A aclamada Filumena Marturano: Peça Questiona Papel da Mulher na Sociedade, obra-prima do dramaturgo italiano Eduardo De Filippo, ganha uma inédita montagem do Grupo Tapa, trazendo aos palcos paulistanos um questionamento atemporal sobre o lugar da mulher na estrutura familiar e social. A trama, que se desenrola com a complexidade de um drama social e o alívio da comédia popular, narra a engenhosa estratégia de uma ex-prostituta, Filumena, que forja a própria morte para garantir o futuro de seus filhos, expondo as hipocrisias de um burguês mulherengo e egoísta.
Em uma reviravolta teatral, Filumena Marturano, à beira do que parece ser o fim de sua vida, orquestra um casamento com seu parceiro de longa data, um abastado e libertino burguês. Contudo, essa união é, na realidade, um ardil meticuloso com um único objetivo: apoderar-se do sobrenome do ricaço e assegurar a estabilidade e o reconhecimento de seus três filhos. Essa narrativa central, que desafia e redefine as dinâmicas entre homens e mulheres, constitui o cerne de ‘Filumena Marturano’, universalmente reconhecida como a mais notável criação de Eduardo De Filippo.
O Grupo Tapa, renomado por seu repertório diversificado que transita entre clássicos como William Shakespeare e Nelson Rodrigues, há anos nutria o desejo de encenar uma obra de De Filippo. Agora, concretiza essa aspiração com a estreia de
Filumena Marturano: Peça Questiona Papel da Mulher na Sociedade
, marcando a primeira vez que a trupe brasileira se dedica a um texto do autor italiano. A encenação, que promete ser um marco no cenário teatral de São Paulo, explora a profundidade dos dramas sociais e a leveza da comédia popular, características marcantes do dramaturgo.
A Visão do Grupo Tapa e a Atualidade da Obra
A montagem de “Filumena Marturano” no palco do Teatro Sesi, localizado na emblemática avenida Paulista, traz à vida a figura complexa e arisca de Filumena, interpretada com maestria pela atriz Sandra Corveloni. Sob a direção precisa de Eduardo Tolentino de Araújo, diretor do próprio Grupo Tapa, a peça ressoa com grande pertinência nos dias atuais. Tolentino de Araújo, que viajou a Nova York e Veneza para estudar diferentes versões da obra, ressalta a atualidade do texto, mesmo escrito em 1946, após o fim da guerra.
O diretor destaca que “Filumena não foi uma feminista que queimou sutiãs, mas ela segura o tranco que é ser mulher, como muitas no Brasil”. Essa observação sublinha a força e a resiliência da personagem, que, sem levantar bandeiras explícitas, encontra soluções para seus desafios. “Ela resolve seus problemas sem levantar uma bandeira, mas dialoga com o que estamos vivendo. É uma mulher do povo, expandindo questões por vezes restritas a intelectuais”, complementa Tolentino, evidenciando como a luta de Filumena transcende as barreiras sociais e intelectuais, tornando-a um espelho para a experiência feminina em diversas camadas da sociedade.
O Papel da Mulher na Visão de De Filippo e do Elenco
No desenrolar da trama, a protagonista desafia todos ao seu redor, exceto a fiel empregada, vivida por Maria do Carmo Soares, sua maior defensora. Filumena provoca o criado, interpretado por Walter Breda, que frequentemente incentiva os caprichos do patrão. Ela confronta o próprio Domênico, personagem de André Garolli, e até mesmo a amante que entra às escondidas, forçando seu namorado a se aproximar de seus filhos, cuja paternidade ele questiona. Em um momento crucial, ao proferir verdades incômodas sobre o parceiro, Filumena gera um tipo de “curto-circuito” emocional, fazendo com que os demais personagens pareçam travar e recuar fisicamente, em uma representação potente do impacto de suas palavras.
A personagem interage diretamente com o público por meio de monólogos e canções napolitanas, típicas da cultura popular italiana, definindo as regras de um lar burguês que, em 1946, parecia ignorar os horrores da guerra que se findava. André Garolli, intérprete de Domênico, oferece uma perspectiva sobre a obra, afirmando que “De Filippo está falando da ‘mãe Itália’ e defendendo que todos os seus filhos são iguais”. Garolli observa que seu personagem tenta estabelecer uma conexão com os possíveis descendentes, apesar das evidentes diferenças sociais, e que o autor “se aproveita do fim do conflito para denunciar uma nação desunida”, traçando um paralelo entre a crise familiar e a crise nacional.
Diálogos com a Sociedade Brasileira Contemporânea
Apesar de o dramaturgo Eduardo De Filippo ter sido apelidado pela crítica de “Shakespeare italiano”, sua influência no Brasil foi mitigada por diversos fatores. Durante o período da ditadura militar, o autor chegou a proibir a circulação de suas obras no país. Além disso, enfrentava dificuldades para receber o repasse de direitos autorais em regiões fora da Europa, o que contribuiu para uma menor popularidade de suas peças em terras brasileiras.

Imagem: www1.folha.uol.com.br
No entanto, a relevância de “Filumena Marturano” persiste. Para Sandra Corveloni, que tem uma “mama” tradicional como sogra, a peça não está defasada. A atriz aponta que “Hoje se fala muito da mulher que faz dupla, até tripla jornada, e ainda é responsável por cuidar dos filhos. Mas é evidente que esses debates seguem restritos a uma bolha”. Essa visão ecoa a realidade de muitas mulheres brasileiras que, como Filumena, enfrentam múltiplos papéis e responsabilidades, muitas vezes em silêncio. Maria do Carmo Soares reforça essa perspectiva, citando uma pesquisa divulgada pela Fundação Getúlio Vargas em 2024, que revela que mais da metade dos lares brasileiros são chefiados por mulheres. “Mesmo analfabeta, Filumena traz um discurso afetivo e luta para que os filhos tenham identidade”, afirma a atriz, destacando a força inata da personagem.
Em certas passagens, as ações da empregada e de Filumena se sobrepõem, ora reforçando estereótipos de gênero, ora ilustrando uma resiliência que atravessa gerações de mulheres. Essa dinâmica espelha a relação entre Domênico e seu servo, que por vezes age como um duplo mais velho do ricaço mulherengo, revelando as complexidades das relações de poder e subserviência. Walter Breda, que já foi premiado por uma versão de “A Arte da Comédia”, outra peça de De Filippo que aborda o descaso das autoridades pela cultura, conclui que “Não sei se De Filippo pensou em todas essas nuances, mas todos os elementos estão postos, para que cada um interprete à sua maneira”, indicando a riqueza interpretativa da obra.
Informações Essenciais da Montagem
A peça “Filumena Marturano” estará em cartaz até 29 de outubro, com apresentações de quinta-feira a sábado, sempre às 20h, e aos domingos, às 19h. O local do evento é o Teatro do Sesi São Paulo, situado na Avenida Paulista, 1313, em São Paulo. A entrada é gratuita, e os ingressos podem ser reservados através do site oficial do Sesi-SP. A classificação etária para assistir à peça é de 12 anos. A autoria é de Eduardo De Filippo, e o elenco principal conta com os talentos de Sandra Corveloni, André Garolli e Walter Breda, sob a direção de Eduardo Tolentino de Araújo. Para mais informações sobre a peça no site do SESI-SP, clique aqui.
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A montagem de “Filumena Marturano” pelo Grupo Tapa é uma oportunidade imperdível para refletir sobre as complexas relações humanas e o eterno papel da mulher na sociedade, um tema que, como a peça, transcende o tempo. Não perca a chance de vivenciar este drama social com toques de comédia que continua a provocar e inspirar. Continue explorando as diversas facetas da cultura e dos acontecimentos de São Paulo em nossa editoria de Cidades.
Crédito da imagem: Ronaldo Gutierrez/Divulgação







