A recente decisão dos EUA sobre facções criminosas brasileiras, classificando-as como organizações terroristas, é vista por especialistas em geopolítica, economia e relações internacionais como um reflexo da nova doutrina imposta pelo governo Donald Trump à América Latina. Esta abordagem, segundo análises da Agência Brasil, visa instituir uma soberania limitada aos países da região, subordinando suas decisões aos interesses de Washington e potencialmente servindo como pretexto para futuras intervenções políticas.
A medida, longe de ser um ato isolado, insere-se em uma estratégia mais ampla que busca redefinir as relações de poder no continente americano. A interpretação dos analistas sugere que, ao categorizar grupos criminosos brasileiros sob o rótulo de terrorismo, os Estados Unidos abrem um leque de possibilidades para atuação externa que pode comprometer a autonomia do Brasil em suas políticas internas e externas. A questão central não reside apenas na classificação em si, mas nas implicações que ela acarreta para a autonomia política e jurídica da nação sul-americana.
Decisão EUA sobre Facções: Limite à Soberania do Brasil
Paulo Borba Casella, professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), alerta para o perigoso precedente que essa classificação estabelece. Ele compara a situação à atuação americana em relação ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, que, segundo Casella, foram “sequestrados” em Caracas em 3 de janeiro de 2026. A legislação americana, ao enquadrar uma organização como terrorista, concede ao governo dos EUA a prerrogativa de atacar agentes dessas entidades sem a necessidade de uma declaração formal de guerra ou de autorização do Congresso, ampliando significativamente a margem de manobra unilateral do país.
Essa interpretação é corroborada por Francisco Carlos Teixeira da Silva, cientista político especialista em relações internacionais e professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Teixeira da Silva sustenta que a ação faz parte de uma doutrina de soberania limitada, que tem sido aprofundada pela administração Trump. Ele enfatiza que, sob essa ótica, os Estados Unidos se atribuem o direito de intervir sempre que considerarem necessário, conforme seus próprios parâmetros, estabelecendo uma hierarquia de interesses na qual os objetivos americanos prevalecem sobre a autonomia dos países latino-americanos.
Em novembro de 2025, o governo Trump publicou a nova Estratégia Nacional de Segurança Nacional, um documento que explicitamente definia a necessidade de os EUA afirmarem sua proeminência sobre a América Latina. Para Francisco Carlos Teixeira da Silva, o propósito fundamental de Washington com essa política é minar a independência das nações e restaurar a hegemonia dos Estados Unidos nas Américas. Essa política externa mais assertiva e, para alguns, agressiva, é compreendida por especialistas em geopolítica como uma resposta direta à crescente influência econômica e tecnológica da China no cenário global, inserindo-se na disputa pela manutenção do controle e liderança da economia mundial.
Precedentes de Intervenção: Venezuela e México
Além dos casos de Venezuela e Cuba, frequentemente citados, o historiador Teixeira da Silva ressalta a situação do México. Facções criminosas atuantes em território mexicano, como o cartel de Jalisco, também foram classificadas como terroristas pelos EUA. Pouco depois dessa classificação, os Estados Unidos enviaram uma equipe da CIA (Agência de Inteligência dos EUA) para dentro do México sem a devida autorização do governo local. Esse episódio, que culminou na morte de dois agentes da CIA em um acidente de carro em abril de 2026 e irritou o governo de Claudia Sheinbaum devido à infiltração não autorizada, ilustra as consequências diretas e imediatas que tais classificações podem gerar.
Esses exemplos demonstram que a designação de organizações como terroristas não é meramente um ato declaratório, mas um passo que invariavelmente precede e justifica ações concretas, muitas vezes sem o consentimento ou conhecimento dos países envolvidos. A soberania do México, nesse contexto, foi claramente violada, servindo como um alerta para outras nações da região sobre o potencial impacto de classificações semelhantes.
Subordinação de Políticas Domésticas à Influência Externa
Para Luiz Carlos Prado, professor de economia internacional da UFRJ, a decisão do governo Trump, que encontra apoio em certos grupos políticos brasileiros, caminha na direção de impor ao Brasil uma soberania limitada. Ele argumenta que isso significa que o Brasil não seria um país plenamente soberano, tendo sua autonomia subordinada ao poder político americano. Consequentemente, o Brasil não teria a liberdade de formular uma diplomacia ou políticas autônomas baseadas em seus interesses domésticos, configurando-se, na prática, como um “aliado menor” sob a liderança americana.
Prado vai além, alertando que a designação de facções criminosas como terroristas pode ser utilizada para rotular outros grupos internos no Brasil, incluindo movimentos sociais, como apoiadores do terrorismo. Essa estratégia poderia ser aplicada mesmo sem a apresentação de provas ou indícios concretos, criando um pretexto para reprimir segmentos específicos da sociedade brasileira. O professor da UFRJ destaca a dificuldade histórica dos EUA em reconhecer a soberania de outras nações e sua postura de desrespeito a tratados internacionais, o que reforça a preocupação com o aumento da margem de manobra e pressão sobre o Brasil.
Essa decisão aumenta a margem de manobra e de pressão sobre o Brasil. É a antiga tradição americana de usar argumentos que não podem ser, em princípio, comprovados para justificar intervenções, comenta Prado. Ele acrescenta que ataques a países como Líbano e Síria, por exemplo, frequentemente são justificados pela percepção dos EUA de que essas áreas são controladas por organizações terroristas, conferindo uma “razão jurídica” para intervenções políticas. Para um aprofundamento sobre os princípios de soberania, é relevante consultar documentos fundamentais do direito internacional, como os presentes na Carta das Nações Unidas.
Em suma, a classificação de facções brasileiras como terroristas pelos EUA é vista por especialistas como um movimento estratégico que transcende a questão da segurança pública, adentrando o campo da geopolítica e da soberania nacional. As implicações são vastas, abrangendo desde a autonomia na formulação de políticas domésticas até o risco de intervenções externas, alinhando o Brasil a uma doutrina de soberania limitada sob a égide dos interesses americanos. A medida, portanto, exige uma análise cuidadosa de seus desdobramentos e um posicionamento firme em defesa da autonomia do país.
Confira também: Investir em Imóveis na Região dos Lagos
Para continuar acompanhando as análises sobre política internacional e as relações do Brasil com o mundo, explore mais artigos em nossa editoria de Política. Fique por dentro dos debates que moldam o futuro de nossa nação e do cenário global.
Crédito da imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil






