A produção de montadoras japonesas na China registrou uma acentuada queda, atingindo seu ponto mais baixo desde o ano de 2008. Esse declínio é reflexo direto da diminuição da demanda por automóveis movidos a gasolina, aliada ao rápido avanço das novas tecnologias no setor automotivo, especialmente os veículos elétricos (VEs).
No período compreendido entre abril e setembro, a fabricação conjunta de veículos pelas gigantes Toyota, Honda, Nissan e Mazda no território chinês retraiu 32% em comparação com o mesmo intervalo do ano anterior. O volume totalizou 1,02 milhão de unidades, o menor índice em quinze anos, conforme dados compilados pelo Nikkei Asia e divulgados recentemente.
Montadoras Japonesas na China: Produção Cai ao Menor Nível desde 2008
Essa retração substancial representa uma perda de quase 1,8 milhão de veículos em apenas seis anos, partindo de um pico de aproximadamente 2,8 milhões de unidades em 2020, o que configura uma queda de 63%. A Honda foi a montadora que experimentou a redução mais dramática, com um tombo de 60% em sua produção em relação ao ano anterior, totalizando apenas 131.716 veículos. O volume atual da Honda está aproximadamente 90% abaixo do pico alcançado em 2020, com a produção mensal oscilando entre 10 mil e 20 mil unidades, uma diminuição de cerca de 70% na comparação anual.
A Nissan também enfrentou uma queda expressiva, com sua produção recuando 49%, para 163.192 veículos, o que representa aproximadamente 80% abaixo dos seus níveis de pico. A Toyota, por sua vez, fabricou 663.079 unidades, assinalando uma queda de 18% em relação ao ano anterior e 23% a menos do que o registrado em 2020. Em contraste, a Mazda obteve um aumento de 43% em sua produção na comparação anual, mas ainda assim permaneceu 52% abaixo de seu volume máximo histórico.
Cenário do Mercado Chinês: Desafios e Transformações
O mercado de automóveis novos na China encolheu 22% entre janeiro e setembro, um cenário influenciado por múltiplos fatores. A desaceleração econômica geral do país, a redução dos subsídios para a aquisição de veículos de “nova energia” e a elevação dos preços do petróleo, intensificada pelo conflito no Oriente Médio, contribuíram para essa conjuntura desafiadora. As vendas de veículos que excluem os modelos de “nova energia” (como os elétricos) recuaram mais de 30% nos primeiros nove meses do ano e caíram cerca de 60% em comparação com o mesmo período de 2020.
As montadoras japonesas, historicamente dependentes de modelos movidos a gasolina e de veículos híbridos, encontram-se particularmente vulneráveis a essa retração do mercado chinês. A dificuldade de adaptação ao novo cenário fica evidente nas vendas. As vendas da Honda na China diminuíram 48% no período de abril a setembro, totalizando 161.372 veículos. A Nissan também viu suas vendas caírem 46%, para 182.854 unidades, em decorrência da acentuada perda de demanda por seu sedã a gasolina de maior sucesso, o Sylphy.
A Dificuldade na Transição para Veículos Elétricos
Um dos maiores desafios para as marcas japonesas reside em sua performance no segmento de veículos elétricos (VEs), que tem atraído um número crescente de consumidores chineses que estão abandonando os carros a gasolina. A Honda, por exemplo, vendeu apenas 2.991 veículos elétricos na China durante o período de seis meses, uma queda de 62% em relação ao ano anterior. Diante da demanda insatisfatória, a empresa optou por adiar indefinidamente o lançamento do GT, seu principal modelo elétrico, inicialmente previsto para dezembro de 2025.
Similarmente, o sedã elétrico N7, da Nissan, lançado em abril de 2025, registrou uma queda de 76% nas vendas em comparação com o período de abril a setembro do ano anterior. Embora o modelo tenha demonstrado um bom desempenho inicial, o intenso volume de lançamentos no mercado chinês tem encurtado o período de vendas aquecidas que novos modelos costumavam apresentar. O cenário econômico desafiador na China, com a desaceleração geral e a intensificação da concorrência, é um tema frequentemente abordado em análises econômicas de fontes renomadas, como pode ser verificado no Valor Econômico, que reporta sobre as tendências do mercado asiático.
Impacto nos Fornecedores e Projeções Futuras
As montadoras japonesas expandiram agressivamente sua capacidade produtiva na China durante os anos 2000, acompanhando o robusto crescimento do mercado automotivo local e transformando o país em um mercado tão crucial quanto a América do Norte. No entanto, a partir de 2020, a rápida transição para veículos de “nova energia” impulsionou a ascensão de gigantes locais, como a BYD, que se tornaram líderes de mercado. Com a redução na demanda por automóveis convencionais, as marcas japonesas perderam significativa participação, e sua produção recuou para patamares vistos antes das grandes expansões de capacidade.

Imagem: NurPhoto via valor.globo.com
Esse recuo não afeta apenas as montadoras, mas também seus fornecedores japoneses que as acompanharam na China. A Koito Manufacturing, por exemplo, anunciou em 20 de outubro o encerramento das operações de uma subsidiária que produzia equipamentos de iluminação automotiva no país. Muitos fornecedores estão buscando ampliar seus negócios com montadoras chinesas, mas enfrentam uma concorrência de preços acirrada por parte dos fabricantes locais de autopeças.
As projeções futuras indicam que a situação pode se agravar. A Mobility Global, empresa de pesquisa com sede nos Estados Unidos, prevê que a produção anual das quatro montadoras japonesas na China deverá cair mais 47% até 2030, em relação aos níveis de 2025, atingindo aproximadamente 1,6 milhão de veículos.
Estratégias de Adaptação e Expansão para Exportação
Apesar da retração do mercado local, abandonar o mercado chinês não se apresenta como uma opção realista para a maioria das montadoras japonesas. A China representou 17% das vendas globais da Toyota no ano fiscal de 2025, 18% das da Honda e 21% das da Nissan, consolidando-se como o segundo maior mercado, atrás apenas dos Estados Unidos, para as três empresas. O país também é reconhecido como um campo de batalha fundamental para o desenvolvimento e aplicação de tecnologias automotivas avançadas, especialmente no que diz respeito à eletrificação e à condução autônoma.
Diante desse cenário complexo, as montadoras japonesas buscam sobreviver e prosperar otimizando suas operações e transformando a China em um polo de exportação. Em 8 de outubro, a Toyota anunciou a assinatura de uma aliança estratégica com as estatais Guangzhou Automobile Group (GAC) e China FAW Group. O objetivo dessa parceria é reorganizar suas joint ventures e acelerar a eletrificação de veículos, bem como o desenvolvimento de tecnologias inteligentes.
A Nissan está expandindo suas exportações a partir da China, já tendo iniciado o envio de picapes híbridas plug-in para o México e planejando estender essas exportações para a América Latina e o Sudeste Asiático. Da mesma forma, a Mazda tem planos de exportar veículos elétricos fabricados na China para a Europa, Austrália e outros mercados globais. Contudo, a concorrência com empresas chinesas nos mercados estrangeiros também tem crescido, com Pequim estabelecendo novas diretrizes para montadoras que atuam no exterior, visando reforçar a conformidade (compliance) e o serviço pós-venda, um movimento que sublinha a determinação do governo chinês em elevar a reputação de suas marcas automotivas em escala global.
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Em suma, a queda na produção das montadoras japonesas na China é um sintoma da profunda transformação que o mercado automotivo global está vivenciando. A transição para veículos elétricos e a ascensão de players locais impõem desafios significativos, forçando as empresas a repensar suas estratégias de fabricação e vendas. Para mais análises sobre o panorama econômico e as tendências de mercado no setor automotivo, continue acompanhando nossa editoria de Economia.
Crédito da imagem: Reuters







