Avançando em sua estratégia de autonomia tecnológica, o Japão confirmou a descoberta de elementos de terras raras, cruciais para a fabricação de semicondutores, veículos elétricos e equipamentos de defesa. Esta notável recuperação ocorreu durante um teste de perfuração em águas profundas, marcando um potencial ponto de virada na busca do país asiático para diminuir sua dependência de cadeias de suprimentos globalmente dominadas pela China. A expedição, que durou um mês e foi realizada no início deste ano nas proximidades de Minamitorishima, uma remota ilha japonesa no vasto Oceano Pacífico, conseguiu extrair aproximadamente 50 toneladas de lama de uma impressionante profundidade de 6.000 metros.
A análise minuciosa do material extraído revelou a presença de elementos de terras raras vitais, incluindo ítrio, gadolínio, disprósio e neodímio, conforme anunciado nesta sexta-feira pelo governo japonês e pelas organizações envolvidas no ambicioso projeto. Cada um desses elementos possui aplicações industriais estratégicas: o ítrio é indispensável na produção de semicondutores avançados e em sistemas de defesa, enquanto o gadolínio é empregado em materiais de controle de reatores nucleares. O disprósio, por sua vez, é fundamental em componentes de veículos elétricos, e o neodímio é essencial na fabricação de ímãs de alto desempenho, utilizados em diversas tecnologias modernas.
Este achado não apenas reforça as perspectivas de uma maior autossuficiência, mas também sinaliza um passo importante no cenário geopolítico e econômico. As organizações envolvidas asseguraram que não foram detectados níveis significativos de substâncias perigosas ou materiais radioativos no material recuperado, embora a quantidade exata de terras raras efetivamente extraída não tenha sido detalhada publicamente. Com base nos resultados promissores deste teste, o Gabinete do Governo e a Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinha-Terrestre (JAMSTEC) estão planejando uma operação de maior escala para fevereiro na mesma região.
Japão Encontra Terras Raras em Profundidade no Pacífico
O objetivo central dessa próxima fase é testar a totalidade da cadeia de produção – desde a extração e separação até o refino – em escala industrial, avaliando assim a viabilidade de uma produção doméstica sustentável de terras raras. A expectativa é que uma decisão formal sobre a viabilidade econômica da exploração comercial desses depósitos seja tomada em março de 2028.
Descoberta Estratégica no Oceano Pacífico
Essa iniciativa japonesa se insere em uma estratégia de longo prazo, iniciada há cerca de uma década, para fortalecer a resiliência de sua cadeia de suprimentos e reduzir a vulnerabilidade à China. Atualmente, o país asiático detém uma posição dominante, respondendo por aproximadamente 70% da produção mundial de mineração de terras raras e quase 90% da capacidade global de refino. Essa hegemonia já foi utilizada por Pequim como ferramenta em momentos de tensões comerciais e geopolíticas, como ficou evidente quando a China impôs controles de exportação sobre algumas terras raras em abril de 2025, resultando em um forte aumento nos preços de elementos como disprósio e térbio.
Cenário Global e a Dependência da China
Os reflexos dessa política chinesa são amplos. A empresa australiana Lynas, uma das poucas corporações fora da China atuando na extração e refino desses materiais críticos, recentemente revisou para cima em US$ 80 milhões a previsão de custo para uma nova unidade na Malásia. Este aumento é, em parte, atribuído às restrições impostas pela China à venda de equipamentos para produtores estrangeiros. Um relatório recente da Agência Internacional de Energia (AIE) alertou que a implementação integral das restrições chinesas poderia colocar em risco uma produção industrial de US$ 6,5 trilhões fora da China, com impactos severos em setores cruciais como automotivo, eletrônicos, defesa e transporte.

Imagem: Reprodução Nikkei Asia via valor.globo.com
Japão Reforça Estratégia de Resiliência
O Japão, historicamente, foi um dos primeiros países a sentir diretamente o impacto do domínio chinês sobre a cadeia de terras raras. Um episódio marcante ocorreu durante uma disputa diplomática entre os dois países em 2010. Desde então, Tóquio tem implementado uma série de medidas proativas, incluindo a diversificação de fornecedores, a criação de estoques estratégicos e o apoio a projetos de reciclagem. Essas ações reduziram significativamente a vulnerabilidade do Japão em comparação com outras economias avançadas. Os novos testes de perfuração em águas profundas têm o potencial de reforçar ainda mais essa estratégia de autossuficiência e segurança.
Estimativas indicam que a Zona Econômica Exclusiva (ZEE) do Japão abriga vastos depósitos de lama e rochas do fundo do mar, extremamente ricos em terras raras. Somente a área próxima à ilha de Minamitorishima, situada a aproximadamente 2.000 quilômetros a sudeste de Tóquio, conteria reservas avaliadas em cerca de 16 milhões de toneladas. Esse volume colossal equivale à terceira maior base de recursos de terras raras do mundo, sublinhando a importância estratégica e o potencial transformador dessa descoberta para o futuro econômico e tecnológico do Japão.
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A confirmação da presença de terras raras em profundidades oceânicas representa um marco para a segurança econômica e tecnológica do Japão, oferecendo um caminho promissor para mitigar a dependência de fornecedores externos e consolidar sua resiliência industrial. Acompanhe as próximas fases deste projeto e outras análises sobre geopolítica e economia em nossa editoria de Economia.
Crédito da imagem: Valor One







