A Câmara de São Caetano do Sul aprovou, na noite desta terça-feira (8), a abertura de uma comissão processante contra o vereador Getúlio de Carvalho Filho, conhecido como Getulinho (União Brasil). A decisão, tomada por uma ampla maioria de 19 votos favoráveis e apenas 2 contrários, abre caminho para uma investigação aprofundada das acusações que podem resultar na cassação do mandato do parlamentar.
Com a instauração da comissão, o Poder Legislativo de São Caetano do Sul estabelece um prazo máximo de 90 dias para a apuração detalhada das denúncias apresentadas contra Getulinho. Este procedimento, contudo, representa apenas o início da investigação, não significando, por ora, a cassação do vereador. A votação da última terça-feira se limitou ao recebimento da denúncia e à autorização para que o processo investigativo seja formalmente iniciado. Após o encerramento dos trabalhos da comissão, um relatório final será elaborado e submetido novamente ao plenário para deliberação dos vereadores.
Câmara de São Caetano abre comissão processante contra Getulinho
Durante a sessão decisiva, apenas os vereadores Olyntho Voltarelli (PSD) e Bruna Biondi (PSOL) manifestaram-se contrários ao recebimento da representação. O próprio Getulinho estava impedido de participar da deliberação, conforme regimento, e foi substituído pelo segundo suplente de seu partido, o União Brasil, Ubiratan Ribeiro Figueiredo, que tomou posse especificamente para esta votação.
A composição da comissão processante foi definida imediatamente após a aprovação da admissibilidade. Por meio de sorteio entre os parlamentares aptos, foram escolhidos Cicinho Moreira (PL) para presidir o colegiado, Bruno Vassari (PSB) para a relatoria e Welbe Macedo (PSB) como membro. Este trio de vereadores terá a responsabilidade de conduzir a instrução do processo nos próximos 90 dias, o que inclui a análise de documentos, a verificação das acusações e a garantia do direito de defesa do parlamentar. Ao final, o relatório da comissão será submetido ao plenário, que terá a prerrogativa da decisão final sobre a eventual perda do mandato.
As acusações que fundamentam o processo foram apresentadas por Wilson Russo Piotto, ex-chefe de gabinete de Getulinho entre julho e outubro de 2025, e pelo servidor municipal Geová Ferreira de Oliveira Braz. A denúncia aponta que o vereador teria violado o decoro parlamentar e adotado uma conduta que não condiz com a dignidade do cargo que ocupa.
Detalhes das Acusações e Processos Anexados
Um dos episódios centrais na denúncia se refere à entrada de Getulinho na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Emergências Municipal Albert Sabin, ocorrida em 1º de janeiro de 2026. Os denunciantes alegam que o parlamentar teria acessado o setor sem respeitar os protocolos de biossegurança obrigatórios para ambientes hospitalares. O documento sustenta que essa conduta configurou abuso de prerrogativa e possível violação dos direitos fundamentais dos pacientes que estavam internados, além de ter colocado em risco a segurança e a saúde de pessoas em situação vulnerável na unidade.
Para robustecer a representação, foram anexadas referências a dois processos criminais nos quais Getulinho foi condenado em primeira instância. É importante salientar, no entanto, que ambas as decisões ainda são passíveis de recurso e, portanto, não são definitivas. Em um dos casos, o vereador foi sentenciado por difamação e injúria contra a funcionária pública municipal Patrícia Carolina Casadei Arroio, em decisão proferida em outubro de 2025 pela 1ª Vara Criminal de São Caetano. No outro processo, movido por Geová Ferreira, Getulinho foi condenado em primeira instância pelos crimes de calúnia, injúria e difamação.
Reações e Perspectivas Políticas
Após a votação, o líder do governo na Câmara, vereador César Oliva (PSD), fez questão de frisar que a decisão não pré-julga o resultado final do processo. Contudo, avaliou que o placar expressivo da votação serviu como um “recado duro” da maioria dos parlamentares em relação à conduta atribuída a Getulinho. “O recebimento dessa denúncia, muito embora não signifique uma cassação, é um recado muito duro de que a grande maioria da Câmara não quer mais ver esse tipo de comportamento que não agrega em nada”, afirmou Oliva.
O líder governista enfatizou a necessidade de o Legislativo focar em questões diretamente ligadas ao município. “Nós, vereadores, temos que estar preocupados em evoluir a nossa cidade, trazer emendas, trazer bons projetos e não ficar gastando o nosso tempo ofendendo, xingando pessoas e diminuindo o trabalho dos outros vereadores”, declarou. Oliva classificou algumas atitudes do parlamentar como “antipolíticas” e reconheceu que a Câmara vivencia um período de conflitos internos, clamando por um “basta” para realinhar o Poder Legislativo. Para ele, a votação desta terça-feira sinaliza a posição predominante da Casa em direcionar as discussões para as soluções e problemas da cidade, e não para debates pessoais.
O presidente da Câmara, vereador Dr. Seraphim (PL), alinhou-se à tese de que o processo visa apurar se houve extrapolação das prerrogativas inerentes ao mandato de vereador. Ele ressaltou que, embora a função fiscalizatória seja fundamental, existem limites claros para seu exercício. “O vereador não pode se exceder. Ele não pode transgredir algumas regras. O vereador não pode ir lá mandar prender ninguém. Então, é isso que nós vamos julgar”, explicou Seraphim. Ele mencionou, ainda, o episódio no hospital como um dos pontos cruciais a serem examinados, reforçando que “não se pode pegar um celular, sair gravando, invadir um hospital, cercear um funcionário. Isso não é permitido. A gente tem que ter limites”.

Imagem: abcreporter.com.br
Dr. Seraphim admitiu que a abertura de um processo dessa natureza não é desejável para a Câmara, mas defendeu a imprescindibilidade de analisar as acusações para “disciplinar a coisa”. Ele reiterou que caberá à comissão aprofundar a apuração antes de qualquer conclusão. “A comissão vai analisar os fatos, vai ver o que aconteceu e realmente vamos ver a atitude que a gente toma. Não é bom para a Câmara cassar ninguém, mas ninguém pode se exceder também”, complementou.
A Defesa de Getulinho e o Cenário Futuro
Antes da votação, Getulinho utilizou a tribuna para um discurso contundente, criticando a iniciativa pela abertura do processo. Ao abordar a possibilidade de perda do mandato, o vereador comparou integrantes da Câmara a “urubus”. “A cassação é um pouco óbvia, porque a gente sente, inclusive quando morre um bicho no meio do mato, a gente vê urubus que voam em cima. Daqui a 90 dias eu não vou estar mais aqui, especialmente pelos urubus que sobrevoam a carniça”, declarou.
Momentos antes, na mesma sessão, o parlamentar já havia manifestado sua intenção de ir “até as últimas consequências” para preservar seu mandato, caso o processo de cassação avance. Essa declaração seguiu-se à publicação de um vídeo em suas redes sociais na semana anterior, onde comentava a representação. Na gravação, Getulinho havia antecipado que, se a denúncia contra ele fosse admitida, apresentaria pedidos de cassação contra outros parlamentares, afirmando: “Se receberem minha denúncia, vão ter que receber as demais que eu vou fazer”. Além disso, o vereador expressou a convicção de que a representação o fortaleceria politicamente, dizendo: “Isso só me fortalece, só nos fortalece, e vamos rumo à Prefeitura”.
Com a admissibilidade aprovada, a disputa política agora se move para a etapa de instrução. A comissão, formada por Cicinho Moreira, Bruno Vassari e Welbe Macedo, terá a incumbência de analisar o dossiê, ouvir todas as partes envolvidas e, crucialmente, assegurar ao vereador Getulinho o direito à ampla defesa e ao contraditório antes da elaboração do relatório final. Somente após a conclusão desse procedimento detalhado é que um julgamento político-administrativo sobre a eventual perda do mandato poderá ocorrer. O resultado da votação desta terça-feira, portanto, autoriza a investigação das acusações, mas não constitui, por si só, uma decisão sobre a responsabilidade de Getulinho pelos fatos descritos na denúncia.
Precedente e Próximos Passos
É relevante destacar que esta é a segunda comissão processante instaurada pela Câmara de São Caetano em menos de seis meses. A primeira foi aberta em 26 de maio para investigar condutas atribuídas ao então vereador Matheus Vianello (PL). Naquele caso, Vianello renunciou ao mandato em 28 de agosto, poucos dias antes da sessão que deveria analisar as irregularidades político-administrativas apontadas. As denúncias contra ele envolviam, entre outras questões, a existência de assessores fantasmas e uma estrutura paralela de gabinete com auxiliares sem vínculo empregatício com a Câmara.
Agora, com a instalação de um novo colegiado, o Legislativo são-caetanense tem até 90 dias para finalizar a apuração envolvendo Getulinho. Ao término, o relatório da comissão processante retornará ao plenário, onde os vereadores farão a votação final para determinar o desfecho político do caso.
Para o “outro lado” da história, o veículo entrou em contato com o vereador Getúlio de Carvalho Filho, o Getulinho (União Brasil), buscando seu posicionamento sobre a aprovação da admissibilidade da denúncia e a abertura da comissão processante. Contudo, até o fechamento desta matéria, o parlamentar não havia respondido aos pedidos. O espaço permanece aberto para sua manifestação.
Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos
A aprovação da comissão processante contra Getulinho marca uma fase crucial na política de São Caetano do Sul, colocando sob escrutínio as ações do vereador e o funcionamento do Legislativo municipal. Para acompanhar os próximos capítulos deste importante processo e outros desdobramentos da política local, continue navegando em nossa editoria.
MARCOS FIDELIS






