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Cesariana Aumenta Risco de Câncer de Placenta, Aponta Estudo

Saúde e Bem-estar

Cesariana Aumenta Risco de Câncer de Placenta, Aponta Estudo – Mulheres que já foram submetidas a uma cirurgia de cesariana apresentam um risco significativamente maior, em 45%, de desenvolver neoplasia trofoblástica gestacional. Este é um tipo raro e agressivo de câncer que emerge das células da placenta e se desenvolve no útero. Essa conclusão alarmante provém de uma pesquisa inovadora conduzida por especialistas da Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lançando luz sobre uma complicação de saúde feminina que necessita de maior atenção.

A neoplasia trofoblástica representa a manifestação mais grave da doença trofoblástica gestacional, popularmente conhecida como mola gestacional. Esta condição peculiar é desencadeada por uma fertilização anômala entre óvulos e espermatozoides, resultando na formação de uma estrutura placentária irregular. Em alguns cenários, a mola completa se desenvolve sem a presença de um feto, enquanto na mola parcial, um feto inviável pode estar presente, mas com anomalias significativas que impedem seu desenvolvimento normal.

Cesariana Aumenta Risco de Câncer de Placenta, Aponta Estudo

Em uma proporção que pode atingir até 20% dos casos de mola gestacional, células anômalas se fixam no útero e progridem para o que é denominado câncer de placenta. No contexto brasileiro, a prevalência da doença trofoblástica é estimada em um caso para cada 200 a 400 gestações, registrando aproximadamente 2,9 mil novos diagnósticos de neoplasia a cada ano. Antes deste estudo, já se tinha conhecimento de que o risco de desenvolvimento dessa neoplasia era mais elevado em pacientes com mola completa, em mulheres com mais de 40 anos, naquelas com níveis excessivamente altos do hormônio HCG, ou em indivíduos com histórico de episódios prévios de mola completa e cistos ovarianos.

Referência Internacional e Metodologia da Pesquisa

A inspiração para investigar a conexão entre a cesariana e o câncer de placenta surgiu após a divulgação de um estudo similar realizado na Coreia do Sul. Contudo, essa pesquisa coreana tinha uma limitação significativa devido ao número restrito de pacientes analisadas. Gabriela Paiva, líder da pesquisa brasileira e médica no Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da Maternidade Escola da UFRJ, explicou que a ideia era aproveitar o vasto volume de casos acompanhados na instituição para obter resultados mais precisos.

A Maternidade Escola da UFRJ, que integra a rede HU Brasil e o Sistema Único de Saúde (SUS), é um centro de referência mundial para o atendimento e pesquisa em mola gestacional, sendo o terceiro maior em volume de atendimentos globalmente. Semanalmente, cerca de 80 pacientes com mola gestacional recebem acompanhamento especializado na unidade. “Com a quantidade de pacientes que a gente tem aqui, a gente pensou que poderia fazer essa avaliação trazendo um resultado muito mais preciso. Considerando também a grande quantidade de cesarianas que é feita no Brasil”, complementou Gabriela Paiva, ressaltando a relevância do contexto nacional para o estudo.

A pesquisa foi desenvolvida em colaboração estratégica com o Centro de Doença Trofoblástica da Nova Inglaterra, afiliado à renomada Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. O estudo analisou minuciosamente dados de 2.904 pacientes atendidas tanto na UFRJ quanto no hospital parceiro de Harvard, abrangendo o período de 2002 a 2022. Desse universo, 83,9% das mulheres não possuíam histórico de cesariana, enquanto 468 delas haviam passado por pelo menos uma cirurgia cesariana.

Os resultados foram claros: entre as mulheres com histórico de cesariana, 26,5% desenvolveram o câncer de placenta, um índice consideravelmente maior em comparação com os 20,8% observados nas pacientes que não tinham sido submetidas à cirurgia. É crucial destacar que todos os outros fatores que poderiam influenciar o resultado foram rigorosamente controlados durante a análise, evidenciando que a cirurgia prévia de cesariana atua como um fator de risco independente para a doença.

Hipóteses e Contexto Brasileiro

A principal teoria levantada pelos pesquisadores para explicar essa correlação é que o corte realizado no útero durante a cesariana pode desencadear uma desregulação do sistema imunológico da mulher. Além disso, a cirurgia exige um remodelamento dos vasos sanguíneos na região e pode induzir a formação de fibrose. Conforme explica Gabriela Paiva, que conduziu a pesquisa durante seu doutorado, “A cicatriz da cesárea é uma área frágil dentro do útero. Então, é como se fosse uma porta de entrada para a mola, que acaba tendo mais poder de invasão para entrar no útero e levar ao câncer”.

Cesariana Aumenta Risco de Câncer de Placenta, Aponta Estudo - Imagem do artigo original

Imagem:  Tomaz Silva via agenciabrasil.ebc.com.br

Antônio Braga, coordenador do ambulatório e orientador do trabalho, enfatizou a importância dessas descobertas no cenário brasileiro. O Brasil figura entre os países com as mais altas taxas de cesariana globalmente. Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza que, idealmente, cerca de 15% dos nascimentos deveriam ocorrer por via cirúrgica, no Brasil essa proporção atinge alarmantes 55%. Para mais informações sobre as diretrizes e dados de cesariana no Brasil, consulte o Ministério da Saúde.

“Esse é um tema que merece ser tratado como mais um risco agregado para as mulheres submetidas a cesarianas”, ressaltou Braga. Ele complementou que “Cesariana é uma cirurgia salvadora de vidas, muito importante para garantir a segurança da mãe e do bebê, mas ela deve ser feita de forma consciente”. Os autores do estudo argumentam que a neoplasia trofoblástica gestacional pós-molar deve ser considerada uma possível consequência de longo prazo do parto cesáreo prévio, juntamente com outros desfechos adversos já conhecidos, como o risco de ruptura uterina, problemas com o espectro da placenta acreta, parto prematuro e outras complicações.

Estimativas do estudo sugerem que uma redução de 20 pontos percentuais na taxa de cesarianas no país, atingindo 35% do total de partos, poderia prevenir aproximadamente 177 casos de câncer por ano. Isso representaria uma significativa diminuição de 6,1% na incidência anual projetada da doença. Apesar da forte correlação identificada, os pesquisadores não recomendam um tratamento mais agressivo para mulheres com histórico de cesariana que desenvolvam a neoplasia. A principal recomendação, atualmente, é um acompanhamento com maior vigilância desde o diagnóstico da mola gestacional.

A conduta médica em casos de câncer de placenta geralmente envolve o esvaziamento do útero por aspiração, sessões de quimioterapia e o monitoramento rigoroso dos níveis do hormônio HCG, que é produzido durante a gravidez e também em casos de mola gestacional. A histerectomia, ou seja, a cirurgia de retirada do útero, é reservada apenas para situações específicas e de maior gravidade.

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Este estudo da UFRJ reforça a necessidade de uma reflexão aprofundada sobre as práticas obstétricas no Brasil e o impacto a longo prazo das cesarianas na saúde feminina, especialmente no que tange ao risco de câncer de placenta. Para continuar acompanhando notícias e análises sobre saúde da mulher e outros temas relevantes, visite nossa editoria de Saúde da Mulher e mantenha-se informado.

Crédito da imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil

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