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Eleitor EUA: Inflação Supera China em Anúncios de Campanha

Economia

Anúncios de campanha para as próximas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos revelam uma mudança notável nas prioridades dos eleitores. A inflação e o custo de vida emergiram como preocupações primárias, ofuscando as críticas à China, que antes dominavam o discurso político. Essa alteração estratégica reflete a crescente atenção de republicanos e democratas para questões econômicas domésticas, em detrimento de temas de política externa que historicamente mobilizavam a base eleitoral.

A análise de dados de publicidade eleitoral aponta para uma redução drástica no volume de mensagens negativas direcionadas a Pequim. Enquanto ciclos eleitorais anteriores apresentavam centenas de anúncios focados na China, o cenário atual demonstra uma clara reorientação dos recursos e da comunicação política, concentrando-se nas dificuldades econômicas enfrentadas pelos cidadãos americanos.

Eleitor EUA: Inflação Supera China em Anúncios de Campanha

Dados fornecidos pela AdImpact, uma renomada empresa de monitoramento de publicidade, e compartilhados com o Nikkei Asia, indicam que, no ciclo atual, candidatos e grupos políticos que disputam assentos no Congresso produziram apenas 44 anúncios televisivos distintos com críticas à China. Esse número representa uma queda significativa em comparação com os 190 anúncios registrados antes das eleições de meio de mandato de 2022 e os 216 observados no ciclo presidencial de 2024. O investimento financeiro nesses anúncios também seguiu a mesma tendência de queda, totalizando US$ 26,2 milhões, muito abaixo dos US$ 65,6 milhões gastos em 2022 e dos US$ 119,1 milhões em 2024, evidenciando uma diminuição acentuada na prioridade do tema.

Diferenças Partidárias e Foco da Crítica

Observa-se uma disparidade na abordagem entre os partidos. Os democratas, neste ciclo, veicularam apenas seis anúncios relacionados à China, todos provenientes de candidatos à Câmara dos Representantes, sem nenhuma peça publicitária em disputas para o Senado. Em contraste, no ciclo de 2024, os democratas haviam produzido 81 anúncios desse tipo. Segundo a análise do Nikkei Asia, os republicanos foram responsáveis por 86% dos anúncios antichineses deste ano, com a maioria focada na preocupação com a posse de terras agrícolas nos Estados Unidos por entidades chinesas.

Apenas um anúncio, veiculado por um comitê de ação política (PAC) republicano que apoia o senador do Alasca, Dan Sullivan, associou a China ao comércio de fentanil. Essa abordagem contrasta com a corrida presidencial de 2024, que incluiu mais de 40 anúncios que abordavam a crise dos opioides e sua conexão com o país asiático, sublinhando a mudança de foco temático mesmo dentro das críticas remanescentes.

A Influência de Donald Trump na Percepção da China

Historicamente, a adoção de uma postura firme em relação à China tornou-se uma prática comum entre ambos os partidos após o primeiro mandato do presidente Donald Trump. A opinião pública americana sobre Pequim se tornou fortemente negativa durante a pandemia de coronavírus. Antes das eleições de meio de mandato de 2022, candidatos de ambas as legendas veiculavam anúncios que culpavam a China por uma gama de problemas, desde a crise do fentanil até a perda de empregos no setor industrial. Esse panorama, contudo, sofreu uma alteração significativa.

Desde que Donald Trump retornou ao cargo em janeiro de 2025, ele descreveu ter uma “grande amizade” com o líder chinês, Xi Jinping. Segundo o Pew Research Center, a percepção dos americanos em relação à China também se tornou um pouco mais amena. Kyle Jaros, professor associado da Universidade de Notre Dame e especialista em relações EUA-China, destaca que “o sinal claro que ele dá de que deseja uma relação estável, e até cordial, com Xi, cria um verdadeiro dilema para alguns representantes republicanos em nível nacional”. Ele acrescenta que isso “diminuiu o ímpeto — entre muitos republicanos de destaque — de adotar uma postura agressiva contra a China”. Trump e Xi já se reuniram duas vezes desde que concordaram, em Busan, Coreia do Sul, em outubro de 2025, em interromper a troca de retaliações por meio de restrições comerciais, com a expectativa de mais dois encontros ainda este ano.

Questões Domésticas Eclipsam a Política Externa

Além da mudança de postura da liderança, questões internas também contribuíram para eclipsar a política externa nas campanhas. Michael Traugott, professor de estudos políticos na Universidade de Michigan, aponta que, embora os republicanos tenham dado grande ênfase à China e ao desequilíbrio comercial em 2024, as campanhas deste ano concentraram-se mais no histórico da administração Trump e nos impactos sobre as economias locais. “Estamos vivendo uma situação um tanto peculiar, já que a economia se deteriorou por diversos motivos — o conflito no Irã, as pressões inflacionárias, entre outros. Por isso, grande parte da campanha, até o momento, tem girado em torno de questões domésticas”, explicou Traugott.

Pesquisas recentes corroboram que a alta nos preços dos combustíveis e o custo de vida estão cada vez mais presentes nas preocupações dos eleitores. Essa priorização de temas econômicos locais demonstra uma resposta direta dos candidatos às ansiedades diárias dos cidadãos, redirecionando o foco que antes era dedicado a tensões comerciais ou geopolíticas globais.

Eleitor EUA: Inflação Supera China em Anúncios de Campanha - Imagem do artigo original

Imagem: Kevin Lamarque via valor.globo.com

A Retórica sobre Terras Agrícolas e o Campo

Neste ciclo eleitoral, a narrativa mais frequente envolvendo a China acusa entidades chinesas de se apossarem da agricultura americana por meio da compra de terras agrícolas. O republicano Taylor Burks, candidato à Câmara dos Representantes pelo Missouri, exemplificou essa retórica em um anúncio veiculado em junho: “Cresci em uma fazenda, mas a Marinha me enviou para o Mar do Sul da China. Agora, comunistas chineses estão comprando propriedades agrícolas familiares, como esta aqui. Portanto, se os políticos fracos e corruptos não impedirem isso, eu impedirei.”

Essa retórica ganha força apesar de um número recorde de restrições estaduais à compra de terras por parte de chineses, bem como de uma iniciativa em nível federal para proibir, em todo o país, a venda de terras agrícolas para a China. Os agricultores norte-americanos continuam sendo uma base eleitoral fundamental para o Partido Republicano, embora sua lealdade venha sendo testada pelo aumento dos custos de produção e outras pressões econômicas, como a interrupção da compra de soja dos Estados Unidos pela China no ano passado, que, desde então, foi retomada.

Legislação e os Efeitos da Retórica Antichinesa

Apesar de evitarem a menção direta a Pequim durante a campanha eleitoral, os legisladores apresentaram, na atual sessão, mais de 320 projetos de lei voltados contra a China. Este número representa uma queda de 11% em relação às 366 propostas legislativas sobre o país apresentadas pelo Congresso anterior, segundo dados do Comitê Nacional sobre as Relações Estados Unidos-China. Nas disputas para governos estaduais, o número de anúncios que criticam duramente a China passou de 16, em 2024, para 15 este ano, de acordo com dados da AdImpact, com a grande maioria veiculada por republicanos.

A senadora republicana Marsha Blackburn, que concorre ao cargo de governadora do Tennessee, apareceu em um anúncio esmagando biscoitos da sorte — um item clássico em restaurantes sino-americanos —, prometendo ser “rígida com a China”. Críticos classificaram a peça como racista e xenofóbica. Karthick Ramakrishnan, fundador da organização de pesquisa AAPI Data, observa que, embora a retórica tenha sido mais comedida neste ciclo eleitoral, anos de propagandas antichinesas tiveram um efeito cumulativo que alimentou o preconceito. Um relatório de outubro da organização Stop AAPI Hate registrou um aumento nas manifestações de hostilidade contra imigrantes, com 1.825 incidentes de ódio contra a comunidade asiática nos últimos três anos. Jaros, da Universidade de Notre Dame, conclui que a propaganda demonstra como alguns republicanos buscam equilibrar a lealdade a Trump com o apelo de uma postura rígida em relação à China, embora “isso não tenha desaparecido totalmente em nível subnacional”.

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Este panorama eleitoral nos Estados Unidos, com a inflação e questões econômicas dominando a pauta, reflete uma adaptação dos partidos às prioridades mais prementes dos cidadãos. A diminuição da retórica antichinesa nas campanhas, embora não na legislação, indica uma complexa interação entre política externa, economia doméstica e a influência das lideranças partidárias. Para continuar acompanhando as nuances do cenário político e econômico global, explore outras análises sobre política e economia em nossa editoria.

Crédito da imagem: [Nome do Autor/Veículo]

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