A disputa IA China EUA tem se intensificado, com ambas as potências globais liderando iniciativas distintas que visam moldar o futuro da Inteligência Artificial (IA). Essas ações não apenas influenciam a cadeia produtiva da tecnologia, mas também geram repercussões geopolíticas significativas, definindo o cenário para o desenvolvimento econômico e social mundial.
De um lado, os Estados Unidos (EUA) buscam estabelecer um sistema robusto com parceiros estratégicos para controlar as cadeias de suprimentos essenciais à IA, incluindo semicondutores, minerais críticos e fontes de energia. Por outro lado, a China propõe um modelo de governança que convoca todas as nações a participar, promovendo sistemas de código aberto que permitem a apropriação tecnológica por qualquer entidade ou organização.
Disputa IA China EUA: Waico e Pax Silica Moldam Futuro Global
O Brasil, diante deste cenário de polarização tecnológica, tem defendido uma postura de independência, afirmando que o país não deve se vincular exclusivamente a nenhum dos modelos propostos, seja o chinês ou o ocidental. O governo brasileiro enfatiza a importância do diálogo com todas as iniciativas para garantir a soberania digital nacional.
A Pax Silica: Estratégia Ocidental para a IA
A iniciativa norte-americana, denominada Pax Silica, foi lançada em dezembro de 2025 pelo então governo de Donald Trump, em um período em que os EUA boicotavam esforços multilaterais para regulamentar a IA na Organização das Nações Unidas (ONU). Inicialmente, o grupo contava com Japão, Israel, Reino Unido, Emirados Árabes Unidos (EAU), Singapura, Países Baixos (Holanda) e Austrália.
Atualmente, a Pax Silica expandiu-se e é composta por 23 países, além da União Europeia. Em junho de 2026, nações latino-americanas como Argentina, El Salvador, Chile, Costa Rica e Panamá uniram-se à parceria. Índia, Catar e Filipinas também integram o grupo. O principal objetivo da Pax Silica é coordenar, entre os países alinhados à Casa Branca, uma ordem econômica sustentável que fomente uma era de prosperidade impulsionada pela IA em todas as nações parceiras.
Entre os alvos específicos da iniciativa estão a garantia de “segurança” no acesso a insumos e matérias-primas tecnológicas, a abordagem de vulnerabilidades na cadeia produtiva e a exploração de investimentos conjuntos. Ettore Arpini, especialista em governança de IA e fundador da organização Plures, que apoia a formação de profissionais na área, destacou à Agência Brasil que o modelo dos EUA tende a beneficiar um grupo seleto de aliados, deixando outras nações em desvantagem.
Conforme Arpini, esta abordagem gera riscos significativos para empresas e países que dependam de uma IA estrangeira específica para suas operações. Ele exemplifica que, se a economia central de um país depender de um modelo de IA como o Chat GPT, uma decisão abrupta de Washington poderia bloquear o acesso, paralisando a economia inteira do país e tornando-o refém dos EUA ou de grandes empresas de tecnologia.
A Waico: Proposta Chinesa de Governança Global da IA
Em contraste, a China apostou em uma abordagem mais inclusiva para a governança internacional da tecnologia, lançando a Organização Mundial de Cooperação em IA (Waico) em julho de 2026, com sede em Xangai. A Waico é uma organização aberta a todas as nações e já conta com a adesão de 29 países, incluindo o Brasil.
Outros signatários da declaração incluem Rússia, Indonésia, Cazaquistão, África do Sul, Quênia, Etiópia, Moçambique, Venezuela, Cuba, Omã e Paquistão. A declaração de criação da Waico defende enfaticamente o desenvolvimento de IA de código aberto, um modelo que permite o uso livre da tecnologia por terceiros, sem a necessidade de contratos pagos, prática comum entre as grandes empresas de tecnologia dos EUA, como OpenAI (Chat GPT), Anthropic (Claude) ou Google (Gemini).
Uma IA de código aberto permite que a tecnologia seja examinada, estudada, modificada e redistribuída por qualquer pessoa ou organização, possibilitando o uso do software em servidores próprios e eliminando a necessidade de enviar informações a terceiros. Em contrapartida, a IA de código fechado, de propriedade de uma empresa, só pode ser utilizada com a autorização do proprietário, geralmente mediante o pagamento de taxas que podem ser alteradas ou ter o acesso cortado a qualquer momento.

Imagem: Divulgação – Divulgação via agenciabrasil.ebc.com.br
Sérgio Amadeu da Silveira, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e especialista em tecnologia e sociedade, aponta que a iniciativa chinesa pode oferecer vantagens consideráveis para países que ainda não desenvolveram IA de ponta. Contudo, Silveira ressalta que nações como o Brasil precisam investir no desenvolvimento de sua própria infraestrutura local para processar a IA e, assim, aproveitar plenamente os benefícios da proposta chinesa. “Se a gente não desenvolver capacidades aqui dentro e, principalmente, infraestruturas nossas, a gente não vai conseguir nem se apropriar do conhecimento”, comentou.
Sul Global e Interesses Comerciais na IA
A declaração oficial da Waico sublinha que a governança global da IA deve ser promovida por todos, com o objetivo de reduzir e eliminar barreiras técnicas, orientando-se para o desenvolvimento sustentável. O documento enfatiza que o Sul Global deve desenvolver tecnologias e serviços de IA baseados em suas próprias condições nacionais, para que possa “realmente entrar em contato e aplicar a inteligência artificial e a promover o desenvolvimento inclusivo”.
No discurso de lançamento da Waico, o presidente chinês Xi Jinping enviou mensagens indiretas aos EUA, ao afirmar que a segurança nacional de um país não pode ser alcançada em detrimento da segurança de outras nações. “O desenvolvimento da IA não deve ser uma atuação solo de um único país, mas sim uma sinfonia de cooperação global”, declarou Xi. Para Ettore Arpini, a iniciativa chinesa se contrapõe à lógica dos EUA. “Em vez de concentrar o acesso em quem já é aliado confiável, o posicionamento da China é de abrir os modelos, acumular aliados e fazer uma governança global com todos os países que quiserem participar. Tudo isso alegando que essa é uma tecnologia transformadora e que precisaria ser entendida como um bem comum”, explicou.
Os especialistas Arpini e Amadeu convergem ao afirmar que o interesse da China com a Waico transcende a influência geopolítica, incluindo uma dimensão comercial estratégica. A China pode obter ganhos significativos ao oferecer infraestrutura para os países que adotarem a IA de código aberto desenvolvida no país asiático. Arpini detalha: “O Brasil tem que pagar uma assinatura para rodar o Chat GPT. Com a iniciativa Waico, a gente pode rodar um modelo local, aberto, desenvolvido na China. Para Pequim, será interessante a partir do momento que a gente use infraestrutura e chips que a China proveria, e não os EUA.”
O desenvolvimento da inteligência artificial segue sendo um ponto central nas relações internacionais e na economia global. Para compreender mais sobre a importância de uma abordagem ética e inclusiva na IA, você pode consultar estudos e recomendações internacionais, como os publicados pela UNESCO sobre ética em inteligência artificial.
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A complexidade da disputa entre China e EUA pela governança da IA, evidenciada pelas iniciativas Waico e Pax Silica, sublinha a urgência de debates sobre soberania digital e acesso à tecnologia. Este cenário redefine as alianças e o futuro do desenvolvimento tecnológico global. Para continuar acompanhando as análises mais recentes sobre política, economia e tecnologia, visite nossa editoria de Política.
Crédito da imagem: Divulgação/Gov.Br







