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Baixa escolaridade: Tráfico de drogas e o ensino médio

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A relação entre a baixa escolaridade e o envolvimento com o tráfico de drogas e o ensino médio é um dos focos de um estudo recente que aponta uma realidade alarmante no Brasil: apenas dois em cada dez indivíduos entrevistados que atuam no tráfico conseguiram concluir o ensino médio. Esta estatística, divulgada em uma pesquisa abrangente, revela que para mais da metade desses participantes, a trajetória educacional se encerra antes mesmo de alcançar essa etapa fundamental da formação básica.

Essa notável deficiência na escolaridade figura como um dos aspectos mais salientes da investigação denominada “Raio-X da Vida Real”, conduzida pelo renomado Instituto Data Favela, uma iniciativa da Central Única das Favelas (Cufa). O levantamento detalhado buscou traçar um perfil socioeconômico e educacional dos indivíduos em contextos de vulnerabilidade, destacando o acesso limitado à educação formal entre aqueles que se envolvem com atividades ilícitas.

Baixa escolaridade: Tráfico de drogas e o ensino médio

A pesquisa “Raio-X da Vida Real” compilou respostas de 3.954 indivíduos que declararam envolvimento com o tráfico de entorpecentes. As entrevistas, de caráter presencial, foram meticulosamente realizadas nos próprios ambientes onde as atividades criminosas ocorrem, abrangendo um período de 15 de agosto de 2025 a 20 de setembro de 2025. O estudo foi desenvolvido em favelas localizadas em 23 estados do território nacional, garantindo uma ampla representatividade geográfica e social dos dados coletados.

Perfil Educacional dos Envolvidos no Tráfico

Os dados sobre o nível de escolaridade dos entrevistados revelam um cenário desafiador. Apenas 22% dos participantes declararam ter o ensino médio completo. A porcentagem de entrevistados com ensino médio incompleto foi de 16%. O ensino fundamental completo foi alcançado por 13%, enquanto o fundamental incompleto representa a maior fatia, com 35%. Um percentual significativo de 7% dos envolvidos no tráfico de drogas não possui nenhuma instrução formal, evidenciando a profunda lacuna educacional que precede ou acompanha a entrada no crime.

Questionados sobre arrependimentos e escolhas de vida, 41% dos entrevistados expressaram o desejo de ter estudado ou se formado, caso pudessem voltar no tempo. Marcus Vinícius Athaye, copresidente do Data Favela e presidente da Cufa Global, sublinhou a percepção desses indivíduos de que a educação poderia ter sido um fator decisivo para uma mudança de vida. Ele enfatizou que programas de empregabilidade e incentivos trabalhistas são cruciais, mas devem estar intrinsecamente ligados a iniciativas educacionais, especialmente para os jovens que já manifestam pesar por não terem investido nos estudos.

A aspiração por qualificação profissional também se manifestou na preferência por cursos de nível superior. Entre os entrevistados, Direito seria a escolha de 18%, seguido por Administração (13%), Medicina/Enfermagem (11%), Engenharia/Arquitetura (11%) e Jornalismo/Publicidade (7%). Essa diversidade de interesses acadêmicos sugere um reconhecimento do valor da formação superior, mesmo em um contexto de acesso limitado e oportunidades reduzidas.

Impacto da Educação e Oportunidades

A pesquisa aponta que a ausência de acesso à educação de qualidade e de oportunidades no mercado de trabalho são fatores determinantes para a condição socioeconômica desses indivíduos. Conforme o levantamento, entre 60% e 70% das pessoas envolvidas com o tráfico de drogas não conseguem auferir uma renda mensal superior a dois salários-mínimos. Essa realidade salarial precária reforça a tese de que a falta de capacitação formal e de caminhos legítimos para ascensão econômica impulsiona muitos para a informalidade e para o crime.

Para aprofundar a compreensão sobre o papel da educação no desenvolvimento social e econômico, é relevante consultar estudos e iniciativas que visam expandir o acesso e a qualidade do ensino no Brasil, como os discutidos pelo Ministério da Educação. A intersecção entre políticas públicas de educação e o combate à criminalidade é um tema complexo que exige abordagens multifacetadas.

Estrutura Familiar e Sonhos de Consumo

No que diz respeito aos arranjos familiares, 35% dos entrevistados foram criados em famílias tradicionais, enquanto 38% vieram de famílias monoparentais. Destas últimas, 79% são lideradas por mães, um dado que encontra respaldo nos números do Censo Demográfico IBGE 2022 e que a pesquisa “Raio-X da Vida Real” corroborou, identificando a predominância de figuras femininas – mães, tias e avós – como pilares familiares. As pessoas mais importantes para os entrevistados foram a mãe (43%), os filhos (22%), a avó (7%) e o pai (7%), com uma pequena parcela (4%) declarando não ter ninguém importante e 6% não respondendo.

O maior sonho de consumo, para 28% dos participantes, é possuir uma casa própria. Em seguida, 25% almejam comprar uma casa para a família, o que destaca a visão do lar como um ponto de segurança patrimonial e emocional. Este desejo é particularmente forte entre os jovens de 22 a 26 anos (35%), caindo para 27% entre 27 e 31 anos, mas mantendo-se relevante (30%) para aqueles com mais de 50 anos. Cléo Santana, CEO do Data Favela, salientou que esse sonho não difere da aspiração do brasileiro médio, sem qualquer envolvimento com o universo criminal, reforçando a universalidade do desejo por estabilidade e moradia digna.

Saúde Mental e Causas do Envolvimento no Crime

A saúde mental dos entrevistados é outro ponto de atenção revelado pela pesquisa. Os problemas mais frequentes incluem insônia (39%), ansiedade (33%), depressão (19%), alcoolismo (13%) e crises de pânico (9%). Curiosamente, a ansiedade afeta 70% dos que ganham até um salário mínimo e se mostra mais presente à medida que o nível de escolaridade aumenta, atingindo 72% daqueles que iniciaram, mas não concluíram o ensino superior. Este dado sugere que a consciência sobre a falta de conclusão de um curso superior pode gerar frustração e insegurança.

Além das questões econômicas, como a baixa remuneração, fatores como alcoolismo, uso de drogas e violência doméstica foram apontados por 13% dos entrevistados como motivos para a entrada no crime. Bruna Hasclepildes, coordenadora de pesquisas do Data Favela, concluiu que a vida no crime é um reflexo direto da ausência de políticas públicas e da persistência de desigualdades sociais que, por décadas, afetam comunidades negras e favelas no Brasil, mantendo estruturas de marginalização.

Em um dado revelador, 68% dos entrevistados responderam negativamente à pergunta “Você sente orgulho do que faz?”. Bruna Hasclepildes enfatizou que isso desmistifica a ideia de que há satisfação no envolvimento criminal. Segundo ela, essas pessoas não aderem ao crime por escolha, mas por necessidade, tendo plena consciência da natureza ilegal de suas atividades.

Percepção sobre os Problemas do Brasil

Ao identificar os principais problemas do Brasil, os entrevistados priorizaram a pobreza e as desigualdades, com 42% das menções, seguida pela corrupção, citada por 33%. A violência foi mencionada por 11%, e a falta de acesso à educação e à saúde por 7% e 4%, respectivamente. Essa percepção alinha-se a muitos diagnósticos sociais, reforçando que as raízes do envolvimento com o tráfico de drogas estão profundamente interligadas a questões estruturais da sociedade brasileira.

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A pesquisa “Raio-X da Vida Real” oferece um panorama complexo e multifacetado sobre a vida dos envolvidos com o tráfico de drogas, evidenciando o papel crucial da educação, das oportunidades e da saúde mental. Compreender esses fatores é essencial para o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes. Para continuar acompanhando análises e notícias sobre questões sociais e urbanas, explore nossa editoria de Cidades e outros conteúdos relevantes.

Crédito da imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil