fundamentais: educar os profissionais do futebol sobre os impactos climáticos e as soluções sustentáveis; adaptar regulamentos e atividades do esporte para torná-los mais resilientes; reduzir as emissões de carbono da própria Fifa e do futebol, em linha com o Acordo de Paris; e investir em proteção climática, fornecendo conhecimento aos envolvidos no esporte para lidar com os efeitos das mudanças climáticas.
Medidas de Sustentabilidade e Recomendações
Apesar do ceticismo sobre as principais fontes de emissão, David Gogishvili, da Universidade de Lausanne, reconhece que algumas medidas de sustentabilidade podem gerar efeitos positivos e não devem ser ignoradas. Ele cita exemplos como a melhoria da gestão de resíduos, o incentivo ao uso de transporte público nas proximidades dos eventos, o aumento da eficiência energética em instalações e a redução de construções temporárias.
No entanto, o pesquisador mantém uma postura cética em relação à capacidade dessas ações de compensar os impactos maiores. “Medidas de grande visibilidade, como copos reutilizáveis ou melhorias energéticas em estádios, podem ser úteis. No entanto, elas não compensam as emissões associadas à aviação internacional ou às necessidades de infraestrutura em larga escala”, explica Gogishvili. Ele defende que uma Copa do Mundo verdadeiramente alinhada às metas climáticas deveria partir de limites ambientais pré-definidos, em vez de presumir que a expansão do torneio pode ser mitigada apenas por meio de medidas de eficiência.
Entre as principais recomendações de Gogishvili para um evento mais sustentável estão: a utilização de estádios e instalações já existentes; a definição de orçamentos de carbono claros para o evento; e, acima de tudo, a concepção do torneio para um espaço geográfico mais compacto, o que reduziria drasticamente a dependência do transporte aéreo e, consequentemente, as emissões associadas.
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A discussão em torno da Copa do Mundo de 2026 e seu impacto climático levanta questões cruciais sobre a sustentabilidade de megaeventos esportivos na era das mudanças climáticas. As projeções alarmantes demandam uma reflexão profunda e ações concretas por parte de todas as partes envolvidas. Para acompanhar mais notícias e análises sobre o mundo do esporte e seus desafios, continue navegando em nossa editoria de Esporte.
Crédito da imagem: REUTERS/Francisco Loureiro






