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O impacto do juro na economia: Mercado teme crise de crédito

Economia

A economia brasileira começa a sentir os efeitos da política monetária restritiva do Banco Central (BC), com o mercado financeiro expressando temores de uma iminente crise de crédito e o risco de recessão em 2027. O cenário é marcado pelo avanço da inadimplência e por um aumento nos pedidos de recuperação judicial, incluindo o recente caso da Casas Bahia, que protocolou um pedido em 16 de julho, envolvendo cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. Apesar de quatro cortes na Selic, que a reduziram de 15% para 14% desde março, os juros permanecem em patamar restritivo. A ausência de um ajuste fiscal mais célere agrava a situação, limitando um alívio mais rápido e, consequentemente, elevando a probabilidade de uma crise de crédito com potencial de levar a uma retração econômica nos próximos anos, conforme análises de economistas de mercado.

Adauto Lima, economista para o Brasil da gestora Franklin Templeton, ressalta que o impacto dos juros demorou a se manifestar plenamente, mas agora atinge com força uma economia brasileira que se encontra altamente alavancada, tanto no setor corporativo e familiar quanto no governamental. Ele aponta que o ambiente de juros elevados, previsto para perdurar neste ano e no próximo, amplifica o risco de uma crise de crédito que pode frear a atividade econômica nos meses subsequentes. Para Lima, há uma chance de aproximadamente 20% de uma recessão em 2027. Embora seu cenário-base preveja um crescimento do PIB de 1,5%, o economista não descarta a possibilidade de o país registrar alguns meses de retração na atividade, embora descarte uma queda abrupta semelhante à observada em 2015 e 2016, após o governo Dilma Rousseff, prevendo um ou dois meses de PIB mais fraco ou negativo.

O impacto do juro na economia: Mercado teme crise de crédito

Inicialmente, o impacto dos juros sobre o crédito foi atenuado pelo crescimento do mercado de capitais no financiamento empresarial. Mecanismos como incentivos fiscais e custos reduzidos impulsionaram essa alternativa. Adicionalmente, a expansão de cartões, novos modelos de crédito consignado e o crescimento dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) contribuíram para ampliar a oferta de recursos para famílias e empresas, compensando a retração observada nas linhas bancárias tradicionais. No entanto, esse cenário de liquidez abundante já mostra sinais claros de inflexão. Os dados de emissão de debêntures registraram uma queda de 28,7% no acumulado do ano até julho. A captação de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) diminuiu 23,5%, e a de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) apresentou um recuo ainda mais expressivo de 57,5%. Essa retração no mercado de capitais eleva a preocupação em relação ao futuro do crédito.

Adauto Lima já identifica um aumento nos processos de recuperação judicial de empresas e um maior número de famílias em atraso com suas dívidas. Contudo, ele enfatiza que essa situação, por ora, não configura uma “quebradeira” generalizada. A incerteza para 2027, em sua análise, deriva do risco de o Brasil emergir desse período com a economia já em um processo de desalavancagem, perdendo tração, e com uma política monetária que necessitará se manter restritiva devido à persistência da inflação. Um relatório do Citi corrobora essa visão, apontando que nem o aumento das transferências sociais nem os programas governamentais de auxílio foram eficazes na redução da inadimplência, com a expectativa de que os atrasos continuem a piorar. O economista Lima observa que a economia já apresenta sinais de desaceleração no terceiro trimestre, antevendo um segundo semestre mais fraco. Caso essa projeção se concretize, o país chegaria a 2027 com um crescimento de 1,5%, o que poderia gerar a percepção de uma recessão ou uma desaceleração mais acentuada. Ele argumenta que cortes de juros de 0,25 ponto percentual por reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) não serão suficientes para alterar o panorama no curto prazo. A combinação de instrumentos de crédito em retração, alta alavancagem e a dificuldade do Banco Central em promover cortes de juros mais substanciais pode, segundo Lima, provocar uma ruptura capaz de levar a um cenário de queda do PIB por alguns meses.

Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos, pondera que a possibilidade de uma recessão em 2027 não pode ser totalmente descartada, mas, na visão atual, o risco seria limitado. Ele projeta a observação de variações negativas do PIB em alguns trimestres, mas não de forma consecutiva, especialmente em uma análise anual, o que não figura como o cenário principal da casa. A expectativa, no entanto, é de uma piora generalizada na atividade econômica. A XP trabalha com um crescimento do PIB de 2% para este ano, desacelerando para 1% em 2027. Essa projeção é atribuída à redução dos estímulos fiscais e parafiscais, bem como a uma política monetária que, embora em menor grau, permanecerá contracionista. As estimativas da XP apontam uma Selic de 14% ao final deste ano e de 11,5% ao final de 2027. Essas projeções são mais conservadoras do que a mediana do mercado, expressa no relatório Focus, que indica uma Selic de 13,75% em dezembro de 2026 e um PIB de 1,57% em 2027. A XP, inclusive, projeta a interrupção do ciclo de cortes de juros já na reunião do Copom de setembro. Margato ainda destaca o elevado endividamento de empresas e, principalmente, de famílias como um fator limitante para um crescimento econômico mais robusto. Soma-se a isso os efeitos do fenômeno El Niño sobre o agronegócio, a discussão da reforma tributária e as mudanças na escala 61, cuja proposta tramita no Senado e avançou recentemente.

Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, corrobora a visão de que 2027 será um ano desafiador para o Brasil. Para ele, o país está atingindo o limite da expansão fiscal, inclusive para as correntes políticas com maior viés gastador. Além disso, empresas e famílias estão excessivamente alavancadas. Perri adverte que, sem o “anabolizante” dos gastos públicos deste ano, o país pode mergulhar em um ambiente recessivo muito severo, similar ao que foi observado a partir de 2015. O economista aponta o risco de um choque de confiança negativo sobre a política econômica nos próximos anos, especialmente no âmbito fiscal. Por exemplo, a ausência de qualquer sinalização de reforma nas contas públicas por parte do próximo governo, independentemente de quem seja eleito, poderia levar a um aumento do prêmio de risco. Isso, por sua vez, impactaria severamente a confiança de investidores, empresários e consumidores. Nesse cenário, Perri prevê uma queda na atividade econômica, combinada com a valorização do dólar e pressão inflacionária, resultando no fenômeno da estagflação. Embora não seja o cenário-base da Forum Investimentos, ele ressalta a importância de monitorar essa possibilidade. Adauto Lima concorda que a questão fiscal será determinante para que o processo de desalavancagem da economia não resulte em recessão. Um ajuste fiscal robusto e crível, embora pudesse pesar sobre a atividade em um primeiro momento, seria compensado pelo espaço que o Banco Central ganharia para cortar os juros de forma mais rápida. Lima recorda que, em 2016, com a criação do teto de gastos, os juros de longo prazo registraram uma queda veloz, permitindo ao BC reduzir a Selic para 6,5% e aliviar significativamente o custo financeiro para as empresas.

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Imagem: infomoney.com.br

Na avaliação de Bruno Perri, o cenário mais favorável seria a sinalização antecipada, por parte dos candidatos favoritos, de disposição para implementar um ajuste fiscal, mesmo que os cortes de gastos tivessem um impacto no curto prazo, tal como ocorreu em 2016. Matheus Jaconeli, analista de investimentos e portfólio da ZIIN, plataforma de investimentos da Unicred, aponta que as expectativas do mercado tendem mais para um cenário de desaceleração do que propriamente de recessão. Contudo, Jaconeli reforça a importância crucial da agenda fiscal. Ele lembra que o início de mandato de um governo geralmente oferece a janela ideal para a implementação de ajustes, aproveitando o capital político inicial antes que a necessidade de focar em medidas de popularidade se torne premente. Um avanço significativo nessa agenda fiscal, conclui, teria um impacto altamente positivo para o desempenho da Bolsa de Valores.

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O cenário econômico brasileiro se mostra desafiador para os próximos anos, com a política monetária e a questão fiscal no centro das discussões sobre uma possível crise de crédito e os rumos do crescimento. A cautela dos economistas reflete a complexidade de conciliar o controle da inflação com a sustentabilidade da dívida e a vitalidade da atividade econômica. Para aprofundar suas análises sobre as perspectivas econômicas do país, continue acompanhando nossa editoria de Economia.

Crédito da imagem: Freepik

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