Donald Trump criticou o governo brasileiro por, segundo sua avaliação, ter demonstrado falhas significativas no enfrentamento às facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). A declaração do ex-presidente dos Estados Unidos foi divulgada em um documento anual enviado ao Congresso norte-americano, datado de terça-feira, 15 de setembro. O relatório em questão elenca países considerados cruciais na rota de trânsito ou na produção de drogas ilícitas para o ano fiscal de 2027, além de apresentar análises individuais sobre a performance de diversos governos.
De acordo com o texto assinado por Trump, enquanto uma série de “governos do Hemisfério Ocidental” implementaram “medidas corajosas” com o objetivo de reduzir o fluxo de entorpecentes e erradicar cartéis, o “governo do Brasil não conseguiu enfrentar as organizações terroristas estrangeiras designadas Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho”. O documento enfatiza que a atuação dessas facções teria transformado o Brasil em um “centro para os fluxos globais de cocaína”.
Trump Critica Brasil por Falha em Enfrentar Facções Criminosas
O ex-mandatário norte-americano reforçou a gravidade da situação, afirmando que “essas organizações terroristas brasileiras constituem uma ameaça crescente à paz e à segurança em todo o mundo”. Ele acrescentou que o governo brasileiro “precisa urgentemente adotar medidas agressivas para enfrentá-las e derrotá-las antes que se espalhem e cresçam”.
Designação Anterior e Implicações
A designação do PCC e do CV como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês) pelo governo dos EUA não é recente. O anúncio oficial foi feito pelo Departamento de Estado em 28 de maio de 2026, com a medida entrando em vigor em 5 de junho do mesmo ano. Essa classificação foi fundamentada na seção 219 da Lei de Imigração e Nacionalidade dos Estados Unidos e em uma ordem executiva do então presidente Donald Trump. Para mais detalhes sobre as designações de organizações terroristas estrangeiras, consulte o site oficial do Departamento de Estado dos EUA.
Na ocasião da designação, Marco Rubio, então secretário de Estado americano, salientou que o PCC e o CV estão entre os grupos criminosos mais violentos do Brasil, com redes que se estendem para além das fronteiras nacionais. A categorização como organizações terroristas expande o leque de instrumentos disponíveis às autoridades norte-americanas para aplicar sanções e implementar ações contra indivíduos e entidades vinculados a esses grupos.
Apesar da designação e das críticas de Trump, o Brasil não foi listado no documento como um país que “falhou de maneira demonstrável” em cumprir suas obrigações internacionais de combate às drogas, conforme as leis americanas. Essa classificação específica foi atribuída a países como Afeganistão, Bolívia, Birmânia, Colômbia e Venezuela. Adicionalmente, o Brasil também não integra a relação dos principais países de trânsito ou produção de drogas ilícitas, que inclui nações como Afeganistão, Bahamas, Belize, Bolívia, Birmânia, China, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, Índia, Jamaica, Laos, México, Nicarágua, Paquistão, Panamá, Peru e Venezuela.
Reação do Governo Brasileiro
Em resposta às alegações, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) do Brasil emitiu uma nota refutando qualquer indicação de falhas ou omissões no combate ao crime organizado transnacional. A pasta argumentou que a posição expressa na nota de Trump “desconsideraria, se acolhida em todos os seus termos, os esforços do Governo Federal no enfrentamento ao crime organizado”.
O MJSP citou, como exemplo, a “Lei Antifacção”, sancionada em março de 2026, que introduz penas mais severas para líderes de facções e estabelece mecanismos eficazes para sufocar suas operações. A nota brasileira também ressaltou que a manifestação norte-americana não considerou as “dezenas de milhares de operações” de combate ao crime realizadas pelas forças federais, que resultaram em “bilhões de reais de prejuízo aos criminosos”. Além disso, foram mencionadas as “múltiplas ações implementadas em 2026 no âmbito do Programa Brasil contra o Crime Organizado”, lançado em maio do mesmo ano, que busca sufocar economicamente as facções, fortalecer o sistema prisional, qualificar a investigação de homicídios e combater o tráfico de armas.
Ainda segundo a nota do governo brasileiro, a manifestação de Trump desconsidera a “robusta cooperação já existente” entre Brasil e EUA no combate ao crime organizado transnacional. O MJSP frisou uma proposta detalhada, entregue pessoalmente pelo presidente Lula em 7 de maio de 2026, em Washington, que incluía medidas conjuntas para enfrentar a lavagem de dinheiro, compartilhar inteligência e combater o tráfico de armas. O Brasil, conforme a nota, aguarda uma possível resposta do governo dos EUA a essa proposta.
Elogios a Governos Aliados e Críticas a Outros
No mesmo documento, Donald Trump dirigiu elogios a países com governantes considerados mais alinhados aos EUA, como Argentina, Equador e El Salvador. Ele também fez menções positivas sobre Venezuela, Bolívia, Colômbia e Peru, destacando as recentes mudanças de governo nesses países como um fator que alterou a percepção no enfrentamento ao narcotráfico. Esse tratamento contrasta com as críticas direcionadas ao Brasil e à Nicarágua no mesmo relatório, bem como a outros países com governos menos alinhados aos interesses norte-americanos.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
No caso específico da Colômbia, Trump elogiou a eleição de Abelardo de la Espriella, afirmando que o novo presidente assumiu o compromisso de promover uma campanha agressiva contra o cultivo de coca e a produção de cocaína. Para a Bolívia, Trump manifestou apoio ao novo governo sob o presidente Rodrigo Paz, eleito em 2025, indicando que sua eleição abriu “um novo capítulo” nas relações bilaterais e destacou a expansão da cooperação em segurança e combate às drogas. No Peru, Trump elogiou o compromisso da nova presidente, Keiko Fujimori, de colaborar com os EUA e “outros países aliados” para combater organizações criminosas e reduzir o fluxo de cocaína.
É importante ressaltar que, apesar dos elogios, Peru, Colômbia, Equador e Venezuela continuam na lista de países considerados relevantes no trânsito ou na produção de drogas ilícitas. O próprio documento esclarece que essa classificação não implica, necessariamente, que o governo do país não coopere ou não adote medidas de combate às drogas.
Críticas a México, Canadá e China
O relatório de Trump também incluiu críticas a outras nações, apesar de reconhecer alguns esforços de vizinhos como México e Canadá. O tom, contudo, foi mais severo do que em relação aos governos sul-americanos considerados aliados. “Embora meu governo tenha protegido com sucesso nossas fronteiras contra a invasão, Canadá e México precisam fazer muito mais para interromper os fluxos de drogas mortais para nosso país”, apontou o documento. Foi destacado que o fentanil continua a ser produzido ilegalmente em laboratórios clandestinos no Canadá, e produtos químicos precursores e drogas sintéticas continuam a entrar nos Estados Unidos via Canadá.
Em relação ao México, Trump exigiu que o país adote medidas adicionais “contra as organizações narcoterroristas que dominam vastas áreas de seu território e continuam ameaçando o povo americano”. Ele cobrou que o México reforce a integridade de sua cadeia de fornecimento, buscando maior participação do setor privado e aumentando significativamente as inspeções em seus pontos de entrada.
Quanto à China, considerada o maior rival econômico dos EUA, o documento apontou que o gigante asiático “continua sendo o maior produtor mundial de muitos dos produtos químicos precursores utilizados na produção ilícita de fentanil, metanfetamina e outras drogas sintéticas”. Trump afirmou ter tratado diretamente do assunto com o presidente Xi Jinping. No ano anterior, a pedido do governo americano, a China implementou novas exigências para que suas empresas obtivessem licenças antes de exportar determinados produtos químicos precursores para a América do Norte. Contudo, o documento observou que “criminosos continuam encontrando maneiras de contornar esses controles por meio do uso de produtos químicos precursores não regulamentados”. Trump exigiu da China medidas “mais agressivas” para reduzir o fluxo dessas substâncias, incluindo a classificação de produtos químicos precursores e substâncias adicionais solicitados pelos Estados Unidos.
O cenário geopolítico e as declarações do ex-presidente Trump evidenciam a complexidade do combate ao crime organizado transnacional e as diferentes abordagens e percepções entre nações. A posição do Brasil, em defesa de sua soberania e dos esforços já empreendidos, destaca a tensão diplomática em torno do tema.
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