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Acesso à Saúde no Amazonas: Redução de Perdas nas Comunidades

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O acesso à saúde no Amazonas, especificamente na vasta região de Carauari, tem sido um divisor de águas para as comunidades ribeirinhas, transformando histórias de perdas e sofrimento em narrativas de esperança e resiliência. A chegada de serviços de saúde mais próximos dessas populações isoladas representa um avanço crucial na garantia de direitos fundamentais e na promoção de uma melhor qualidade de vida para milhares de pessoas que vivem em uma das áreas mais remotas do Brasil.

Historicamente, a distância e a carência de infraestrutura médica impunham desafios quase intransponíveis aos habitantes da zona rural de Carauari, um dos maiores municípios brasileiros em extensão territorial, com mais de 25,7 mil quilômetros quadrados. Esse cenário geográfico, marcado por rios sinuosos e densa floresta, transformava uma simples consulta ou um atendimento emergencial em jornadas de dias, com desfechos muitas vezes trágicos. Relatos de mortes, sequelas e traumas eram comuns, ecoando a realidade vivida por Francisco Solivan Peres de Araújo, presidente da Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru), que perdeu a mãe por hemorragia durante o parto da irmã, aos dois anos, em um tempo sem acesso a transporte para a cidade.

Acesso à Saúde no Amazonas: Redução de Perdas nas Comunidades

A realidade enfrentada por Solivan e inúmeros outros ribeirinhos na década de 80 e 90, conforme evidenciado por uma recente expedição da Agência Brasil à Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS Uacari), destaca um passado de assistência precária. A viagem de lancha expressa de Manaus a Carauari já exige cerca de 35 horas, seguida por mais horas de deslocamento para alcançar as comunidades, revelando a complexidade logística que por décadas ditou a vida e a morte na região. A ausência de políticas públicas eficazes para a saúde da população ribeirinha perpetuou um ciclo de vulnerabilidade.

Os Reflexos de uma Saúde Distante

Apesar da instalação de um sistema de lanchas de resgate pela prefeitura nos anos 90, que visava atender emergências e casos graves, a imensa distância até a área urbana de Carauari continuou a ser um obstáculo. Adriana da Silva e Silva, da comunidade São José do Nachiqui, viveu essa dificuldade em janeiro de 2019, após ser picada por uma cobra. A demora de mais de 24 horas para o resgate resultou em grave inchaço e quatro cirurgias para salvar sua perna da amputação, deixando sequelas permanentes que afetam sua mobilidade.

Raimundo Viana da Cunha, ex-morador da comunidade Mandioca e colaborador do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), carrega uma dor semelhante. Em 1994, a falta de assistência médica no Médio Juruá impediu que seu irmão doente recebesse atendimento a tempo. Após uma semana de espera por um barco e mais uma semana de viagem em um “regatão” (comerciante ambulante), seu irmão veio a óbito na cidade, com dores abdominais cuja causa nunca foi identificada. Essas experiências impulsionaram o êxodo de muitas famílias para a cidade em busca de melhores condições, gerando um desequilíbrio social e cultural na região.

O Dilema entre Território e Cuidado Médico

Para os ribeirinhos, a solução ideal para o acesso à saúde não reside em se deslocar para as cidades, o que os afastaria de seus territórios e de atividades tradicionais como o extrativismo sustentável e a agricultura familiar. A RDS Uacari, por exemplo, abrange 633 km e 31 comunidades, abrigando mais de 409 famílias que dependem do manejo de pirarucu, látex, oleaginosas (andiroba, açaí, ucuba) e agricultura. O desafio para o Poder Público, como Carauari com seus 28 mil habitantes e um orçamento de R$ 142 milhões para 2026, é levar a saúde até essas populações, sem que precisem abandonar suas raízes.

Atualmente, a prefeitura de Carauari investe entre R$ 40 mil e R$ 45 mil mensais no serviço de lanchas de resgate. Além disso, conta com Unidades Básicas de Saúde (UBS) fluviais, que, devido ao alto custo operacional, realizam atendimentos de forma eventual. Manoel Brito, secretário de Saúde de Carauari, ressalta que a arrecadação municipal não comporta a instalação de unidades fixas em todas as comunidades, tornando as parcerias com o terceiro setor “importantíssimas” para suprir essas lacunas.

Investimentos e Parcerias para a Saúde Ribeirinha

O Ministério da Saúde reconhece a importância da colaboração com organizações da sociedade civil, em alinhamento com as diretrizes do Sistema Único de Saúde. A pasta tem ampliado os investimentos, destinando R$ 500 milhões neste ano para a implantação de Equipes de Saúde da Família Ribeirinha. Essas equipes multidisciplinares, compostas por médicos, enfermeiros, técnicos e profissionais de saúde bucal, agora podem ser requisitadas por prefeituras de 2.690 municípios, um salto significativo em relação aos 784 municípios anteriormente elegíveis da Amazônia Legal e Pantanal. Atualmente, 332 equipes e 71 UBS Fluviais já levam atendimento a comunidades isoladas, superando barreiras geográficas e desafios históricos.

Nesse contexto de avanço, uma parceria estratégica entre a prefeitura de Carauari e organizações da sociedade civil marcou a instalação de dois novos pontos de saúde, mais próximos das comunidades ribeirinhas. O projeto, batizado de “SUS na Floresta”, é um fruto do edital “Juntos pela Saúde”, executado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS) em colaboração com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umane, sob a gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e apoio técnico da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas. Para mais informações sobre iniciativas do governo federal em saúde, consulte o portal oficial do Ministério da Saúde.

Acesso à Saúde no Amazonas: Redução de Perdas nas Comunidades - Imagem do artigo original

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br

O “SUS na Floresta” e seu Impacto Imediato

Os dois novos pontos, estabelecidos nas unidades Bauana e Campina da Fundação Amazônia Sustentável, prometem atender 56 comunidades e cerca de 4,7 mil pessoas com atenção primária. Cada unidade é equipada com consultórios para atendimentos presenciais e remotos, sala de triagem, consultório odontológico, conexão à internet, equipamentos de telessaúde e áreas para as equipes, tudo integrado ao SUS. Francisco Solivan, comovido, expressa: “Se naquela época tivesse esse sonho que estamos realizando hoje, que é um ponto de saúde [instalado nas comunidades ribeirinhas] e que dá a possibilidade de garantir uma vida melhor para os ribeirinhos, não tenho dúvida em Deus que minha mãe ainda estaria viva.”

Na primeira semana de operação, os pontos já mostraram sua importância, atendendo desde uma criança ferida por anzol até um caso grave de desnutrição infantil que exigiu intenso esforço da equipe de enfermagem de Campina. O enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra, atuando na unidade de Campina, relata que ali são realizados procedimentos que antes só seriam possíveis na cidade ou durante as raras visitas da UBS fluvial, que ocorrem apenas duas vezes ao ano. Ele destaca que a população “vai muito pouco ao médico”, buscando ajuda apenas em emergências ou na passagem da UBS Fluvial.

Com esses pontos de atendimento primário mais próximos, a expectativa do enfermeiro Carlos é reduzir em até 80% as chamadas de resgate por lancha. “Vamos salvar muito mais vidas e vamos evitar também os resgates. Se eles vierem aqui, faz-se o atendimento e só vai para cidade se for um caso de emergência mesmo. Mas já vai sair daqui estabilizado”, afirma. Mickela Souza Costa, gerente do Programa Saúde na Floresta da FAS, enfatiza que o projeto busca não apenas oferecer novas estratégias, mas garantir que as populações ribeirinhas possam permanecer em seus territórios com acesso pleno à saúde, evitando um êxodo rural que os centros urbanos não estão preparados para absorver.

Perspectivas e Desafios Futuros

A iniciativa tem recebido elogios entusiasmados dos moradores. Maria das Neves, da comunidade Novo Horizonte e vice-presidente da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), destaca a melhoria na logística de atendimento para quem adoece, complementando a insuficiência das UBS fluviais. Raimundo Viana, do ICMBio, considera a instalação desses postos um avanço sonhado há décadas, transformando o sentido da vida na saúde do Médio Juruá. Ele salienta que, com os novos pontos, o tempo de viagem para atendimento, que antes era de 12 horas até a sede do município, foi reduzido para cerca de quatro horas, dependendo da localização.

Apesar do sucesso inicial, Valcléia Lima, superintendente-geral adjunta da FAS, aponta desafios significativos. A logística e os custos operacionais de manter equipes de saúde em locais remotos são altos, e a captação de recursos e a manutenção da continuidade dos projetos por diferentes gestões são barreiras. Contudo, o “SUS na Floresta” já demonstra ser um modelo eficiente para direcionar recursos e atendimentos, gerando até economia para a prefeitura. Para Solivan, a visão vai além: é preciso implantar mais postos de saúde, não apenas na RDS, mas também na Resex do Médio Juruá, pois “as pessoas são as mesmas, a dor das pessoas é a mesma”.

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A transformação do acesso à saúde no Amazonas, especialmente para as comunidades ribeirinhas de Carauari, é um testemunho do poder das parcerias e da persistência em levar direitos básicos a todos os cidadãos. O projeto “SUS na Floresta” não apenas salva vidas, mas fortalece a identidade e a permanência dessas populações em seus territórios. Para acompanhar mais notícias sobre desenvolvimento regional, políticas públicas e iniciativas sociais, continue explorando a editoria de Cidades do nosso portal.

Crédito da imagem: Lucas Bonny/FAS

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