A corrida pela liderança em inteligência artificial (IA) nos Estados Unidos, impulsionada por investimentos bilionários das gigantes de tecnologia, enfrenta um novo cenário: os investidores que anteriormente sustentavam esse avanço agora demonstram maior cautela. Consequentemente, eles começam a cobrar um prêmio de risco elevado para financiar o setor, sinalizando uma reavaliação das perspectivas futuras.
Recentemente, na terça-feira (28), a Meta e a BlackRock anunciaram a construção de um novo e gigantesco centro de dados localizado no Texas. Este empreendimento colossal, cujo valor estimado alcança cerca de US$ 14 bilhões, terá a BlackRock como principal investidora, responsável por 80% do capital, enquanto a Meta contribuirá com os 20% restantes. É importante notar que essa dívida não será incorporada ao balanço da Meta, uma estratégia que já foi utilizada anteriormente.
Investidores Elevam Prêmio para Financiar Corrida da IA
Para viabilizar o projeto, a BlackRock captou aproximadamente US$ 12,5 bilhões através da emissão de títulos corporativos por meio de uma empresa de propósito específico. Um contrato de uso do centro de dados com a Meta, com validade de até 20 anos, foi crucial para garantir aos papéis a classificação A+ da S&P Global, atestando sua solidez. Este modelo de financiamento não é uma novidade no mercado. Em outubro, a Meta e a gestora americana Blue Owl Capital aplicaram uma abordagem similar para financiar o megacentro de dados Hyperion, situado na Louisiana, angariando cerca de US$ 27,3 bilhões no mercado de títulos.
Contudo, a diferença marcante no cenário atual reside no custo do financiamento. Enquanto na operação do Hyperion o spread, ou prêmio de risco, dos títulos era de 2,25 pontos percentuais, na transação recente da BlackRock, esse valor subiu para 2,88 pontos. Esse aumento no prêmio de risco reflete de forma inequívoca uma redução do otimismo e um considerável aumento na prudência por parte dos investidores.
O mercado de dívida corporativa tem sido inundado por um volume expressivo de emissões diretamente ligadas ao setor de inteligência artificial. Neste ano, cerca de 15% de todos os títulos emitidos nos Estados Unidos tiveram origem em empresas de hiperescaladores – grandes fornecedores de computação em nuvem –, além de desenvolvedores e operadores de centros de dados, e até mesmo companhias de energia que estão expandindo sua capacidade para atender à crescente demanda do setor de IA. Essa participação representa um crescimento impressionante, sendo quase 20 vezes maior do que o registrado no mesmo período do ano anterior, evidenciando a intensidade e a escala do movimento.
A demanda por capital tem sido tão robusta que, em 7 de julho, quando a Amazon realizou uma captação de US$ 25 bilhões por meio da emissão de títulos, os papéis da companhia que já estavam em circulação perderam valor logo após a definição das condições da oferta. Um gestor de fundos de Nova York comentou sobre o cenário, afirmando que “o mercado está tendo alguma dificuldade para absorver o enorme volume de emissões relacionadas à inteligência artificial”. Essa dificuldade sinaliza uma saturação potencial, mesmo diante do entusiasmo contínuo pela IA.
Nathaniel Rosenbaum, estrategista da equipe de crédito de alta qualidade do JP Morgan, prevê que, “até o fim do ano, o setor de tecnologia deverá superar os bancos e se tornar o maior segmento do mercado americano de títulos”. Essa projeção ressalta a transformação acelerada do panorama financeiro impulsionada pela IA. Um índice de títulos corporativos de alta qualidade, calculado por instituições como a Intercontinental Exchange, demonstra que os spreads de papéis de empresas de tecnologia com vencimento superior a 15 anos passaram a superar com folga a média do mercado desde o início do ano, confirmando a elevação dos custos de empréstimo para o setor.
Apesar do cenário de maior cautela no mercado de dívida, a demanda por ações de empresas de tecnologia inovadoras continua forte em certas esferas. A SpaceX, por exemplo, realizou a maior abertura de capital da história em junho, levantando notáveis US$ 75 bilhões com uma forte demanda de investidores globais. As ações foram precificadas a US$ 135, avaliando a empresa em US$ 1,77 trilhão. Contudo, o entusiasmo inicial moderou: a SpaceX, que chegou a valer cerca de US$ 3 trilhões após sua estreia, hoje tem seu valor de mercado girando em torno da metade desse pico, com as ações caindo abaixo do preço inicial de US$ 135 e se aproximando da marca de US$ 100.

Imagem: Panumas Nikhomkhai via valor.globo.com
Dados da London Stock Exchange Group (LSEG) revelam que, das 15 maiores captações realizadas neste ano por meio de ofertas públicas de ações, 12 vieram de empresas diretamente ligadas à inteligência artificial, destacando o impacto massivo da tecnologia nos mercados de capitais. A SpaceX liderou esse ranking, captando cerca de US$ 86,2 bilhões. Em seguida, a Alphabet, controladora do Google, angariou US$ 84,75 bilhões no mês passado com a emissão de ações ordinárias e preferenciais, e a sul-coreana SK Hynix levantou outros US$ 26,5 bilhões por meio de recibos de depósito americanos (ADRs).
No segmento de empréstimos sindicados, o ritmo de financiamento para centros de dados também acelerou consideravelmente. Conforme a provedora global de informações financeiras LSEG, as operações nos Estados Unidos voltadas para data centers e atividades correlatas alcançaram a cifra de US$ 96 bilhões no primeiro semestre, um montante mais que o dobro do registrado no mesmo período do ano passado. Os bancos japoneses, em particular, têm demonstrado uma forte inclinação para financiar esses projetos de infraestrutura essencial para a IA. O maior empréstimo sindicado de 2026 até o momento, totalizando US$ 22,75 bilhões, foi liderado pelo Mitsubishi UFJ Financial Group e destinado a um empreendimento da Vantage Data Centers no Texas, reforçando a tendência de investimento massivo em infraestrutura para suportar a IA.
Apesar da percepção generalizada de que a adoção em larga escala da inteligência artificial possui um potencial transformador para a economia global e para o cotidiano, o mercado ainda se encontra distante de um consenso sobre a verdadeira dimensão e o impacto duradouro dessa mudança. Daniel Ivascyn, diretor de investimentos da gestora Pimco, expressou uma postura cautelosa. “Nós, da Pimco, somos bastante cautelosos” em relação aos investimentos em IA, afirmou Ivascyn, destacando a importância de “não ter uma exposição excessiva a esse risco”.
De acordo com Ivascyn, uma aposta robusta no setor de inteligência artificial requer a crença não apenas de que a tecnologia entregará os ganhos de produtividade esperados, mas também que as empresas que hoje ocupam posições de liderança nessa corrida conseguirão manter essa vantagem competitiva e sustentar a viabilidade de seus modelos de negócio a longo prazo. Essa ressalva sublinha os desafios inerentes ao investimento em um setor em rápida evolução e com alto grau de incerteza.
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Em suma, enquanto a inteligência artificial continua a atrair volumes massivos de capital, os investidores estão reavaliando os riscos, exigindo prêmios mais altos e uma maior prudência. O aumento das emissões de títulos e a volatilidade de algumas ações refletem um mercado em busca de equilíbrio entre o potencial transformador da IA e as incertezas de sua maturação. Para se manter atualizado sobre as últimas tendências e análises do mercado financeiro e de tecnologia, continue acompanhando nossa editoria de Economia.
Crédito da imagem: Valor One







