As autoridades bolivianas procederam à prisão do procurador-geral da República, Roger Mariaca, na noite da última quarta-feira, 30 de agosto. Mariaca estava ativamente envolvido na apuração de um caso sensível contra o operador digital argentino Fernando Cerimedo, que enfrenta acusações graves, incluindo tentativa de feminicídio, enriquecimento ilícito e tráfico de drogas. A detenção do chefe do Ministério Público representa um desdobramento significativo na complexa teia de investigações que agitam o cenário político e judicial do país.
Fernando Cerimedo, figura conhecida no meio político latino-americano, possui um histórico de atuação como assessor dos ex-presidentes Rodrigo Paz, da Bolívia, e Javier Milei, da Argentina. Suas conexões se estendem a grupos de direita da América Latina, os quais contam com o apoio de Donald Trump. No Brasil, Cerimedo ganhou notoriedade em 2022, ao participar de uma campanha que visava desacreditar a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro, em meio a um período de intensa polarização política.
Bolívia prende procurador em investigação contra Cerimedo
A operação policial na Bolívia não se limitou à detenção de Mariaca. Até a manhã da quinta-feira, 1º de setembro, outras treze autoridades do país foram presas sob a imputação de tráfico de drogas e participação em organização criminosa. Entre os detidos estão nomes proeminentes, como o ex-ministro do governo anterior, Eduardo Del Castillo, e o procurador do departamento de Santa Cruz, Alberto Zeballos. Zeballos e Mariaca figuravam em uma lista de cidadãos bolivianos que tiveram seus vistos para os Estados Unidos revogados pela administração de Donald Trump na segunda-feira anterior, 28 de agosto. Washington havia os acusado de corrupção ou narcotráfico, embora não tivessem sido apresentadas provas públicas para tais alegações.
Em resposta às prisões, uma transmissão ao vivo realizada nas redes sociais do Ministério Público boliviano denunciou o que foi caracterizado como o sequestro de Mariaca e Zeballos. A servidora não identificada, que fez o comunicado em meio a policiais mascarados, informou que o procurador-geral do Estado foi retido de forma irregular no Aeroporto de Viru Viru. Segundo a denúncia, não havia qualquer documento ou ordem de prisão formal que justificasse as ações policiais, as quais foram classificadas como ilegais e recorrentes no país.
O ministro do governo boliviano na gestão de Rodrigo Paz, Marco Antonio Oviedo, manifestou publicamente suas acusações contra o procurador-geral Roger Mariaca. Oviedo afirmou que Mariaca liderava uma organização criminosa com vínculos diretos ao tráfico de drogas. Em suas declarações, o ministro informou que “foi desmantelada uma organização criminosa infiltrada no sistema de Justiça e na administração de uma instituição muito importante do nosso país – o Ministério Público –, a qual, sob a liderança de Roger Mariaca, transformou-se em uma organização criminosa voltada a proteger e incentivar o narcoterrorismo no país”.
Complementando suas declarações, o ministro Oviedo divulgou imagens que mostravam policiais removendo diversos pacotes de dinheiro de um fundo falso localizado em um veículo, o qual foi apontado como tendo conexão com a residência de Mariaca. Além disso, Oviedo estabeleceu uma ligação entre o grupo criminoso e os protestos que, entre maio e junho deste ano, paralisaram a Bolívia por mais de cinquenta dias, com a demanda pela renúncia de Paz como pano de fundo.
O procurador Roger Mariaca foi eleito pelo parlamento boliviano no ano de 2024, durante a administração de esquerda de Luiz Arce, para um mandato previsto de seis anos. Após as acusações levantadas pelo governo Trump, que resultaram no cancelamento de seu visto, o Congresso da Bolívia agendou uma sessão para o dia 5 de outubro, com o objetivo de discutir a situação do Ministério Público e as implicações dos recentes acontecimentos. Mariaca, ao ter seu visto revogado pelos EUA, havia sugerido que a medida era uma retaliação direta às investigações que conduzia, com ênfase no caso Cerimedo. “Sabemos também que algumas investigações têm implicações que transcendem as fronteiras nacionais. O caso denominado Cerimedo, por exemplo, gerou preocupações e repercussões em diferentes âmbitos políticos”, declarou o procurador antes de sua prisão.
A defesa de Cerimedo, por sua vez, refuta veementemente as acusações, alegando que seu cliente é vítima de uma armação política. O operador digital, conhecido por sua atuação junto a líderes latino-americanos, foi inclusive mencionado pela revista inglesa The Economist como o “homem do Maga na América Latina”, em uma clara alusão ao slogan político “Make America Great Again” do ex-presidente Donald Trump. Tal reconhecimento sublinha a influência e o perfil internacional de Cerimedo.

Imagem: Reuters via agenciabrasil.ebc.com.br
A professora em relações internacionais Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), especialista em política dos EUA para a América Latina, concedeu declaração à Agência Brasil, destacando a dimensão política da ação contra as autoridades bolivianas, que contou com o apoio do governo dos Estados Unidos. Para Vidal, “De modo geral, o combate às drogas por parte dos EUA na América Latina é e sempre foi político. Você ter a retirada de visto de um procurador que, coincidentemente, estava justamente analisando toda a rede da extrema-direita na região nos indica muito sobre a dimensão política desse tipo de ação dos EUA”. A especialista acrescentou que o verdadeiro interesse dos Estados Unidos nunca foi unicamente combater o narcotráfico na região. Ela ressaltou que os EUA enfrentam uma “epidemia absurda de opioides” que, até recentemente, foi impulsionada por empresas farmacêuticas estadunidenses. Vidal concluiu que o objetivo real não é erradicar o tráfico, mas sim “desestabilizar forças contrárias aos interesses econômicos, simbólicos e estratégicos dos EUA na América Latina”.
Em análise sobre a situação boliviana, o professor Salvador Schavelzon, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especialista em política do país, ponderou que não possuía elementos suficientes para avaliar a legalidade da operação policial na Bolívia ou os supostos indícios contra Mariaca. No entanto, Schavelzon ressaltou a problemática histórica do narcotráfico no país, que estaria infiltrado em diversas instituições. “O Poder, ao mesmo tempo, está conectado com o narcotráfico e joga na tentativa de se mostrar na luta contra o mesmo. Isso é uma constante desde a década de 1970 em áreas como o Poder Judiciário, alfândega, poder político e poder policial. O narcotráfico percorre a sociedade com todos os setores”, comentou o professor, ilustrando a complexidade da questão.
Ao anunciar as restrições de visto a autoridades da Bolívia, Peru, Equador e Colômbia, o governo Trump afirmou que a medida visava fortalecer seus aliados na Casa Branca. Um documento oficial daquela semana declarou: “O Departamento de Estado está tomando medidas imediatas para impor restrições de visto sob esta política, em apoio aos demais participantes do Escudo das Américas”. O “Escudo das Américas”, uma iniciativa liderada pela administração Trump, engloba 14 nações latino-americanas e foi supostamente criado para combater os cartéis de drogas. Contudo, especialistas apontam que a iniciativa também possui um interesse econômico subjacente, buscando barrar a crescente influência da China na região.
Questionado sobre uma possível participação dos Estados Unidos na operação contra o procurador-geral nomeado no governo anterior, o ministro do atual governo, Marco Antonio Oviedo, garantiu que a ação foi conduzida pela polícia local. Contudo, ele fez questão de ressaltar que a Bolívia contou com o apoio de outros países. “Devo agradecer pela cooperação do governo americano que, por meio das suas agências, cooperam na luta contra o narcoterrorismo. O mesmo com os países da União Europeia e o mesmo com os países vizinhos com os quais temos fronteiras”, respondeu Oviedo, indicando uma colaboração internacional na repressão ao crime organizado. Para aprofundar seu entendimento sobre o contexto do combate ao narcotráfico na América Latina e as complexas relações internacionais envolvidas, você pode consultar fontes como a BBC News Brasil.
O Caso Cerimedo em Detalhes
Luis Fernando Cerimedo, o operador digital de figuras da direita latino-americana, foi detido na Bolívia em agosto deste ano. As acusações contra ele são múltiplas e graves, incluindo tentativa de feminicídio contra sua ex-companheira Nadia Beller, além de investigações por tráfico de drogas e enriquecimento ilícito. No cenário brasileiro, Cerimedo ficou conhecido em 2022 por uma transmissão ao vivo na internet, na qual propagou, sem apresentar provas concretas, a teoria de que o resultado das eleições presidenciais no Brasil havia sido fraudado. Em fevereiro de 2026, o estrategista digital foi agraciado com o prêmio de consultor político hispânico do ano pela organização Latino Wall Street, em uma cerimônia realizada na residência do então presidente dos EUA, Donald Trump, em Mar-a-Lago, na Flórida. O prêmio foi entregue por Eduardo Bolsonaro, ex-deputado que foi condenado por coação no curso de processo judicial, acusado de articular, junto à Casa Branca, um “tarifaço” contra o Brasil visando evitar o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Durante as investigações contra Cerimedo, as autoridades bolivianas localizaram uma “fazenda de cliques” em um endereço vinculado ao argentino no país. Essa estrutura era utilizada para a mobilização de robôs em redes sociais, com o objetivo de influenciar a opinião pública e disseminar narrativas específicas.
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Este panorama complexo revela uma rede intrincada de política, crime e relações internacionais na Bolívia, com repercussões em toda a América Latina. A prisão do procurador Roger Mariaca, no epicentro de uma investigação envolvendo Fernando Cerimedo e acusações de narcotráfico, evidencia os desafios enfrentados pela justiça e pela estabilidade regional. Continue acompanhando os desdobramentos dessa história e leia mais sobre o cenário político latino-americano em nossa seção de Política.
Crédito da imagem: Reuters/Latin America News Age/Arquivo/Proibida reprodução







