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Demanda por Líderes Iliberais: Análise de Bolsonaro e Trump

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A demanda por líderes iliberais, figuras como o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, o ex-presidente americano Donald Trump e o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, representa uma tendência que veio para ficar, segundo a cientista política francesa Marlene Laruelle. A especialista, diretora do Programa de Estudos sobre o Iliberalismo na Universidade George Washington (EUA), analisa o fim da era em que o liberalismo era a ideologia dominante e a ascensão de um novo projeto político que desafia as democracias tradicionais.

Há algumas décadas, especialmente após a queda do Muro de Berlim, o liberalismo era amplamente percebido como a ideologia vitoriosa. Princípios como o pluralismo, a limitação do poder estatal, a separação de poderes, os direitos individuais e a liberdade econômica, em diferentes graus, eram vistos como pilares inabaláveis das sociedades democráticas. No entanto, a professora Laruelle aponta que essa hegemonia chegou ao fim, e o iliberalismo se estabeleceu como uma ideologia competitiva no século 21.

Demanda por Líderes Iliberais: Análise de Bolsonaro e Trump

Marlene Laruelle, doutora em ciência política, argumenta que o iliberalismo transcende a mera crítica ao modelo liberal. Em entrevista, ela descreve-o como um novo programa político, pautado por elementos como a preponderância da vontade da maioria sobre o sistema de freios e contrapesos, o apelo à homogeneidade nacional e a primazia de valores conservadores. A pesquisadora, que está desenvolvendo um novo livro intitulado “Um adeus ao liberalismo”, com previsão de lançamento para 2027, sustenta que essa procura por líderes com propostas iliberais persistirá até que o liberalismo e seus defensores consigam apresentar um novo horizonte político que efetivamente aborde a redução das desigualdades sociais.

O Iliberalismo como Programa Político e Seus Componentes

Para Laruelle, é crucial entender o iliberalismo não somente como uma reação ao liberalismo, mas como uma proposta concreta e coerente. Ele se manifesta através de cinco componentes principais, que podem variar em intensidade: uma liderança forte e a defesa do majoritarismo em detrimento dos mecanismos de freios e contrapesos; a priorização da soberania nacional em face das instituições supranacionais; uma política externa que se contrapõe à ordem internacional liberal; o incentivo à homogeneidade da nação em oposição ao multiculturalismo; e, por fim, a exaltação de valores conservadores contra as agendas progressistas. A presença desses critérios, em suas diversas formas, caracteriza uma proposta iliberal.

A cientista política faz uma distinção importante entre o iliberalismo e outros termos frequentemente usados. Enquanto o populismo é, em grande parte, um recurso retórico, e conceitos como autoritarismo ou retrocesso democrático descrevem o estado das instituições, o iliberalismo define a ideologia em si, o conteúdo da proposta política. Ela ressalta que essa ideologia possui uma lógica interna e um conjunto de valores distintos, competindo diretamente com os princípios da democracia liberal.

O Declínio da Hegemonia Liberal

A perda de hegemonia do liberalismo, conforme Laruelle, pode ser explicada por diversos fatores interligados. Em primeiro lugar, a promessa de prosperidade econômica e progresso socioeconômico, historicamente associada ao liberalismo, não se sustenta mais. As últimas três décadas foram marcadas por um aumento significativo da desigualdade socioeconômica globalmente, quebrando a expectativa de que o crescimento econômico se traduziria em justiça social.

Um segundo aspecto reside na esfera cultural. O liberalismo, inicialmente compreendido pela neutralidade de suas instituições e pela garantia de que os indivíduos pudessem viver seus próprios sistemas de valores, tornou-se, gradualmente, muito progressista. Essa mudança gerou uma reação conservadora em uma parcela da população que se sentiu alienada por essa evolução.

Por fim, a transição para uma era pós-moderna, acelerada pelas redes sociais, contribui para essa desintegração. O individualismo extremo e a fragmentação dos laços sociais intensificaram a desconfiança nas instituições tradicionais, na ciência e no jornalismo. Diante da desintegração de conceitos como progresso, racionalidade e universalismo, que eram a base do liberalismo tradicional, sua hegemonia foi abalada.

A Crise de Imaginação Política

Laruelle destaca uma “crise de imaginação” na política contemporânea. Após o colapso do comunismo, a percepção de que o liberalismo havia triunfado e era a única via possível levou à estagnação ideológica. O liberalismo, segundo a pesquisadora, perdeu a capacidade de projetar um futuro inspirador, limitando-se a ajustes tecnocráticos e pequenas melhorias no Estado de bem-estar social, características da tecnocratização neoliberal. Essa narrativa de “não há mais escolha” ou “não há mais política” resultou em uma lacuna que foi preenchida pelas extremas direita e esquerda, com a direita sendo mais bem-sucedida em reinventar um imaginário político que contesta o “status quo”. É crucial, portanto, que as forças liberais abandonem a postura defensiva e sejam capazes de propor algo atraente para a população.

Demanda por Líderes Iliberais: Análise de Bolsonaro e Trump - Imagem do artigo original

Imagem: www1.folha.uol.com.br

A Persistência da Demanda por Líderes Iliberais

A cientista política afirma com convicção que a demanda por líderes iliberais chegou para ficar. Não se trata de uma recusa à democracia, mas de uma crença de que a democracia pode funcionar melhor sob a liderança desses indivíduos. Muitos sentem que o liberalismo não entrega mais resultados econômicos e não oferece uma direção clara para o futuro. Dessa forma, a proposta iliberal permanecerá relevante até que ocorra uma transformação profunda nos sistemas políticos e no cenário internacional, configurando um momento histórico de transição.

Nacionalismo Cristão e a Linguagem Inflamatória

O nacionalismo cristão, conforme Laruelle, é uma interpretação iliberal da religião. Ele vai além de uma leitura estrita das escrituras, exigindo um papel controlador no espaço público e, em alguns casos, buscando a transformação do Estado em um regime religioso com uma única interpretação da fé. Essa abordagem é potencialmente perigosa, pois ao enxergar o oponente político não como parte de um debate democrático normal, mas como uma oposição teológica, destrói-se o princípio fundamental da democracia e abre-se caminho para a violência política.

A linguagem utilizada por líderes como Bolsonaro e Trump, que frequentemente se refere a “guerra espiritual” ou “expulsar o mal”, exemplifica essa linha divisória entre o simbólico e o real. Embora tais narrativas metafóricas possam ser interpretadas de diversas maneiras – desde um exagero retórico até um mecanismo de engajamento em redes sociais –, elas também podem ser tomadas literalmente por parte da audiência como um chamado à violência, seja ela simbólica ou física. Essa ambiguidade é uma característica comum de suas estratégias, que visam mobilizar eleitores, desacreditar a oposição e polarizar a opinião pública, transformando divergências políticas em conflitos filosóficos ou teológicos. Tal polarização extrema impede o acordo e a coexistência, indo na contramão dos ideais democráticos.

O Caminho para o Liberalismo Recuperar a Competitividade

Embora a hegemonia do liberalismo esteja perdida, Laruelle acredita que ele pode se tornar novamente competitivo. Para isso, é essencial que o liberalismo rompa laços com o neoliberalismo e redefina sua relação com certas formas de capitalismo. Sem essa reavaliação, será incapaz de apresentar um projeto político que atraia um número significativo de pessoas. Além disso, o liberalismo precisa renegociar o que significa ser progressista, expandindo o conceito para além da política de identidade e abordando questões socioeconômicas. Há uma chance de recuperação, mas isso exigirá um esforço considerável para se reinventar e competir efetivamente com a proposta iliberal.

Marlene Laruelle, aos 53 anos, é professora de ciência política na Universidade Luiss, em Roma (Itália), e possui doutorado pela Universidade Sciences Po, em Paris (França), consolidando sua expertise no estudo do iliberalismo.

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A análise da cientista política Marlene Laruelle oferece uma perspectiva aprofundada sobre a ascensão da demanda por líderes iliberais e os desafios enfrentados pela democracia liberal na atualidade. Compreender essa dinâmica é fundamental para o debate político e social. Continue acompanhando as análises de cenários políticos em nossa editoria de Política para se manter informado sobre as transformações globais.

Crédito da imagem: Arquivo pessoal

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