rss featured 25255 1785070339

Centenário Moacir Santos: Legado de Ancestralidade e Erudição

Últimas notícias

Neste dia 26 de julho, o Brasil celebra o **centenário de Moacir Santos**, um dos mais importantes compositores, arranjadores, multi-instrumentistas e maestros da música brasileira. Sua vasta obra, que se caracteriza pela profunda fusão entre ritmos afro-brasileiros e o jazz, é um marco na cultura nacional, embora o artista ainda aguarde um reconhecimento mais amplo em seu próprio país.

Moacir Santos demonstrou uma capacidade ímpar de integrar elementos musicais diversos, criando uma sonoridade particular que ressoa com a riqueza cultural do Brasil. Sua contribuição transcende gerações, influenciando e inspirando inúmeros artistas ao redor do mundo.

Centenário Moacir Santos: Legado de Ancestralidade e Erudição

Nascido no Sertão Pernambucano, na região de Serra Talhada, Moacir Santos teve seu primeiro contato com a música ainda na infância, aprendendo a tocar instrumentos de banda marcial. Essa base erudita, aliada à vivência popular do Nordeste, moldou a essude de sua criatividade. Em um depoimento recuperado de um especial da Rádio MEC em 2016, Moacir Santos compartilhou que a música foi uma presença constante em sua vida desde os primeiros anos de consciência, lembrando-se de brincadeiras de criança que simulavam bandas musicais. Ele recordava que aos dez anos já organizava grupos de meninos para tocar marchinhas em sua cidade natal.

Na adolescência, Moacir Santos fugiu de casa e percorreu o Nordeste do Brasil, atuando em orquestras de circo e bandas militares, o que solidificou sua experiência prática. O pesquisador Allan Abbadia, multi-instrumentista, arranjador e compositor, destaca a relevância das bandas de música na formação cultural do país e como Moacir Santos emergiu dessa tradição. Abbadia enfatiza que, no Brasil Império, a maioria dos músicos eram pessoas negras, e as bandas funcionavam como veículos de informação e entretenimento. Moacir, ao chegar aos grandes centros urbanos, já trazia consigo essa rica herança, à qual somou estudos musicais aprofundados.

A Trajetória Musical e o Ensino para Grandes Nomes

A jornada de Moacir Santos o levou a João Pessoa, onde assumiu a regência da banda da Rádio Tabajara. Posteriormente, mudou-se para o Rio de Janeiro, ingressando na Rádio Nacional em 1948 como saxofonista. Em apenas três anos, já havia ascendido à posição de arranjador da orquestra da emissora, evidenciando seu talento excepcional e dedicação.

Sua busca por conhecimento o levou a ser aluno do renomado maestro César Guerra-Peixe. Paralelamente, Moacir Santos se tornou professor de uma geração de grandes talentos da música brasileira, incluindo nomes como Baden Powell, João Donato, Paulinho da Viola, Airto Moreira e Roberto Menescal.

Andrea Ernest Dias, flautista e autora do livro “Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro”, ressalta que o artista construiu uma identidade sonora única a partir de pesquisas aprofundadas em teoria musical. Essa abordagem fez com que músicos mais jovens o procurassem para aprimorar seus conhecimentos. Ela descreve Moacir como a ponte entre a erudição e o popular, uma figura essencial para quem buscava transcender a intuição musical e aprofundar-se na teoria.

Obras Marcantes e a Inovação do “Mojo”

Entre as composições mais conhecidas de Moacir Santos está “Nanã”, uma homenagem à orixá mais antiga das religiões afro-brasileiras. A melodia foi inspirada na reza de pessoas em uma procissão e serviu como trilha de abertura para o filme “Ganga Zumba”. A canção ganhou letra de Mário Telles e foi gravada por dezenas de artistas, incluindo Nara Leão, Sergio Mendes e Tim Maia, além de importantes nomes do jazz como Kenny Burrell e Gil Evans, demonstrando sua amplitude e aceitação internacional.

Na década de 1960, Moacir Santos produziu arranjos para álbuns de artistas como Elizeth Cardoso e Baden Powell, além de compor trilhas para filmes. Parte dessas obras foi lançada no álbum “Coisas”, de 1965, amplamente considerado sua obra-prima. O trabalho apresenta dez composições, todas intituladas “Coisa” seguidas por uma numeração. Andrea Ernest Dias destaca a genialidade do músico na perfeita fusão de ritmos afro-brasileiros com a sonoridade dos sopros das bandas de jazz presentes no álbum. O disco “Coisas”, segundo a autora, é uma síntese da trajetória de Moacir, combinando referências de bandas filarmônicas e jazz bands com a pesquisa da Orquestra Afro-brasileira, resultando em uma estruturação musical impecável e uma identidade afro-brasileira marcante.

Consolidação Internacional e Reconhecimento

Em 1967, Moacir Santos deixou o Brasil e se mudou para os Estados Unidos, onde continuou a dar aulas e a compor trilhas sonoras para o cinema, integrando as equipes dos maestros Henry Mancini e Lalo Schifrin. Na década de 1970, ele lançou álbuns pela prestigiada gravadora de jazz Blue Note. Um desses trabalhos, “Maestro”, foi inclusive indicado ao Grammy, solidificando sua posição no cenário musical internacional.

Andrea Ernest Dias aborda o conceito de “mojo”, uma inovação rítmica introduzida por Moacir Santos neste período. Ela descreve o “mojo” como um sistema criado por ele, extremamente “swingado” e com uma característica sonora imediatamente reconhecível como sua. A sistematização de suas próprias células rítmicas transformou esse ritmo em uma marca pessoal. O disco “Maestro” é visto como um novo capítulo na vida do maestro, trazendo ritmos instigantes concebidos em solo americano.

Em 1985, Moacir Santos foi homenageado no 1º Free Jazz Festival, onde se apresentou na abertura do evento ao lado de Radamés Gnatalli. Posteriormente, sua obra foi revisitada no projeto “Ouro Negro” pelos músicos Zé Nogueira e Mario Adnet, contando com participações de Milton Nascimento, Gilberto Gil e do próprio Moacir Santos. O álbum “Ouro Negro” serviu como porta de entrada para a obra do maestro para muitos ouvintes, incluindo Allan Abbadia.

Abbadia descreve Moacir como o fruto de uma genialidade incrível e uma intelectualidade conquistada tanto por estudos formais quanto pela imersão na oralidade e na cultura afro-brasileira. Uma de suas características mais marcantes, segundo o pesquisador, é o diálogo entre diversas expressões artísticas da diáspora, integrando-as à música erudita sem que a essência afro-brasileira e afro-diaspórica perdesse sua autenticidade ou se tornasse meramente folclórica.

Legado Vivo e Homenagens Contínuas

No ano de seu centenário, diversos eventos celebram a memória e a contribuição de Moacir Santos. Em agosto, Allan Abbadia ministrará aulas sobre a obra do maestro no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo. Abbadia enfatiza a importância de reverenciar não apenas o nome, mas a estética do artista, permitindo que o público compreenda sua mensagem e humanize sua arte.

Moacir Santos criou uma obra que transcendeu seu tempo, abrindo um vasto campo de possibilidades para futuras releituras e estudos. Um de seus grandes desejos, conforme ele próprio expressou em um workshop, era ser reconhecido em seu próprio país. Sua relevância também foi imortalizada por Vinícius de Moraes, que o homenageou nos versos do “Samba da Benção”, sendo parceiro em composições como “Menino Travesso” e “Se Você Disser que Sim”. Para aprofundar-se na rica obra multifacetada de Moacir Santos, você pode consultar a página dedicada a ele na Wikipedia.

Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos

A celebração do centenário de Moacir Santos é um convite para o público redescobrir e valorizar o impacto duradouro de sua música, que soube harmonizar a ancestralidade com a erudição, deixando um legado inestimável para a cultura global. Continue acompanhando os destaques e análises da música e da cultura brasileira em nossa plataforma.

Créditos da imagem: Fábio Seixo/ Divulgação e Moacir Santos, por Lídio Parente/divulgação

Centenário Moacir Santos: Legado de Ancestralidade e Erudição - Imagem do artigo original

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br

Deixe um comentário